Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

O perdão nosso de cada dia.

    Há uma conhecida frase que diz que perdoar é Divino. Acho esta classificação intrigante, pois pode fazer uma falsa alusão à idéia de que perdoar não compete aos humanos. Ou ainda, seria algo tão difícil, inacessível e improvável que só Deus estaria capacitado para fazê-lo. Eu entendo da seguinte forma: creio que somos capazes de perdoar, se estivermos dispostos, e que isto nos aproxima de Deus.
    Por ser presumido como trabalhoso, falamos muito em perdão e fazemos muito pouco. Muitas vezes sequer tentamos já que é muito mais fácil mandar o ofensor para o diabo que o carregue. Só há um problema: isto não resolve. Pode desopilar o fígado, mas não traz a paz que buscamos (e necessitamos) cegamente. Mas por que é tão difícil? Por que pode parecer impossível transpor o desrespeito do outro? Os afrontamentos podem ocorrer a todo instante: uma fechada no trânsito, uma cara feia no supermercado, o vizinho que estaciona mal na garagem do prédio e te faz gastar dez minutos de manobras, litros de suor e se atrasar para aquele compromisso que você já saiu atrasado. Estas são as pequenas coisas, para não falar das questões mais graves. Mas se não somos capazes de superar estas quinquilharias, certamente parecerá impossível transpor as ofensas que fazem a sua vida parar, as cores desaparecerem, os perfumes se extinguirem e os sabores serem amargos.
     Por algum motivo (que não sei qual é), acreditamos que todo o mundo é passível de falhas, exceto nós. Todo mundo pode ser feio, bobo, burro, chato e fedido. Mas nós não! Então, quando alguém nos ofende, vemos ali a nossa própria possibilidade de ofender e isto não aceitamos, como se fôssemos incapazes de cometer um ato igual. Acontece que em todos os fatos existem três lados: o do ofensor, o do ofendido e a verdade, que não há como ser conhecida. Considerando isto, acredito que se não perdoarmos nossas próprias falhas, torna-se impossível perdoar as do próximo. Por isso é tão difícil. Temos que nos encarar cruamente primeiro. Deixar o orgulho de lado e reconhecer que somos falhos, imperfeitos, nos perdoar por isso e entender que ter esta consciência não faz de nós pessoas piores. Por fim, cada indivíduo, após fazer as pazes consigo, precisa amar a si de forma irrestrita, sincera e compreensiva. Errar faz parte de nossa natureza. Podemos aprender com nossos desencontros. Há o exemplo clássico pelo qual cada um de nós já passou: classificar a sua diarista de leprosa para baixo porque ela quebrou a asa da sua xícara preferida. Você está convencido de que ela é um ser inferior, que fez aquilo de propósito, até que, arrumando o armário, você deixa a tal xícara cair e esta se espatifa em centenas de pedaços impossíveis de serem colados. Neste momento você passa a entender como tudo acontece. Como uma pessoa exemplar como você pode quebrar uma xícara. Simplesmente faz parte. E tudo faz parte. As coisas pequenas e as grandes. O outro pode se enganar assim como você já se enganou algumas vezes. Mas não basta entender como tudo acontece pois o perdão vai além. Não existem garantias de que os equívocos não voltem a acontecer, mas você escolhe seguir em frente sem mágoas, afinal, estamos todos aprendendo. Sem exceção.
    Já ouvi mais de uma vez alguém repetir que não ganha nada em desculpar  um pessoa e que o desinfeliz  tem que provar cada gota do sofrimento causado. Há um ditado, daqueles que são repetidos por gerações e que trazem verdades descaradas sobre a humanidade, que diz que se nós não gostarmos de nós mesmos ficará impossível de alguém mais fazê-lo. Eu faria uma adapção. Diria que se você não se amar, é impossível amar o outro. Sem amor, fica muito, muito difícil de existir o perdão. Esta é a beleza da coisa. O caminho espinhoso para perdoar é ladeado de afeto - por si próprio e, consequentemente, pelo próximo. Aqueles que têm a coragem para percorrê-lo descobrirão que o bem-querer pode ser multiplicado exponecialmente a cada pequeno ou grande ato de perdão. Precisamos de recompensa maior?


