Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

Dedicar a existência.

    Ontem resolvi me intrometer em um assunto que não me diz respeito e assisti a boa parte da cerimônia de Dedicação do Altar e da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Nunca tinha ouvido falar nisso e a curiosidade fez com que eu permanecesse cerca de duas horas no escuro, com centenas de pessoas, relacionado símbolos e significados. Eu não sou, mas nem de longe e com miopia, a pessoa indicada para explicar os ritos que se sucederam. Para simplificar, no meu parcial entendimento, ao dedicar-se um templo este se torna sagrado. Pois bem, o que achei mais interessante foi o fato de se tratar de algo tão sutil, energético, não palpável. Você não pega o sacralizado em suas mãos e corta com a faca, mas você pode senti-lo. E tudo ali fez referência a direcionar a atenção e especialmente a intenção para o lugar. Não pude deixar de me admirar com a compenetração e o comprometimento que vi estampados não só no rosto, mas em toda a expressão corporal de alguns padres que circundaram os presentes para ungir as paredes e incensar a igreja. É o tipo de acontecimento no qual quanto mais gente melhor, pois mais forte se torna.
    Pode ser que eu incorra em uma heresia agora (a de número 1.695.254 que cometo), mas o que aconteceu ali foi um grande exercício de concentração, mentalização e compartilhamento. Para mim cada um dos participantes deu uma parte de si para que o sagrado se fizesse presente. Cada indivíduo, no recoclhimento ao qual foi conduzido, conectou-se com o seu aspecto sagrado, seu tesouro íntimo, sua essência primordial. Fez emergir este aspecto sublime e depositou-o naquele ambiente, dentro daquele contexto específico. Isto foi bastante emblemático no meu modo de ver. Ilustrou com perfeição do que um grupo é capaz quando tem uma meta comum. A força está no coletivo, no somatório das forças individuais. Vejo isto como uma clara demonstração do poder que temos dentro da nossa limitada condição humana. Temos o poder da transformação. Ao transformar aquilo que é mais sutil automaticamente transformamos o que é mais denso e bruto. Analise por um instante a extensão deste mecanismo. Repare que isto pode mudar muita coisa em você e à sua volta. Esta percepção é uma ferramenta de evolução, a meu ver. O melhor de tudo é que se trata de algo acessível. Para tanto basta estar conectado com o que se deseja. Esta conecção envolve disciplina e compromisso. Por último, tão importante quanto estabelecer uma sintonia e direcionar a intenção é buscar os seus iguais, pessoas que compartilham dos mesmos valores e dos mesmos objetivos. Agora me diga: isto não te faz ter esperança, junto com um sentimento de que tudo é possível se for genuinamente desejado?

Fontes de inspiração.

    Estava eu em um espetáculo de música de primeira classe, sentindo o privilégio de pertencer à espécie humana (a única que consegue extrair prazer da música), quando me dei conta de que o prazer de estar ali não vinha somente da música, mas de uma grande quebra de padrões que a maioria de nós carrega. Havia à nossa frente artistas cujo caçulinha já acena de perto para os 60 anos. Os demais rumam firmes, fortes e com toda dignidade para os 70 anos. São momentos em que você olha alguém e pensa "quando eu crescer, quero ser igual a ele". Aquela visão foi um sopro de vitalidade.
    Desde que nascemos já nos deparamos com prazos para tudo. Para deixar de mamar, para deixar as fraldas, para ir à escola, para entar na faculdade, para namorar, para casar, para se separar, para ser bem sucedido, para ter filhos, para ter netos, para parar de trabalhar, para ficar doente e para morrer. Cai um pacote em nossas cabeças com várias fases dentro. Como não há manual do proprietário para nossa existência vamos seguindo o roteiro que está lá, tal qual a nossa amiga (agora mais íntima) operadora de caixa. Temos aqui uma grande contradição: não há regras para a vida (não há manula). Correto. Contudo vivemos cada dia no cumprimento de regras. Seria um paradoxo dos mais birutas. Digamos que você está em uma fase da qual gosta muito. É provável que em algum momento coloque ali um ponto final porque está na hora de...(alguma coisa). Parece uma auto-zombaria, não? É como dizer que não faz bem ser feliz por muito tempo. 
    Tinha à minha frente uma banda que é chamada pela mídia de avós do seu gênero musical. Esquecendo esta necessidade incessante de classificar tudo com base em algum pré-requisito supérfluo, o que eu via eram cinco pessoas com muito tesão no que estavam fazendo. Não há motivos para que se aposentem. São muito bons naquilo que fazem. Parariam para ver o tempo correr? Não. Continuam produzindo música de qualidade ao longo de décadas e arrebatando gerações. O melhor de tudo é que isto não é exclusividade de ninguém. Nada te impede de seguir caminhos que tragam muita paixão. Ainda que ninguém à sua volta tenha a coragem de fazê-lo não significa que é errado. Repare que aquelas pessoas que buscam sua própria luz são a inspiração para todo o resto. Esta é uma forma bem bacana de mudar o mundo: inspirando pessoas pelo simples fato de se sentir pleno, realizado, apaixonado pela vida e buscando sempre mais. Se você quer tentar, não faça disso também um roteiro pronto com protocolos a seguir. A vida de pessoas que inspiram não é um cotidiano de Pollyana que tomou Ecstasy. Ninguém dorme e acorda abraçando árvores, mas é possível cultivar atitudes e fazer escolhas compatíveis com a sua própria verdade. Dica para quem quer começar: escolha um modelo para se identificar. Observe-o e entenda qual aspecto dele lhe causa admiração. Observe-se e veja se há pequenos ajustes que possam ser feitos para que você caminhe na direção que dá mais prazer. Mais importante de tudo: se gerou desconforto, pare. Imposições não fazem ninguém mais alegre. Especialmente a imposição de ser feliz.





