Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

Um ano depois.

    Há quase um ano produzi a peça que é o meu xodó. Gostei tanto que decidi utilizá-la como logotipo. Ela foi feita de forma despretenciosa e talvez por isso sua execução tenha fluído de maneira especialmente agradável. Lembro-me de que as mãos trabalhavam sozinhas, com pouquíssima interferência da mente. O resultado final foi surpreendente para mim, pois aproximava-se muito do visual que busco para minha produção. Ali não há lugar para o óbvio nas formas ou nas cores, mas a junção da falta de sentido dos dois lados teve um aspecto harmonioso, embalado em total rusticidade. 
    Um ano depois, recebo um pedido para algo no mesmo estilo, igual, se possível. Impossível, pensei! Passei por quatro estações, as libélulas voltaram, tem feito um calor descomunal, conheci pessoas novas, aprendi coisas novas, visitei lugares que já conhecia mas em nova companhia, descobri lugares novos, assisti ao show do Deep Purple, comecei a praticar exercício regularmente (mesmo!), concluí que, pasme, o chocolate inglês é o melhor do planeta, algumas pessoas morreram, outras estão gestando, então como é que eu posso fazer algo igual ao que aquela pessoa de um ano atrás fez?
    No exercício de desvendar o que tornou a primeira peça especial parti para a execução da segunda. Como já estava assumido que cópia não seria uma possibilidade, escolhi a inspiração e aos poucos uma nova criatura nasceu. Semelhante, evidentemente, mas com uma personalidade totalmente diferente. Coruja que sou, também me apaixonei por esta. Antes que siga para o seu destino não me canso de olhá-la sob diferentes luzes, bem de perto e depois à distância. Todo o processo me pareceu tão interessante que tive a inviável vontade de revisitar tudo o que foi produzido neste intervalo de tempo e refazer cada peça com os novos olhos, as novas mãos e o novo espírito que tenho agora.

                                                 2011 
                                                                                        2012

Vergonha de mim.

    Ontem foi um dia no qual a natureza chamava e para atender ao seu clamor rumamos para a opção mais imediata: o parque Estoril. Acredito que só havia ido lá uma única vez, quando criança, então seria como conhecer um lugar novo. Sabendo que foi reinaugurado há alguns anos, esperava ao menos locais de contemplação com vista para a represa. Bem, uma vez lá,  contatamos que aindá há uma série de obras em andamento para que o visitante possa, futuramente, aproveitar melhor o espaço.
    A estradinha que conduz ao estacionamento dá uma amostra da exuberância da Mata Atlântica. O ar ali tem outro aroma e é possível ver no tronco das árvores um líquen vermelho, observado apenas em localidades onde há pouca ou nenhuma poluição. Ao lado do bolsão de estacionamento há o Zoológico Municipal. Eu não fazia a menor idéia de que a cidade possuía um zoológico e faço menos idéia ainda do motivo que me levou a entrar. O fato é que não estava nem um pouco preparada para aquilo. No site da cidade há a informação sobre o objetivo dos cativeiros: estudo e reprodução de espécies ameaçadas de extinção, entre elas o Tamanduá Mirim e o Cachorro Vinagre. O Tamanduá foi justamente o primeiro animal que vi e a sensação imediata foi de ver uma pessoa que foi morar num apartamento. Era eu que estava no viveiro. Pronto, meu processo de angústia havia começado. Depois achei que o pequeno Tamanduá sofre de solidão ali, sem um companheiro da mesma espécie, e me senti uma pessoa horrível por compactuar da sua situação.
    Há também primatas de algumas espécies, répteis, muitas aves e outros exemplares de animais selvagens. O Cachorro Vinagre também ocupava sozinho seu insignificante viveiro e rodeava initerruptamente os limites da sua prisão com um olhar perdido, vidrado. E foram justamente os olhares que acabaram comigo. São olhares iguais aos nossos, profundos e comunicativos. Agora iamgine você qual é o olhar de um falcão colocado em um lugar onde não lhe é possível voar. Um ser que foi projetado para ganhar os céus e não conhcecer limites passa os seus dias num revezamento entre três galhos.
    Experimentei uma penosa dualidade de sentimentos: a admiração pela Criação, ao ver criaturas tão maravilhosas e uma vergonha indizível de estar ali, incentivando de certa maneira uma prática que para mim, não se justifica. Como se pretende estudar um animal tirando-o de seu habitat? O que seria possível saber sobre a humanidade se pegassem um de seus exemplares e o trancassem naquele quartinho que todo mundo tem em casa, mas que fosse árido, precário e sujo? Não! Isto é muito errado, sobretudo injusto. E não se pode dizer que os visitantes saem de lá instruídos sobre as espécies pois os cartazes explicativos são deveras simplistas quando existem. Além do mais não há este intuito naqueles que ali passeiam. Tome como exemplo uma família que estava em frente a uma dupla de Emas com penagens decadentes. A avó diz para o neto: "Olha a Hiena, Pedro!". É corrigida pela filha: "É Ema. Tá escrito aqui, Ema". E a avó deflagra todo o seu interesse: "Tanto faz!"
    Sim, não há dúvidas de que somos seres especistas. Temos a convicção de que somos superiores aos demais seres com os quais dividimos o planeta. Muitos podem achar isto natural devido a discrepante capacidade de raciocínio da qual o humano é dotado. Sim, esta diferença existe, mas diferença não é sinônimo de melhor ou pior, é só diferente. Para quem não vê a questão bem assim eu sugiro pegar um indivíduo graduado, pós-graduado, mestre, doutor, livre docente, com todo estudo e especialização que se possa fazer em um assunto bem complicado como ciências da computação ou engenharia naval ou mecatrônica ou genética ou história pré-clássica ou astronomia, enfim, pegue um sujeito desses que são mais capazes do que média dos mortais e coloque-o no meio de uma selva. Nesta situação de que lhe valem os anos de estudo e os títulos alcançados? É provável que o sujeito morra de fome ou sede em algum tempo, ao contrário do gorilas que habitam a mesma selva. Eles não são doutores, mas têm o conhecimento necessário para viver ali. Inteligência é uma coisa relativa, meu amigo! Não há mais espaço para ostentarmos tanta soberba e olharmos para o resto das criaturas de cima para baixo.
    Se você se acha bonzinho, legal, uma pessoa querida e não é um especista, afinal nem sabe o que é isso, assista ao documentário "Terráqueos" para entender melhor do que falo.
    Um lindo domingo de sol e calor para todos!

