Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

Olhar desavisado.

    Alguém já se perguntou porque olhamos pelas janelas? Sabemos a razão de sua existência, mas o que nos faz, em determinado instante, olhar para fora? Foi este ato inconsciente que guiou o meu olhar até a calçada do outro lado da rua. Meio da tarde, sol, vento e uma menina aparentando seus 7 anos andava ao lado do pai. Não exatamente ao lado, mas em todos os lados, saltitando com suas botas cor-de-rosa, outorgando um balanço frenético às suas maria-chiquinhas. A sua alegria justificava-se (como se alegria precisasse disso) pelo simples fato de estar na presença do pai a quem abraçava repetidamente, apertando forte seu rosto sorridente contra aquele corpanzil. Vejo-a com alguma frequência, pois sua família mora num casebre existente em um terreno da rua que já abrigou um estacionamento e aguarda alguma construção megalomaníaca. Nas maioria das vezes, vejo-a acompanhada da irmã menor e da mãe, que grita, num volume audível a três quarteirões, seus desejos, orientações e proibições. Nunca observei a garota tão espontânea na companhia da mãe, por isso concluí que a presença do pai, que raramente vejo e no meio da tarde, era o que causava tamanha alegria.
    Claro que em milésimos de segundos algumas lembranças da minha própria infância vieram à minha mente, como montar cavalos imaginários na sala, ao som da vibrante música clássica, cuja orquestra, tão real quanto os meus cavalos, era regida pelo meu pai. Ao mesmo tempo divaguei sobre a relação especial que as meninas constroem com seus pais e então despertei. Tem alguma coisa errada...ele não corresponde! Ele não a olha, não a vê. Ela pega em sua mão, mas ele não pega na dela. Ela o abraça, mas ele não a braça de volta. Não lhe faz um afago sequer. Quase grito aqui do alto "Meu senhor, abraça ela também! Olha como ela pede o seu afeto! Abraça a sua filha!". Sabe aquelas coisas que você não consegue para de olhar ainda que te machuquem a visão? Então. Acompenhei a cena até que dobraram a esquina. E eu fiquei na janela segurando as partes despedaçadas do meu peito. Ele, aquele pai, está perdendo o melhor da festa! Se o prejuízo fosse só dele, azar o seu, mas sabemos que não é assim. Me pergunto o que será que se passava na cabeça do sujeito que o tenha tornado indiferente aos apelos tão positivos da filha? Que problemas o afligem para que a menina, a quem ajudou a trazer à vida, lhe seja invisível? Penso que talvez possa ser ainda pior. É provável que ele não tenha consciência de nada disso, que ache que filho é isso mesmo, quando é criança enche a paciência e depois que cresce melhora. É bem plausível que ele nem saiba porque tem filhos, não foi uma escolha feita, apenas um fato que aconteceu. Dentro de tantas hipóteses fiquei curiosa para saber o que o sujeito acha da vida. O que será que é a existência para ele? Se a visão da filha alegre na sua frente não faz o seu dia brilhar, o que será que faz?
    Meus pensamentos deram a volta no planeta Terra umas três vezes até que me consolei com o fato de que eu estava lidando com suposições. Que a garotinha estava feliz, isto é fato. Mas pode ser por qualquer outra coisa como a promessa de um sorvete e não a presença do pai. Pode ser que, na verdade, ela esteja se lixando para ele, pois gosta mesmo é de sorvete, ou de sair no meio da tarde sem a mãe gritando, ou que suas botas sejam novas e esteja alegre em poder usá-las numa tarde qualquer. Me doeu que ele não tenha participado da euforia dela. Acho, e é coisa minha, que não devemos desperdiçar oportunidades de mostrar e retribuir afeto. Só isso. Ou não.
    Quanto ao hábito automático de olhar pela janela, acredito que no futuro estes espaços nas paredes serão dotados de sensores personalizados e um sinal sonoro irá alertar os distraídos sobre cenas impróprias.


Em busca de fórmulas.

O que fazer quando se sabe o caminho mais não se tem idéia de como percorrê-lo?
Quando se olha o que já passou e se deseja mudar o que virá, como descobrir a direção?
Como iniciar a mudança sem saber para onde, por onde?
Para onde olhar quando a bússola não indica norte ou sul?
Antes do medo, a angústia.
Misturada à lucidez, a descrença.
A mente vai onde as mãos não alcançam.
O ar falta no peito pequeno, apertado.
O sol brilha insosso e inútil.
O vento traz apenas poeira.
A esperança caminha lentamente para fora.
As respostas estão veladas.
A pergunta estará errada?
Devo desejar os meios e não o fim?
Ou eu estou vendada, incapaz de apreciar a evolução, afogada no imediatismo.
Onde estão os parâmetros? Preciso deles!
Uma pista, uma dica, uma placa só para saber se acelero ou não.
Onde estão as respostas?
Cada um, preso ao seu próprio dilema, está incapaz de calçar os sapatos do outro.
Estamos sós em nossas decisões, isolados em nossas buscas.
Recebemos o que não precisamos, o que não pedimos, às vezes em ambudância.
Minguamos na carência do essencial.
Uma vez mais, olhar para dentro.
Respirar, lenta e profundamente.
Ficar consigo demoradamente e tirar dali as respostas.




