Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

Workshop de Garrafas

    No início desta semana participei do Workshop de Garrafas com a Prof. Yara Fragoso. Já fui aluna da Yara no Curso de Mosaico Contemporâneo em outubro de 2013. Desde lá encontro cada vez mais identificação com estas modalidades do Mosaico e com o respaldo da técnica vou ampliando os horizontes.
   Já me aventurei em algumas garrafas, é verdade. Primeiro intuitivamente, depois de forma mais racional. Gostei delas. A primeira, feita com pedacinhos de pedra sabão e pastilhas uso aqui em casa como vaso solitário e adoro. Mas admito que não chegam aos pés da que fiz durante o workshop. Ali aprendi a pensar os padrões, a repetição dos padrões, onde usar padrões mais simples e onde usar os mais elaborados, a mistura harmoniosa dos materiais, a duplicação dos elementos e por aí vai. Veja o resultado:





    Estou apaixonada por ela! É uma das formas mais bacanas de reutilizar garrafas de vidro. Se você não tem reciclagem de vidro na sua cidade, que tal se aventurar? Pegue uma garrafa, silicone de uso geral e os mais diversos materiais. Se você não tem as ferramentas para cortar pastilhas, não tem problema pois você pode usar o que lhe vier à mente. Pegue peças de diferentes tamanhos e diferentes texturas. Quanto maior a variedade, mais rico ficará o seu trabalho. E lembre-se: mosaico é "slow". Nada de pressa, nada de ansiedade. Vá aos poucos e experimente as misturas antes de fixá-las na garrafa. Ficou na dúvida? Faça uma pausa e retorne depois. Mosaico é curtição, muita curtição. Se você não sentir isso é porque está fazendo errado. Ah! Muito importante: a tampa da garrafa. Ela faz toda a diferença e é um acabamento indispensável. Na minha utilizei uma rolha com um puxador de gavetas. Simples assim! Não ficou ótimo?
    Se você ficou empolgado com a ideia, sugiro que faça o workshop. Entre em contato com o ateliê Arte em Harmonia e pergunte para a Simone sobre as novas turmas.  Aliás, veja a garrafa que a própria Simone fez. Estonteante!



    Workshops são experiências riquíssimas onde aprendemos não só com o ministrante, mas também com os colegas. Recomendo!
    Para quem vai tentar em casa, veja o pulo do gato:




    Este suporte foi feito pelo marido da Prof. Yara, quando viu como a falta de uma posição ergonômica atrapalhava o andamento do trabalho. Eu que já fiz garrafa sem um suporte posso dizer que ele fez toda a diferença!
   E aí? Já está cheio de ideias? Arregace as mangas e mãos à obra! Eu já comecei a segunda garrafa e logo, logo vocês a verão por aqui.

Azulejos de ontem, flores de hoje, bandeja de amanhã.

    Esta é uma das visões que mais gosto da nova bandeja que fiz. Parece que espio por uma janela, furtivamente, estas flores que conversam sobre suas histórias. Elas existem há algumas décadas. Não como flores, é verdade. Eram azulejos e nasceram em algum momento das décadas de 1970 e 1980. Enfeitavam cozinhas, copas e áreas de serviço talvez. Foram escolhidos com orgulho por quem estava construindo, para que a sua cozinha fosse a mais bonita numa época onde tudo era feito para durar.
    Com suas cores e desenhos peculiares, estes azulejos foram malditos na década de 1990, chamados de brega, de cafona. Mas passado este período, que aliás foi um dos mais sem identidade que já vivi, foram redescobertos aos poucos. Agora parece existir um consenso de que transbordavam estilo e já se fazem cerâmicas novas 100% inspiradas nas mais antigas.
    Os azulejos que usei para fazer as flores desta bandeja foram recolhidos num sábado, no começo da tarde. Fazia muito calor e fomos tomar um sorvete. Na volta nos deparamos com uma montanha de entulhos onde antes existiam duas casas. Não eram casebres caindo aos pedaços, eram duas casa majestosas que eu gostava de olhar sempre que passava por ali. Naquela mistura do resto do sabor do sorvete com o paladar amargo de saber o que ocupará o terreno, saltamos para aquele cenário devastado a fim de salvar o que fosse possível. Aos poucos os cacos valiosos, lindos e empoeirados foram aparecendo. Para quem demoliu, tudo aquilo era lixo e aos meus olhos eu estava garimpando um tesouro. O contentamento ao achar mais pedaços era às vezes substituído pela incredulidade ao ver tanto material bom sendo condenado. Pelo desenho de cada azulejo imaginava "este deve ser da cozinha" e à minha frente imediatamente surgia o restante dos móveis, o cheiro de bolo quase pronto no forno, o vozerio da família que teima em se espremer na cozinha, desprezando a mesa com doze lugares da sala de jantar.
    Uma casa recém demolida parece ainda existir energeticamente por algum tempo. Eu estava totalmente absorta nos acontecimentos hipotéticos de uma vida que não tinha sido a minha quando uma voz pergunta alguma coisa que não entendi. Era um andarilho e queria saber se podia procurar por fios de cobre. Pode, amigo, pode vasculhar conosco este monumento ao desperdício. Com horário a ser cumprido, percebemos que não poderíamos ficar nem mais um minuto naquela imaginária reunião de família e fomos embora.
    Depois de lavadas as cerâmicas ainda esperaram um tempo razoável antes da nova vida. Um dia, lentamente, começaram a ganhar outras formas...