Sem medo da chuva.

    São muitas as coisas que chamam a minha atenção. Os acontecimentos pipocam a cada minuto e sempre algo novo me surpreende. Vejo muitas situações que poderiam ser revistas e outros tantos sofrimentos desnecessários que fica quase impossível não falar neles. Porém, na última semana desejei olhar mais para o que me encanta do que para o que me desafia. O primeiro efeito foi a produção de duas peças que explodem em cores. Todas as cores que posso ter em pastilhas coloquei lá. Isso me lembrou dos desenhos que costumava fazer quando era mais nova onde esta explosão era constante. Até um céu estrelado precisava de todas as cores do arco-íris para ficar do meu agrado. Depois de saciar esta sede tão nítida puder voltar minha atenção para uma pálida paixão antiga, daquelas de fazer os olhos brilharem: as tempestades. Desde pequena sinto uma atração explicável por elas. Naquela época já ficava alerta com o seu prenúncio. O vento mudava. Era preciso, autoritário e sisudo. Enquanto a empregada rezava toda a sorte de impropérios porque as folhas recém varridas eram novamente espalhadas pelo quintal, eu gostava de sentir o seu tato áspero na pele. Muitas vezes tentei ficar escondida no meio das plantas para não perder um minuto sequer do espetáculo. Logicamente era resgatada assim que os primeiros pingos começavam a cair sob o argumento de que ficaria doente. Não ficava. Consegui ter a honra de participar de algumas tempestades e não adoeci por isso. A minha moléstia vem de ficar na fila do banco para tentar resolver o problema da cobrança de um cartão de crédito que não existe, por exemplo. Isso dá até febre alta. Mas chuva não. 
    Repare que na prepação de uma tempestade há todos os tons de cinza que você pode supor. Primeiro é uma nuvem aqui e outra lá, despretensiosas, servem para dar assunto para quem não sabe o que falar - "parece que hoje chove, né?". Depois os tons ficam mais e mais intensos e variados. A velocidade do vento aumenta e ele vem e vai para quase todas as direções. Tudo passa a se mover mais rápido. As borboletas são catapultadas, os passarinhos se apressam de volta para as árvores que enloquecem totalmente. As pessoas correm como se não soubessem o que vai acontecer. O cinza agora é chumbo, bem escuro. Tudo vira noite e esta transgressão, sozinha, já me traz contentamento. Então os flashes! Primeiro ao longe e, então, cada vez mais perto. A luz antecede o estrondo de um grave tão profundo que faz o corpo reverberar. É uma declaração irrefutável de poder e subjugo. Quando a água cai todos os elementos se unem para não deixar dúvida de quem é que pode mais, quem dá a última palavra. São tantas as metáforas da vida ali presentes que é impossível não se maravilhar. As respostas das nossas perguntas essenciais estão ali. A ordem das coisa é ali elucidada para aqueles que querem compreender. A natureza é muito generosa e paciente. Nos proporciona incontáveis espetáculos que nos mostram o caminho a seguir. As tempestades nos colocam em nossos devidos lugares. Nos mostram com clareza quem somos e para que servimos. Nos falam de força e dizem que sete cores para um arco-íris não são nada! Ela pode tornar absolutamente tudo cinza e depois devolver as cores ainda mais fortes, a vida mais exuberante do que nunca e o ar ainda mais leve. É um desabafo em grande estilo. Um opinião bem colocada. Um argumento definitivo.
    Quando ouço maldizerem esta maravilha, esta caridade existencial, sinto peninha de quem tem medo de chuva...