Link para o documentário:






Para cima é que se anda.

    Dias atrás fui levar meu quadro feito no curso de Smalti Orsoni para colocar a moldura. Não o faria tão já se não fosse a reunião que faremos dentro de dez dias para trocarmos elogios e enaltecer a indizíveis qualidades de nossa Majestade, O Smalti.
    Transportei a minha peça como se fosse um órgão a caminho do transplante e fui a pé até a loja para não sacolejar minha preciosidade no precário asfalto da cidade. Uma vez no balcão, desembalei-a com cerimônia, já esperando um uníssono "OOOH!", que não veio. O Senhorzinho que me atendia olhava, franzia a testa, testava molduras de diferentes larguras, coçava a cabeça, até que perguntou: "Foi a senhora que fez?". Desabrochei no meu maior sorriso e respondi como quem tem Smalti sobrando em casa: "Sim, sim!". Silêncio. Silêncio. Eu ainda sorrindo. "A senhora não vai rejuntar?". Quase num resmungo  lhe expliquei que com aquele tipo de material não se utiliza rejunte e fiquei procurando um lugar para enfiar a minha cara de cocô. Não só ele não conhecia o Smalti como não disse que aquele quadro era o mais belo que havia visto em toda a sua vida e que seus dias jamais seriam os mesmos depois desta visão do paraíso. Ocorre que cultivo de forma desavisada um doentia ilusão na qual virá um ser que tecerá elogios infindáveis sobre algo no qual eu só coloco defeitos. Caí do burro.
    Mas esta pseudo esnobada me fez ficar mais coruja com a minha obra, seguindo a linha "se você não gostar de você mesmo, não tem como os outros gostarem". Fui buscá-la dias depois e achei que ficou ainda mais linda. Agora fizemos as pazes e finalmente consigo ver o todo, tirando o foco dos erros de execução. Sim, apesar de não conhecer nossa Majestade, O Smalti, o pessoal da loja trabalhou muito bem e foram muito atenciosos com a minha recomendação expressa de guardar qualquer pecinha que caísse, por menor que fosse. Porém o Senhorzinho colocou o gancho de forma que a cobra ficava de cabeça para baixo. Pedi para mudar. "Ah, ela está subindo?". Opa! Quando o assunto é cobra e ela me diz respeito, é sempre subindo, meu Senhor! Sempre subindo!
    Alguém aí discorda?