Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

Quem é civilizado vive melhor.

    Todo trabalho tem uma história, sem exceção. Umas curtas, outra longas. Umas polidas e sucintas, outras abertas e sorridentes. Cada uma delas traz consigo o estímulo do qual me sirvo para arrumar os caquinhos. A que vou relatar é recente e me marcou. Com a idéia de renovar o hall do andar, foram encomendadas quatro plaquinhas com os números dos apartamentos e duas cúpulas para arandelas. Esta minha cabeça, que apesar do treino de poucos anos não consegue ficar parada, já ficou surpresa, matutando no tipo de condomínio que deixa seus moradores serem livres neste grau. Todo mundo sabe que quando nos mudamos para apartamentos abrimos mão de um punhado de coisas a fim de obter outras. Normal. Faz parte deixar de lado uma parcela da expressão da sua personalidade e acatar a padronização para as ditas áreas comuns. Então o pedido me causou surpresa e contentamento. Bacana ter esta possibilidade, bacana imaginar que um andar pode ser bem diferente do outro. Na verdade sempre é, mas ter esta diversidade manifestada é muito mais interessante. Além disso pensei que, para chegar no consenso do que seria pedido, houve a necessidade dos vizinhos (vizinhas neste caso) conversarem. Mas não aquele "Oi! Tudo bem?" meio constrangido, dito à meia boca, de passagem. Precisam mais do que isso. Precisam bater um papo aqui, outro lá e mais outro acolá. 
    Acredito que pelo fato de experimentar uma realidade diferente desta, tive certo espanto. Pelas minha bandas há quem evite descaradamente esbarrar o olhar em outro ser humano, há quem corra para entrar no elevador para não ter que fazer o sacrifício de dividí-lo com alguém e se ver obrigado a trocar algumas palavras sobre a temperatura do dia. Claro, há os tímidos, e estes estão perdoados pois sei como lhes custa olhar para qualquer coisa que não seja o chão. Mas há aqueles que se acreditam sozinhos no planeta e fazem um cara tão espantada ao escutar um "bom dia!" que já cheguei a pensar que os teria surpreendido nos segundos que se sucedem à libertação do peido contido. Há que faça uma expressão tão estranha que também já achei que fosse eu o próprio peido encarnado. Mas também há os gentis e que lhes seja feita justiça, afinal abrem a porta do elevador quando não tenho mãos para isso e fazem piadas a fim de encerrar o breve encontro sempre com um sorriso. Justiça feita, sinto dizer que são minoria. Por este motivo minha mente foi longe, bem longe enquanto trabalhava. Recordei todas as mudanças de comportomaneto social que já presenciei, as mudanças de hábitos, costumes que morrem e não são substituídos e no final disso tudo cheguei à conclusão de que o exercício da civilidade faz bem a todo mundo. Sim, é óbvio, mas não tão óbvio assim, porque se o fosse não teríamos nenhum espanto em situações como esta.
    O resultado de tanto pensar e do trabalho segue abaixo. Muitos já devem ter visto as fotos no Facebook, mas mostro-as novamente:

    Aqui estão os números. Ainda que tenha um elemento para harmonização, cada uma pode inserir sua individualidade que diz muito sobre quem mora por ali.


    Vejam em uma das portas, como ficou:



    Estas são as cúpulas para arandelas, que ganharão exclusivas bases com lâmpadas. Clientes criativos e habilidosos! Fica o suspense de como ficarão instaladas...
    
    O melhor de tudo é que ao final do trabalho ainda restou um profundo sentimento de admiração por estas pessoas que se conversam e que são capazes de usufruir de tudo o que a boa convivência pode dar.

Coração desnutrido.

    Por uma destas situações que acabam com nossa rotina sagrada de cada dia, acontecimentos que dizimam a parte boa da rotina e deixam somente a ruim, me achei numa cozinha morta. Ali, apenas microondas e forninho elétrico funcionam diariamente. Cozinha de uma pessoa só, que já criou e recriou refeições fartas para uma família inteira que crescia ávida. Naquele cômodo quadrado desfilaram muitas sobremesas favoritas, pratos triviais que fizeram a alegria de uma molecada no intervalo da escola e menus especiais para dias especias. Até nas datas santas e enlutadas o cardápio levava todo mundo ao paraíso.
    Aos poucos o ritmo foi diminuindo, acabando e se esvaindo de cada panela, de cada travessa, de cada toalha, copos e talheres. Então, tudo morreu. Refeições são consumidas ali, mas não são mais preparadas ali. O coração da casa não bate mais.
    Como um monte de coisas que olhamos mas não vemos, só percebi a extensão deste falecimento ontem. Os ventos traziam os cheiros de almoços sendo preparados e eles vinham de todos os lados, para todos os gostos. Aquele contraste me pareceu um absurdo. Não! Ainda há gente aqui! Pensando em todas as restrições da lista da nutricionista, vasculhando armários, descartando o que se estragou neste jazigo de sentimentos e ambições, piquei frutas, levei-as ao fogo com cravo e canela para que cozinhassem no próprio sumo. Aos poucos um aroma acolhedor foi preenchendo o ambiente. Sim, vizinhos, ainda estamos aqui! Duas abelhas, lindas e muito amarelas, vieram pela janela. Em algum lugar sentiram que no décimo andar um coração estava batendo. Sejam bem-vindas! Entrem junto com o vento!
    A cozinha dita o ritmo de uma casa e fala sobre a vida que acontece ali. Cozinhar é uma declaração de amor. Cozinhar para todo mundo é sempre mais gostoso, mas cozinhar só para si é, talvez, mais importante. É um ato de amor próprio e de compromisso com a vida.
    Sinto absurdamente por não ter percebido antes que aquele local precisava de uma intervenção. Fazer a comida ali, ao invés de levá-la pronta e congelada, pode nutrir muito mais do que apenas o corpo. Certamente os danos já instalados não tem volta, mas acredito que sempre é tempo de adicionar cor, sabor e luz a dias tão incertos.


Nunca é tarde.

Fim de um ciclo, início automático de outro.
As máximas permanecem, então... 

Sempre é tempo de começar tudo de novo.
Sempre é a hora certa para descobrir um novo significado naquilo que já é conhecido.
Sempre é tempo de aprender (ou reaprender) o que é preciso para ser feliz.
Sempre é a hora certa de se despir de tudo que atrapalha, que pesa e não tem valor e ficar nu na essência.
Sempre é tempo de realizar, de colocar em prática o que acabou de aprender.
Sempre é a hora certa de sentir, de dizer, de compartilhar, de compreender e de entregar.
Sempre é tempo de ser melhor do que foi ontem e sempre é a hora certa de senitr a esperança de que issso é possível.




Cantado fica assim:




Boa introspecção e bom recomeço!