"Orsoni in Brasile"

    Não sei qual é o problema da humanidade que se mete a fazer coisas que não pertecem à sua natureza. Este questionamento é bem tardio, mas o que temos na cabeça em querer voar? Achando que isto está mesmo errado embarcamos, Baltazar e eu, rumo à Curitiba, com a cobra pendurada no ombro. Apesar de ainda não entender como um mamute de metal consegue se manter no ar, devo confessar que a oportunidade de vislumbrar as cidades do alto é mesmo um barato. São Paulo vista de cima é menos sufocante, mas ainda é problemática. Seus inúmeros edifícios, débeis pinos patéticos enfincados no solo, brotam nas manchas sem cor de construções diversas. Os contrastes já sabidos, do alto são irrefutáveis. Quanto mais disforme, morta e purulenta é a mancha, mais desfavorecidas são as pessoas que ocupam aquele espaço. A áreas que preservam alguma harmonia são menos densamente ocupadas. Mas quanto mais se sobe, menos visível é esta separação. Então toda a cidade fugura como uma grande ferida infeccionada, cortada por rios de água negra. Paulatinamente esta doença de pele chamada metrópole fica para trás e a Terra mostra pedaços ainda intocados, salvos do nosso crescimento, que acariciam os olhos com suas formas e cores. Até que novas feridas começam a aparecer novamente. Não tão graves como antes, mas ainda assim feridas.
    Nunca havia visitado Curitiba e achei tudo amplo, espaçoso, organizado e limpo. Há casas, meu Deus, muitas casas ainda! Lindas, charmosas, remetendo impecáveis à época em que foram construídas. Visitamos um parque próximo à nossa hospedagem. Precsio calibrar minha mira pois a atração do lugar eram diversas espécies de aves enjauladas. Pois é. Entretando ali, muito diferente do que vimos no parque Estoril de São Bernardo, percebia-se um cuidado efetivo com aqueles animais. Poderia dizer que estavam sadios dentro da possibilidade de saúde que se espera em animais confinados. Enfim...andamos pela parte histórica que também é encantadora. Acho que aquele é o nível de preservação e cuidado que se tenta dar ao centro histórico de São Paulo, indecentemente belo, apesar de degradado. No geral tivemos um impressão muito, muito boa do pouco que vimos.
    A seguir mergulhamos naquilo que nos levou até Curitiba, a mostra "Orsoni in Brasile - 2011". E aqui segue o meu relato, parcial e apaixonado. Foi muito, mas muito bom! Foi de encher os olhos ver os trabalhos das demais alunas que até então só tinha apreciado prontos em fotos. Ao vivo ele têm uma força que emociona. É a mistura da força do material com o âmago de cada artista. Foi muito bacana conhecer as artistas de Curitiba. Foi demais reencontrar as colegas de São Paulo, com sua energia pulsante e uma animação que não acaba mais. Tive meu momento tiete ao conhecer pessoalmente a Carmem Leal, de quem já falei aqui no texto "Carinho via Sedex". Só posso dizer que abasteci minha alma! Eu a admirava à distância, seguindo a evolução do seu trabalho pela internet. Vê-la, tocá-la, sentí-la e então conversar até a garganta apitar de tão seca foi tão bom quanto sentir que a conhecia há muito tempo, que a havia visto semana passada e que a verei novamente na semana que vem. Conheça o trabalho dela em www.ymaguaremosaicos.blogspot.com


Nos encontramos sob a vigilânia atenta da cobra...











...e exaltamos o que mais gostamos de fazer, numa reverência à obra da Carmem, a precisa releitura da pintura de Aldemir Martins. 


    Abaixo, o lugar que tão bem nos acolheu: o ateliê Ghellere Mosaicos, da incansável e realizadora Renata Ghellere.



    Nossos trabalhos continuam em exposição por duas semanas mais. Vale a pena conferir! O endereço do ateliê é Rua Visconde do Rio Branco, 449, Mercês, Curitiba.








    E a bela foto que encerrou o encontro: as Orsonistas de São Paulo com suas obras.






    Veja as fotos de todos os quadros expostos na página da Ghellere Mosaicos no Facebook.

    Depois de dias tão intensos, sinto-me encantada pelo caminho a percorrer, sabendo que o melhor está por vir.

    Presente do Baltazar para eu continuar dando cor e forma aos meus sonhos (ouro azul, acredita?)