Qual a sensação que se tem ao repetir um erro cometido não uma, mas algumas, várias vezes? Quer saber a minha? Raiva, muita raiva de mim. Raiva da minha estupidez, da minha falta de lucidez, da memória fraca, fraquíssima! Vergonha de só então lembrar, no filminho que passa na cabeça, da última ocasião onde jurei profundamente nunca mais cometer o mesmo erro, uma vez que já sabia que a contra partida não vale a pena. Decepção comigo em perceber que não aprendi o que já deveria ter aprendido. Desgosto em sentir o peito dilacerado, sangrando, por ter passado por cima dos próprios valores, do autoconhecimento, num brutal desrespeito a mim. Não, estas sensações não valem a pena. Sentir-me um engodo não vale o sorriso alheio, não valem a suposta paz social.
Com a boca amargada pela autoagressão cometida tento vislumbrar a recorrência dos meus maus tratos. Pequenos, médios ou grandes, não importa, pois somam-se na alma que morre um pouco a cada episódio. O que nos impede de dispendermos um bom tratamento para conosco? Talvez entendamos errado a questão, já que amar-se não é mimar-se, satisfazendo os próprios caprichos, mas educar-se a fim de manter-se saudável em todos os âmbitos, principalmente, especialmente no quesito emocional.
Então fica muito clara a origem do charco podre no qual estamos. Nós, a sociedade (sim, amigo, a sociedade somos nós e não um elemento externo e alheio - eu sou bonzinho, a sociedade é que não presta), não evoluímos porque somos incapazes de exercer a civilidade e outros tantos atributos necessários ao bem-estar com nossa própria figura. Impossível, então, despender um tratamento decente a outra pessoa. Impossível!
"Amar ao próximo como a si mesmo" é mais do que uma conduta escolhida ou uma recomendação. É uma sentença que desvela nosso atraso. Lidamos porcamente com nossa questões pessoais e fazemos ainda menos do que isso com nossos iguais. Olhe a situação ao seu redor. O que vemos é fruto de pessoas (todos nós) que não conseguem se amar. Neste momento isto me parece nosso maior desafio. Se não conseguirmos entender a grandeza daquela frase, definitivamente não há salvação para nós, que continuaremos chafurdando em nossa própria miséria e indagando abobadamente "por quê?".