Abaixo, meus inspiradores.

Síndrome de operadora de caixa.

    Juro que me segurei semanas a fio, esperando mudar minha própria percepção. Não consegui, então preciso me expressar. Por já ter trabalhado com atendimento ao público, presto muita atenção em quem está desenpenhando esta tarefa. Vejo de tudo: a postura, a apresentação pessoal, o tom de voz, a maneira de falar, a forma de seguir o protocolo de atendimento e...o olhar. Esta desgraçada janela da alma capaz de jogar no lixo todo esforço que se faz tentando tranformar tripas em coração conta detalhes íntimos e estarrecedores sobre o observado.
    Meu inconformismo vem da constatação de que 90% das pessoas que observei dizem, por algum dos itens analisados, senão por todos, que não gostam do que estão fazendo. Em um supermercado a minha precisa estatística sobe facilmente para 99%. Esta semana mesmo a funcionária, com a palavra "treinamento" estampada bem grande na camiseta, agia de forma tão apática que achei que a qualquer momento seria tomada pela própria inércia e viraria uma estátua de pedra, mesmo sem ter olhado diretamente nos olhos da Medusa. Fiquei me perguntando se alguém que está sendo treinado não conserva algum entusiasmo a fim de garantir e efetivação na vaga. Resposta: não. Se ali todo mundo se comporta daquela maneira, não fará diferença alguma. A dúvida seguinte foi se o treinamento era, não para operar o caixa, mas sim para morrer em vida. Pareceu mais plausível. Política da empresa talvez.
    Nos dias em que acordo com a Madre Teresa incorporada, tenho vontade de tomar aquelas mão de unhas roídas ou maxi compridas e decoradas com glitter, olhar naqueles olhos vazios e perdidos e dizer "Sinto muito por você odiar seu trabalho". Nos dias em que acordo com Michael Douglas, no seu personagem do filme "Um dia de fúria" incorporado, tenho vontade de sacudir aquela pessoa pelos ombros e dizer " Acorda, criatura! Você tem escolha! Não precisa gastar a sua vida no que não gosta!". Obviamente não faço nem um e nem outro, pois tenho uma teoria de que gente apática morde sem motivo. Contudo é inevitável pensar nestas pessoas que não conseguem ver além. Pegam os valores que estão fltuando por aí e aplicam à própria vida sem pensar se servem para elas ou não. E assim ficam habituadas ao sofrimento auto-imposto de uma forma tão indelével que todas as suas escolhas seguintes seguem a mesma falta de padrão. Pior, quando surge uma oportunidade de cultivar algo que lhes traga crescimento e lhes amplie o horizonte, irão recuar instantaneamente entoando o mantra dos que não se valorizam: "não tenho tempo". E é verdade, pois seus dias estão minuciosamente divididos em atividades que lhes geram desprazer e improdutividade.
    A tristeza disso é ver pessoas que não acreditam que têm potecialidades para desenvolver e que podem levar uma vida inspiradora e repleta de realizações. Não se trata de ter este ou aquele emprego, mas de estar aonde não se quer. E que ninguém me venha com com aquela repugnante frase feita de que "se fosse coisa melhor não trabalharia nisso". Se essa arrogante asneira sem tamanho fosse verdade, presumo que todos aqueles que ocupam o topo da escala hierárquica sejam baluartes irretocáveis para a humanidade. Definitivamente não é por aí. O comportamento lastimável ao qual me refiro também desfila de carro, com roupas alinhadas, arrumado e perfumado. O que eu gostaria de ver são pessoas capazes de extrair tudo o que sua função exige e ir um ou dois passos adiante. Um bom exemplo disso está no vídeo, que circula pelas redes socias, do agente de trânsito do Espírito Santo. Aquele sujeito faz tudo o que a função exige e mais. Ele espalha alegria com sua forma educada e descontraída de orientar os cidadãos. Certamente o maior beneficiado é ele, mas a sociedade onde ele atua colhe grandes frutos graças ao seu comportamento. Também tem o vídeo do pipoqueiro empreendedor que é mais um bom exemplo.
    Mais angustiante do que ver pessoas que decretam a própria sentença de morte é eu não saber o que fazer quanto a isso. Talvez eu deva trabalhar nesta questão do medo de levar uma mordida da operadora de caixa. Sim, creio que devo me encher de coragem e dizer alguma coisa da próxima vez em que me deparar com uma figura dessas. Claro que não vamos iniciar uma sessão de análise ali, no caixa, mas quem sabe eu  consiga sensibilizá-la para a questão utilizando a sabedoria do querido elfo Baltazar: "Querida, é perigoso você ficar por aí com esta cara de bunda porque sempre tem um cara de pau por perto". E não é?


Para assistir aos vídeos:
- Do agente de trânsito acesse www.autoentusiastas.blogspot.com, postagem do dia 28/09 com o título "Extra: exemplo de agente de trânsito".
- Do pipoqueiro, no Youtube digite "pipoqueiro empreendedor" no campo de pesquisa.