Se tem coisas das quais eu fujo como o diabo da cruz é conversa sobre violência e/ou doença. Sinto-me muito mal, um aperto no peito, um peso na cabeça e uma falta total de esperança no futuro. Parece que só há dor, injustiça e falta de caráter no mundo. Estas coisas existem, claro, mas há tantas outras muito mais interessantes para se pensar.
Há poucos anos me dei conta que vivemos imersos em um mar de lama emocional. Desde muito pequenos temos nossos erros apontados e valorizados. A culpa é instantaneamente embutida em nossas mentes e seguimos crendo que é muito bom para a alma sofrer e ser coitado. Somos ensinados a ver as pessoas que tem sucesso com muita desconfiança. Algo de errado certamente devem ter feito. Consolamos nossa aguda dor de cotovelo da prosperidade alheia com o pensamento de que ser pobrezinho é que é bom, correto. Duvida? Tente, em uma conversa, perguntar a alguém como ela vai. Será uma torrente de reclamações. Se o grupo for um pouco maior, haverá uma disputa velada de quem sofre mais, quem tem o pior emprego, o pior casamento, quem pega mais trânsito, quem tem menos dinheiro, quem tem mais problemas na família e quem já está perdendo a saúde por tudo isso. É sério, qual o objetivo disso tudo? Se o sujeito está de carro novo é capaz de estacionar uns dois quarteirões antes do bar onde vai se encontrar com os amigos para não ter que ouvir que ele, afinal, se deu bem. Que tragédia! Não terá direito de reclamar durante o happy-hour.
Este comportamento para lá de esquisito faz com que não olhemos nossas conquistas de forma adequada. Como tudo é rapidamente coberto pelo manto da culpa, deixa-se de analisar o que foi feito para que o objetivo fosse alcançado. Algo muito simples como acertei aqui, errei lá, ali deu certo sem querer, preciso prestar mais atenção naquilo, melhorei naquele ponto e por aí afora. O sujeito que andou duas quadras a pé para que ninguém visse que trocou de carro sabe bem o quanto trabalhou, o que fez para guardar dinheiro, o quanto buscou se aprimorar para pleitear um salário melhor e também das prioridades que elegeu com o intuito de alcançar seu objetivo. Isso seria motivo de orgulho e não de vergonha! Certa época trabalhei com uma pessoa que enchia a boca para falar que nunca tinha dinheiro. Queria muito ter tal sapato, mas....não tinha dinheiro. Queria usar o creme x, mas....não tinha dinheiro. O mais engraçado é que ela, então, comprava uma imitação do sapato que realmente queria. A imitação custava R$ 20,00. O original custava R$ 100,00. A imitação rasgava depois de dois meses de uso e ela comprava outra. O original durava anos a fio. Tentei um dia argumentar que ela tinha, sim, dinheiro para comprar o sapato melhor. Só precisaria guardar uma quantia por mês até ter o valor total. Era o exemplo mais elementar do ditado "o barato sai caro". Mas não tinha jeito! Para ela era impossível deixar de gastar a quantia que poderia guardar. Sempre gastava em coisas supérfluas e de baixa qualidade. E assim seguia dizendo-se desfavorecida e mal dizendo quem conquistava aquilo que ela desejava para si. Realmente ela era desfavorecida. De inteligência.
Se conseguíssemos limpar esta forma burra e hipócrita de enxergar a vida talvez tivéssemos todos nós mais sucesso nas nossas realizações. No lugar de invejar o colega, perceba o caminho que ele percorreu até ali. Veja que é possível não só para você, mas qualquer um que realmente desejar aquilo e tiver a obstinação para conquistar. Se algo ruim acontecer no seu trajeto, entenda que isto faz parte da existência, do mundo no qual vivemos. Não transforme em tragédia os fatos da vida. Apenas siga em frente. Obstáculos existem para todos. Você pode escolher superá-los ou ficar ali, diante deles, amaldiçoando o momento em que escolheu seguir aquele caminho sem se dar conta de que ele não termina ali.
Mais do que aprender com os exemplos de sucesso e superação das outras pessoas é de grande ajuda perceber as suas boas qualidades. Você sabe que as tem. Enumere todas elas. Se for muito difícil para você pensar no seu lado bom, faça isso quando estiver sozinho, no escuro, trancado no banheiro. Se sobreviver a isto, à percepção de que tem muita coisa de valor no seu interior, trabalhe para desenvolver estes aspectos. Focalize a sua atenção para tudo que existe de melhor em você. Faça estes atributos crescerem. Estamos muito longe de sermos seres perfeitos, mas também não somos poços de desgraças. Ao incrementar o que você tem de melhor, irá sobrepujar os seus defeitos e seus pontos fracos. Não parece lógico? E fica ainda melhor. Dê o nome que quiser, mas o fato é que você irá vibrar diferente e entrará na mesma frequência de pessoas que tem a mesma atitude. A tendência será de crescimento, de amadurecimento, de responsabilidade. Tudo isso vem acompanhado de muito mais bem-estar. É isso que você quer? Então vamos arregaçar as mangas e botar a mão na massa. Não é o seu caso? Volte para a rodinha da auto-piedade e da incapacidade. E me espera sentado.
