Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

Décimo primeiro mandamento.

    Qual a sensação que se tem ao repetir um erro cometido não uma, mas algumas, várias vezes? Quer saber a minha? Raiva, muita raiva de mim. Raiva da minha estupidez, da minha falta de lucidez, da memória fraca, fraquíssima! Vergonha de só então lembrar, no filminho que passa na cabeça, da última ocasião onde jurei profundamente nunca mais cometer o mesmo erro, uma vez que já sabia que a contra partida não vale a pena. Decepção comigo em perceber que não aprendi o que já deveria ter aprendido. Desgosto em sentir o peito dilacerado, sangrando, por ter passado por cima dos próprios valores, do autoconhecimento, num brutal desrespeito a mim. Não, estas sensações não valem a pena. Sentir-me um engodo não vale o sorriso alheio, não valem a suposta paz social.
    Com a boca amargada pela autoagressão cometida tento vislumbrar a recorrência dos meus maus tratos. Pequenos, médios ou grandes, não importa, pois somam-se na alma que morre um pouco a cada episódio. O que nos impede de dispendermos um bom tratamento para conosco? Talvez entendamos errado a questão, já que amar-se não é mimar-se, satisfazendo os próprios caprichos, mas educar-se a fim de manter-se saudável em todos os âmbitos, principalmente, especialmente no quesito emocional.
    Então fica muito clara a origem do charco podre no qual estamos. Nós, a sociedade (sim, amigo, a sociedade somos nós e não um elemento externo e alheio - eu sou bonzinho, a sociedade é que não presta), não evoluímos porque somos incapazes de exercer a civilidade e outros tantos atributos necessários ao bem-estar com nossa própria figura. Impossível, então, despender um tratamento decente a outra pessoa. Impossível!
    "Amar ao próximo como a si mesmo" é mais do que uma conduta escolhida ou uma recomendação. É uma sentença que desvela nosso atraso. Lidamos porcamente com nossa questões pessoais e fazemos ainda menos do que isso com nossos iguais. Olhe a situação ao seu redor. O que vemos é fruto de pessoas (todos nós) que não conseguem se amar. Neste momento isto me parece nosso maior desafio. Se não conseguirmos entender a grandeza daquela frase, definitivamente não há salvação para nós, que continuaremos chafurdando em nossa própria miséria e indagando abobadamente "por quê?".


Para quem vive só.

    Para estar sozinho é preciso paciência. Paciência consigo mesmo.
    É preciso estar lúcido, com a cabeça no lugar, vigilante e ter as emoções sob controle.
    Para estar sozinho é preciso gostar muito de si, cuidar-se com carinho e não deixar a mimada criança interior tomar as rédeas.
    É preciso não ter preguiça e saber se ocupar com um bom trabalho. Saber escolher as distrações e não confundir fugas com passatempo.
    Para estar sozinho é preciso cultivar relações fora da sua casca para saber com quem pode contar.
    É preciso saber que haverá um momento no qual precisará de ajuda. É necessário saber pedir ajuda.
    Para estar sozinho não se deve ter orgulho besta para aprender todo dia um pouco. Sobre a vida, as coisas, sobre você mesmo.
    É necessário ter calma e serenidade. Saber esperar, saber ouvir.
    Para estar sozinho é preciso aprender a ceder, pois cederá muito mais do que aqueles que vivem cercados de pessoas.
    É preciso falar com os próprios botões, sempre que sentir necessidade, para não afogar ninguém em enxurradas de palavras ansiosas.
    Para estar sozinho é preciso entender que a vida não são férias e estabelecer uma rotina que lhe favoreça, lhe torne muito produtivo.
    É preciso ter muito disciplina, pois não há ninguém olhando.
    Para estar sozinho é preciso ir fundo e se conhecer sem medo para entender os mínimos sinais.
    Quem faz a vida brilhar quando está sozinho, ilumina o mundo quando está acompanhado.


Novamente outono.

    Sim, eu sei que já falei aqui sobre tudo o que me encanta no outono (se quiser leia o texto "Minhas tardes de outono" de 2011). Mas não tenho como manter tudo isso aprisionado no peito. É bonito demais e seria um pecado não prestar atenção.
    Trata-se de um vento diferente, de outras temperaturas e do sol mais lindo de todas as estações. Trata-se do convite para desacelerar, para contemplar, para sentir. Tudo muda. O azul do céu é degradê, as nuvens tem outra densidade. Tudo brilha, tudo cintila. A beleza é tanta que chama, grita para aproveitar a dia. A vontade é de sair voando pela janela, de ter uma boa companhia para, ao sol da tarde, conversar até escurecer.
    Trata-se das gatas gozando de cada raio de sol, seguindo a luminosidade que caminha pela casa ao longo das horas. Elas estão certas e fazem o que eu tenho vontade de fazer. Trata-se de ter mais apetite e achar tudo mais gostoso, menos acordar cedo. Acontece que a cama fica quentinha e o corpo não quer deixar aquela lembrança de ventre para se equilibrar em duas pernas e lavar o rosto com água fria.
    Trata-se de vislumbres mágicos ao pôr-do-sol, de se agasalhar bem à noite e tomar muito cuidado com o vento encanado. Trata-se de lavar as roupas de lã ou usá-las assim mesmo e espirrar tudo o que tem direito. Trata-se de ter bem menos gente fazendo caminhada de manhã. Com exceção do bloco dos senhores de cabelo branco que, mesmo chegando um pouco mais tarde, não deixam escapar nada da última rodada, nem da redução de juros, nem da situação na Grécia. Trata-se de ver o cachorros usando roupas durante os seus passeios e sentir uma peninha pela dignidade perdida. Trata-se de fazer bolo porque é gostoso ficar na cozinha aquecida e cheirosa. Trata-se de abrir a temporada de sopas e sentir aquele calor gostoso que aquece os pés e dá uma moleza boa.
    Trata-se de ver as rajadas de vento levarem folhas sem destino que abrem espaço para mais sol passar. Trata-se de continuar tomando sorvete, porque não tem época para descobrir e aproveitar uma ótima sorveteria. Trata-se de carregar sacola pesada e subir as escadas sem suar, de andar de mãos dadas sem parar para enxugar.
    Trata-se de se encantar com as cores da vida, de testar novas combinações de roupas e de jurar que ninguém está vendo o meião felpudo que mal cabe no tênis. Trata-se de fechar algumas janelas quando a tarde avança para que dentro continue gostoso. Trata-se de proteger os lábios para que não rachem e de hidratar mais os cabelos porque já chove menos. Trata-se de ter ainda mais dó dos bichos abandonados e de fazer a doação para a camapnha do agasalho.
    Trata-se de ver a mudança, a transição e entender que isto é o que é a nossa vida: constantes mudanças e novas fases.