Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

O olho que olha

 As famosas placas de ferro do Sr.Walter foram base para muitos dos meus trabalhos ao longo dos anos. Bateu uma saudade daquela época, das visitas periódicas para comprar mais placas e da acolhida que sempre recebi na casa deles (a D. Marta, esposa do Sr.Walter, é parceira de primeira linha nos negócios). Sempre havia papo, contação de história e visita à horta. Sempre havia uma caixa de legumes e verduras para eu levar junto com a encomenda de placas. Na verdade eu queria reviver aqueles tempos, quando em mim havia ainda um pequenino reduto de inocência que se extinguiu nos anos que vieram.

A saída para este tipo de banzo foi fuçar a prateleira dos materiais. Minha mémória dizia que em um dos nossos reencontros eu tinha voltado com umas duas placas na mala. Era isso mesmo. Achei-as ainda com a embalagem de espuma. O formato elíptico e os arabescos me fizeram revisitar toda a dinastia de Olhos Gregos que já fiz. Eu os adoro. Não sei porque. Apenas adoro. Mas não queria fazer um amuleto. Então fiz apenas um olho com stained glass, outros tipos de vidro e dois pinguinhos de espelho.


Terminei e vi este olhar vago, um tanto sem vida. Parece que não julga, parece que sequer presta atenção no que está a sua volta. Apenas olha, absorto em outros mundos. Está cansado, exausto, insone. Entrega-se ao olhar do observador sem fazer muita questão de interação. Ainda assim, sustenta o olhar, não se desvia, não foge, permanece.

Uma vez pendurado, olho-o de vez em quando. Se paro e ponho reparo, começo a pensar nos olhares que não são de vidro. Quanta coisa cabe ali! Um universo de palavras não ditas ganham o mundo jorradas pupila afora. E aí não tem como ocultar o que vai na alma, na cabeça, no coração, na índole. Impossível. A boca falando e olhar desmentindo ou confirmando. Que riqueza há nisso, não é?

A parede de mosaicos ganhou mais um item e o meu banzo não foi exatamente solucionado. Faz parte. Uma coisa me consola: enquanto o passado acontecia, eu sabia quando estava bom. Prestava atenção, curtia e agradecia. 



A gente se vê na próxima.

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Casamento, gratidão e porta-retratos.

 Foi em meados de dezembro passado que recemos o convite para o casamento que aconteceria dentro de um mês e meio. Na Índia. O quê? Sim, na Índia! Nunca achei que isso fosse me acontecer. Mas já que aconteceu, lá fomos nós animados e ansiosos, muito ansiosos. Para mim, dentro do meu universo particular, foi a experiência mais interessante que já tive. Uma mistura de chocante, fascinente, surpreendente e encantador. Foi onde provei as melhores comidas da minha vida, vi as roupas mais belas que nunca imaginei ver e conheci uma hospitalidade ímpar. Em conversas com familiares do noivo (que foi quem nos convidou) eu agradecia pelo convite e por ser tão bem recebida. Ao meu agradecimento eles diziam ser um honra para eles termos ido de tão longe para participar do casamento, era uma honra poder nos mostrar um pouco da cultura local. Nessa troca de gentilezas, sem dúvida nenhuma eles ganharam. Não consigo lembrar a última vez que fui tão cuidada e paparicada...e como foi incrível testemunhar e participar das celebrações que compõem um casamento ao longo de seis dias. Isso mesmo, são seis dias de casamento.

Em meio a tudo que acontecia, reparei que aquela onda de afeto que nos cobria foi limpando e cicatrizando algumas feridas abertas há tempos. Nossa presença ali era celebrada, ao contrário do que acontece aqui. Então percebi que, ao longo dos últimos anos, nos acostumamos com uma série de coisas que não nos fazem bem, que nos adoecem, que tiram o brilho que a vida pode ter. Nos acostumamos com coisas que não deveríamos nos acostumar. Ao ir para um casamento tão diferente de tudo que já vi, esperava qualquer coisa. Só não esperava um tipo de cura, porque curar com afeto não é qualquer coisa, é muita coisa.

De volta à pálida rotina, senti vontade de agradecer. E assim fiz dois porta-retratos, dois pedacinhos de mim. Um para os pais do noivo e outro para a tia Nimmi, cuja doçura e generosidade eu jamais vou esquecer.


Este fiz pensando na tia Nimmi.



Este foi para os pais do amigo que casou.

Ás vezes me pego pensando em todas as curvas que a vida deu para que isso acontecesse. Todos os caminhos que se cruzaram até culminar naquele momento com aquelas pessoas. O destino pode ser misteriosamente intrigante e belo, não pode?

Até a próxima!
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Vizinhança, vasos e apego.

 O diagrama é o seguinte: a vizinha, que agora é vizinha minha, tem uma vizinha de quando não era vizinha minha. Passada a fase de reclusão da pandemia a ex-vizinha da agora vizinha minha decidiu festejar o próprio aniversário em grande estilo. Comemorações especiais pedem presentes especiais, certo? Foi então que a vizinha, a minha, me pediu para fazer um presente para a vizinha, que um dia foi dela (parece que uma vez vizinha, sempre vizinha).

Ponderamos juntas o que caberia para a ocasião. Algo marcante, que pudesse estar sempre em uso, ser sempre visto. Então decidimos por um par de lâmpadas-vaso, onde a lâmpada maior media 14 cm de altura e menor, 11cm. Para o estilo me foi dada carta branca. Isso seria a certeza de que o resultado teria um aspecto completamente diverso da estética local, afinal, para que servem os amigos estrangeiros senão para apresentar lampejos de um outro mundo?

Abri a porta de um universo onírico só meu e dali peguei o que precisava. Durante o trabalho fui contemplando meus desejos, cada vez mais, e um apego foi surgindo ali. Um desejo de posse ou de proteção, não sei. Fato é que quando os dois pequenos vasos ficaram prontos fiquei com muita pena de deixá-los ir, pena de irem para um local onde não fossem totalmente compreendidos. Cogitei recusar pagamento e pagar para não entregar. Pareceu racionalmente absurdo, ainda que emocionalmente plausível. Acabei por cumprir o combinado, ficando com a consciência tranquila e o coração ruído. Esta dor vem da percepção que tenho de que eu e os teutões da região que hora habito, temos sensos estéticos diametralmente diferentes. Isto significa que a pessoa presenteada jamais, nem vivendo mil anos, verá ali o mesmo que eu vejo. E isso me parece um desperdício sem propósito. Mas...isso não é problema de ninguém, a não ser meu. Eu que resolva minhas dores na terapia.

Esta é a lâmpada-vaso maior.

A parte lateral.

A parte de baixo.

A lâmpada-vaso menor.

A parte de trás.

A parte de baixo.

A transação foi realizada conforme o combinado. A vizinha, que agora é minha, gostou do que comprou. Resolvi pensar que isto basta e não perguntei se a ex-vizinha, a que foi presenteada, ficou feliz com o presente. Se a resposta fosse negativa, eu sofreria e teria vontade de ir até ela resgatar os vasinhos. Se a resposta fosse positiva, seria insuficiente para diminuir o abismo colossal que abrange nossas visões de mundo.

É...parece que apego e sofrimento caminham lado a lado.

Até a próxima!


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