Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

Adriana e o Mosaico Contemporâneo.

    Primeiro foi o workshop de Mosaico Estrutural no começo do deste ano. Depois foi a visita ao workshop da Prof. Yara Fragoso no mês passado. Nas duas situações aquela sensação interior de forte vibração. Como essas sensações são bem viciantes, dei-me o direito de me inscrever no módulo I (são quatro no total) de workshop de Mosaico Contemporâneo, com a mesma Yara Fragoso que, aliás, conheci no workshop de Mosaico Estrutural. Sim, o mundo é um ovo. Como dizia o sábio "o planeta todo tem 300 pessoas. O resto é figurante".
    Mas você deve estar se perguntando o que é Mosaico Contemporâneo, não é? Parafraseando a Prof. Yara "podemos definir o Mosaico Contemporâneo como um meio de comunicação usando materiais em 3D, textura, luz e sombra e, principalmente, o andamento (forma de dispor as tesselas). (...) É um mundo de experimentações com infinitas possibilidades. É a arte pura e simples de criar."
    A minha identificação com esta proposta é muito, muito grande. A infinidade de materiais que podem ser utilizados casa perfeitamente com a minha necessidade latente de reutilização ou "upcycling", se você quiser usar um nome da moda. Para mim é totalmente coerente dar um novo uso a algo cuja função inicial já se esgotou. Antes eu percebia essa minha tendência, mas tentava conferir aos materiais uma característica mais próxima do clássico que fosse possível. Nesse novo contexto não existe esta "necessidade". Você pode usar de tudo. Desde o menos provável, como um pregador de roupas, até o mais provável só que de uma maneira diferente, como pastilhas de vidro, mas aqui posicionadas na vertical, com o corte para cima.
    Esta primeira experiência foi libertadora. Foi a legitimação dos meus instintos. O curioso é que ainda que tudo faça muito sentido para mim, a confecção do meu trabalho foi extremamente desafiadora, tamanha a força das amarras dos conceitos anteriores. Um exemplo simples de entender: no mosaico Contemporâneo o adesivo utilizado faz parte do processo criativo. Isto significa que ficará aparente! Então tive que passar a conceber e a imaginar o que antes era inimaginável. Não significa que as técnicas sejam deixadas de lado. Muito pelo contrário, afinal sem elas não é possível traduzir tudo aquilo que está dentro do indivíduo. A aplicação delas é que é diferente, posicionada em um novo contexto.
    Sei que para muitos uma obra contemporânea traz aquele pensamento de "essa bagunça aí eu também faço". Geralmente não gostamos daquilo que não entendemos e confesso que já pensei isso algumas vezes. Até começar a entender um pouco do processo. Nada ali está posicionado ao acaso. A escolha dos materiais também segue uma linha de raciocínio. Existe um ponto de partida, mas o trabalho é acentuadamente vivo, mudando a cada nova etapa. E assim, olhando com novos olhos, é tudo muito atraente, é uma festa para os sentidos, é um caminho sem volta. Ainda bem!







Trabalho realizado durante o módulo I do workshop de Mosaico Contemporâneo realizado de 22 a 25 de outubro de 2013 no ateliê Arte em Harmonia, ministrado pela Prof. Yara Fragoso.

E agora, Adriana?*

    A jornada até aqui foi muito diversa. Desde os tempos de mumificação egoica dos anos escolares, passando pela liquefação emocional da adolescência, pela autoenganação da juventude até o despertar dos sentidos na fase adulta. Quando fiz a transição do mundo ortodoxo para o mundo heterodoxo achei que a tarefa estava concluída, sendo necessários apenas alguns ajustes de quando em quando. Mania besta esta de supor que tudo foi entendido. A viagem para dentro de si é feita de curvas, curvas fechadas e por isso as surpresas nunca param de chegar, como tortas jogadas na sua cara.
    Se você ficar quieto no momento onde uma dúvida toma conta da sua mente, vai perceber a resposta pulando ali no canto. Às vezes é acompanhada de um luminoso intermitente. Ao olhar para isso, perceberá um resumo da sua vida, onde os momentos relevantes foram grifados com marca-texto. Sim, a resposta sempre esteve lá. Talvez sua constatação não seja confortável, mas a pergunta já foi respondida.
    O "caldo" mais recente que tomei foi a sentença de que dentro da profissão que escolhi, preciso seguir uma vertente. Preciso desesperadamente. Por quê? Porque não dá mais para fingir que não sinto uma torrente de vibração quando rodeio o mosaico contemporâneo. É muito nítido agora. Sabe quando você trava contato com alguma coisa e tem aquela sensação de que o que você pensa/sente não só faz sentido como acaba de ser legitimado porque tem mais pessoas que pensam/sentem como você? É isso! Depois vem aquele sentimento de não ser mais  aquela ervilha sozinha, esquecida no prato.
    O caminho de aprendizado e aperfeiçoamento que se desenha à minha frente não assusta, porque esta é a constante de qualquer coisa que se faça. O que me causa temor é que vou caminhando para o heterodoxo dentro do heterodoxo e não sei muito sobre a aceitação dessa vertente. Contudo acredito que fico destinada à mediocridade se não der a devida atenção a este chamado, que é tão honesto. Assim prossigo, sentido todos os calafrios que uma transição pode causar e a profunda e dolorida paixão de, a cada dia mais, poder ser quem eu sou.





*Alusão ao poema "José", de Carlos Drummond de Andrade


Tapetes amarelos.

    Naquela época, este era mais um dos "eventos" pelo qual eu aguardava com boa expectativa. Na reta final do inverno as árvores da rua, já com folhas novas, floriam loucamente sua pequeninas flores amarelo ouro. À chuva fraca ou ao vento desenhavam-se consecutivos e densos tapetes amarelos. Da calçada de casa era fácil observá-los ao longo da rua, até o final da subida sinuosa. Não havia muitos carros estacionados e os que havia ficavam integrados neste cenário de cor, cobertos também pelos tapetes. Ao se movimentarem, lançavam ao vento as florzinhas que iam contando pelo caminho que a primavera logo estaria ali.
    Numa tarde que não deixava dúvidas de que ainda estamos no inverno, a caminho dos Correios, fui surpreendida. Na rua menos agitada, nas raras calçadas espaçosas, estavam lá, dois tapetes amarelos. Afastei o guarda-chuva, olhei para cima e sorri em resposta às copas verdes, brilhantes, que balançavam suas espigas de florzinhas desesperadoramente amarelas. A chuva e o vento do dia fizeram a delicadeza de tecer aqueles tapetes amarelos, nostálgicos, fora de contexto. Diferente de antes, passei sobre eles. Não queria pisar nas flores, mas precisava sentir aquela fração de paisagem que me sugeria memórias tão reconfortantes. Claudicante que sou para acompanhar a tecnologia, não tive como registrar o cenário. No dia seguinte, como não chovia mais, os funcionários dos condomínios daquela rua prontamente desmancharam minhas memórias, atendendo à expectativa do time daqueles que chamam as flores no chão de sujeira.
    Nos dias que se sucederam à visão furtiva do passado, atinei meu olhar para as calçadas. Para não dizer que não vi mais nada, uma ou outra florzinha me acenou com timidez. Há carros estacionados por todos os lados em todas as ruas, as calçadas encolheram, várias árvores perderam seu lugar na cidade para espécies que não atrapalham os fios de luz...e que não fazem sujeira. As sobreviventes tentam, mas não há mais como tecer os mesmos tapetes amarelos.