    
    Ficaram felizes de estarem reunidas novamente. Em um contexto diferente conheceram novos materiais e juntos encontraram harmonia.

     
    Como são fortes, durarão mais uma vida inteira protagonizando a sua nova história.




(Bandeja de MDF com mosaico de cerâmica, pastilhas de vidro e pastilhas de cerâmica. Peça disponível para pronta entrega na loja virtual).


O dia em que fiz um cinzeiro.

    Todos nós estabelecemos uns limites na vida. São margens de segurança. Até ali: tudo bem. Depois dali: hum, não sei não, não é melhor voltar? E vamos vivendo nossos dias dentro da nossa zona de conforto. Estes limites podem surgir a partir de questões financeiras, físicas, emocionais, éticas, morais e o que mais você quiser acrescentar. O fato é existe tensão sempre que vamos cruzar esta fronteira. Algumas vezes por uma opção bem clara e definida. Outras vezes porque fomos engolidos por uma avalanche que passou sobre nós e nos arrastou para bem longe de onde queríamos estar. Ou ainda por algum outro motivo que você possa vislumbrar entre estes dois extremos.
    No meu caso foi o primeiro extremo: uma opção clara e definida. Meu limite no trabalho envolvia uma certa restrição de temas. Esta restrição obviamente seguia a simples noção de que o que é bom para mim é bom para todo mundo. Aos poucos vi que o negócio não podia ser lá tão radical e fui fazendo algumas concessões (e tendo alguns arrependimentos) ao longo do caminho. Esta experimentação, percebo hoje, é crucial para o auto conhecimento. Muitas vezes o inconcebível não é exatamente aquele monstro tão horrendo.
    Foi mais ou menos isso que tive que degustar na última encomenda: um cinzeiro. Veja bem, minha dificuldade ali não estava restrita ao fato de eu não fumar. Minha dificuldade começava no fato de que ODEIO cigarro. Posso detectar com precisão se há alguém fumando num raio de 2 quilômetros, a fumaça do cigarro me causa uma dor de cabeça quase instantânea e o cheiro do cigarro para mim é um blend de vômito com CC. Em relação aos fumantes, eu me comporto bem próximo de uma personagem do humorístico "Amada Foca" (veja o vídeo aqui). Só que, e aí é que começa a diversão, o pedido partiu de alguém que respeito muito e que pertence ao grupo daqueles que realmente entendem o meu trabalho. Isso, por si só, foi o suficiente para derrubar o meu limite. Eu disse que nunca havia feito um cinzeiro na vida, expliquei que não fumava e logo não saberia diferenciar um bom cinzeiro de um cinzeiro precário. Sem problemas! Recebi a lista das características de um bom cinzeiro, a saber: 

  • Que não seja pesado para que possa pegar e levar pra todo canto da casa (fumantes fazem isso se não tem um cinzeiro que mora em cada cômodo da casa)
  • Que seja prático de lavar.
  • Que seja grande o suficiente para caberem muitas bitucas, sem ter de ficar esvaziando toda hora porque não cabe mais.
  • Que seja fundo o suficiente para que as cinzas não fiquem voando se passar um ventinho.
  • Que tenha ao menos 2 apoiadores de cigarro que de fato segurem o cigarro.

    Ok! Só que antes de começar tinha mais uma coisa que me afligia: a culpa. Sim, eu estava convicta de que fazer um cinzeiro era o mesmo que dar uma garrafa de pinga para um alcoólatra. Um ato nada cristão. Dividida entre a vontade de cruzar uma fronteira (sim, sempre temos uma vontade oculta de cruzar uma fronteira apesar de toda tensão e etc e tal)  e a culpa, fui dividindo meu dilema aqui e ali. Depois de algumas conversas entendi que ninguém passaria a fumar ou fumaria mais por causa justamente do cinzeiro que eu fiz. Tudo bem, mas e o meu preconceito? Bom, aí precisei de mais um tempinho comigo mesma para concluir que algumas pessoas podem ter um vício em substâncias químicas e outras tantas podem ter um vício em sentimentos ruins. Um pessoa que não fuma, não bebe, não fala palavrão pode ser viciada na arrogância ou na inveja ou no ciúme ou no ódio ou na mortificação ou no medo. Tudo isso também destrói o organismo. Tudo isso também prejudica a saúde de quem está perto. No apagar das luzes ninguém é melhor do que ninguém. Todo mundo, sem uma única exceção, tem seus defeitos e suas qualidades. Então o cinzeiro foi feito.