Rituais muleta

    Existem vários aspectos no ser humano que não consigo entender. A necessidade de rituais é uma delas. Nos últimos dias quebrei a cabeça de todas as formas e confesso que ainda não entendo. Eles são variados. Existe um para cada fase da vida. Alguns tem origem nas religiões, outros em tradições sociais. Cada cultura possui sua gama de rituais. Os significados também são muito vastos. Alguns deles, quando situados em determinado contexto, eu consigo vislumbrar um sentido embora questione a sua necessidade, mas há outros tantos que não. Claro que aqueles catastróficos, como cortar uma parte da pessoa como símbolo de seu ingresso na idade adulta, sinceramente nem tento compreender. Mas há um outro tipo, quase inofensivo, que muito me intriga: comemorações de mudança de ano calendário. O único aspecto que consigo entender é a necessidade de existir esta divisão de dias, semanas, meses e anos. Justamente por entender isto a comemoração me parece um pouco desproporcional. Realmente não sei qual é a expectativa das pessoas. Ou melhor, eu sei. Elas desejam que  nos primeiros minutos do ano novo sopre um vento diferente e sua sorte mude. Desejam que aqueles problemas com os quais não conseguiram lidar até então desapareçam ou que uma solução sem esforço bata à sua porta. Isto é muito diferente de ter esperança. Esperança é o sentimento que te mantém na luta, fazendo tudo o que deve ser feito, quando nada parece cooperar. Então você continua porque sente que o objetivo será alcançado. O que vejo não tem nada relacionado com isso. E o que torna tudo mais curioso é que aquele monte de determinações descabidas - o que vestir, que cor vestir, o que comer, quando comer, quanto comer, quem abraçar primeiro, pular, não pular, com um pé só, com os dois, etc. - vem intrinsecamente acompanhado de uma maldição velada. Se algum coisa der errado no ano que se inicia é porque você não comeu romã. Não a fruta inteira, mas doze sementes. Nunca numa colherada só! Uma semente em cada badalada da meia-noite. Até que não seria nada mal se a romã tivesse este poder todo. Você não precisaria de esforço algum na sua vida. Empenho, dedicação, determinação, muito trabalho, nada disso seria necessário. Bastaria a bendita romã. É aí que tudo fica bem estranho. Este comportamento, travestido de brincadeira, parece reforçar uma crença comodista muito típica do humano: esperar que tudo lhe seja dado. Acho muito pouco saudável. E o mais interessante é que é um fenômeno mundial. Pelo planeta afora há esta histeria coletiva com a mudança do calendário. Entendo que todos nós adoramos um pretexto para colocar uma roupa bonita, fazer uma reunião com pessoas queridas e desejarmos mutuamente coisas positivas. Mas passou um tanto assim da conta. É como se na receita do bolo sejam necessárias duas xícaras de açúcar e você passa a colocar cinco. Não é saudável, além de desnecessário. As medidas estão um tanto equivocadas. Se você faz um balanço da sua vida entre os dia 29 e 31 de dezembro, experimente fazer todos os meses do ano. A probabilidade de acertos nas suas escolhas também vai aumentar ao desenvolver o hábito da auto-análise. Aprender a se observar, cotidianamente, vai lhe trazer mais benefícios do que jogar doze uvas sobre o ombro direito. Aproveite sua vida diária para aprender com fatos ordinários. Não seja uma daquelas pessoas que precisa passar por um infarto agudo para vislumbrar um outro lado da existência, outros valores, outras possibilidades. Não espere a sorte chegar, faça a sorte chegar. Não se engane com futilidades, mesmo as pequenas, porque são elas que derivam para um universo de mediocridade e de equívocos sobre responsabilidade. Quer festejar tudo (ou nada)? Ótimo! Só não atribua poder àquilo que não pode ser. Quem pode realmente mudar alguma coisa em qualquer lugar é você. E nenhum bicho que "cisca para a frete" pode lhe tirar isso.