Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.
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Vaso Lâmpada

Quando passei a reutilizar Lâmpadas queimadas para fazer pequenos vasos, passei a receber diversas doações. Acredito que isso aconteça com a maioria de nós: sermos lembrados e presenteados pelas pessoas próximas com alguma coisa que nos seja útil, fortalecendo e celebrando vínculos. Foi assim que uma belíssima lâmpada redonda veio parar em minhas mãos.

Minha intenção quando faço vasos a partir de lâmpadas é sempre manter a parte da rosca. Para mim isso deixa a peça ainda mais charmosa. Neste trabalho o destino quis diferente. A rosca se soltou do vidro enquanto eu limpava a lâmpada após extrair o filamento. Uma pena! Mas longe de ser um impedimento para prosseguir o projeto.

Fiz um mosaico com muitos detalhes que, em alguns pontos, mais parece um bordado. Na base da lâmpada fixei uma pastilha Cristal de 5cmx5cm que lapidei até ficar redonda. Isso permite que o vaso permaneça em pé sem a necessidade de um suporte. Para o mosaico utilizei pérolas, hematita furta cor, corações de cristal, contas facetadas, pastilhas Cristal lisa e metalizada, canutilhos, miçangas e partes de bijuterias. As linhas horizontais são interrompidas tanto na parte da frente como na de trás por linhas curvas que emolduram peças focais. Isto traz movimento ao aspecto final do vaso. Para acabamento, utilizei rejunte preto que evidenciou as diferentes cores e acentuou o brilho de alguns materiais.

Ao final de 22 horas de trabalho, nasceu uma peça única e original, capaz de dar um toque de vida e beleza extra a uma decoração harmoniosa.








Esta peça está disponível para pronta entrega. Basta clicar em "loja online no Elo7" do lado direito da tela.

A tristeza, a garrafa e o recomeço.

Dia 15 de setembro de 2023 deixei a "vida-não vida" para trás. A ansiedade batendo recordes. Chegamos dia 16, todos vivos e a salvo. Alívio.

Dia 30 de setembro de 2023 um reencontro aguardado transformou-se em despedida. Nos meses seguintes tentei equilibrar a readaptação do retorno com a readaptação da vida com um afeto a menos e um vazio a mais.

Dia 30 de novembro de 2023 uma nova despedida. Brutal. Esmagadora. Perco o chão e a companhia mais fiel que já conheci. Não há respostas para minhas perguntas. Estou também eu morta. Morta e culpada.

Dia 03 de janeiro de 2024 meus olhos (e todos os meus sentidos) encontram a cena mais triste que já testemunhei. Choque. Trauma. A tristeza vira um poço muito profundo e nesse momento eu duvidei que conseguisse refazer a minha vida. Duvidei que fosse possível criar novamente. A vida virou um lugar terrível na expectativa do próximo luto. Medo constante de trilhar os conhecidos passos de um novo funeral. As perguntas sem respostas tecem um manto de desconsolo que arrasto pelo chão.

Num dia reúno a energia para tentar. Meu olhar, que só consegue se fixar bem abaixo da linha do horizonte, vê as garrafas na prateleira mais baixa. Passo a mão por várias até escolher uma. Não lembro onde estão os puxadores de gaveta. Tudo foi organizado por mim, mas ainda não estou ali. Por fim encontro-os. Escolho um. Mais alguns dias passam com a garrafa e o puxador sobre a mesa. Ainda parece impossível porque dentro de mim só existe morte. Espero o tempo fazer a sua parte.

Desde o último mosaico que fiz, antes da mudança, 5 meses já se passaram. Marco na agenda um dia para (re)começar. Garrafas são o meu lugar seguro. Então começo. Meu ritmo é lento e não tenho muita certeza do que estou fazendo, mas isso não importa. Fazer é o que importa. Vou me reconectando com minhas ferramentas,  com meus materiais e me conectando com o novo espaço que tenho agora.

Vivendo um dia por vez, fui dando vida à garrafa e, de certa forma, a mim mesma. Ficou pronta e senti satisfação. Um pingo de esperança também, apesar de estar brigada com este sentimento.

Parte da frente.

Detalhe da tampa.

Parte de trás.

Lateral

Cada acontecimento da vida, dos pequenos aos grandes, dos bons aos ruins, nos transforma de alguma maneira. Os mais marcantes fazem tudo mudar. Entender o novo cenário no qual passamos a existir é um grande desafio (pelo menos para mim) e requer tempo e paciência. A gente vive o que a gente tem para viver hoje e agora. A gente tenta. Não tenho a menor ideia do sentido disso tudo, se é que isso tudo tem sentido. Mas a gente segue porque é isso que tem para fazer.

Até a próxima.
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Heimweh

 Habitar um lugar com quatro estações envolve lidar com um certo nível constante de desespero. Pelo menos é assim que sinto. Não se pode fazer qualquer coisa a qualquer tempo porque o clima é quem dá as cartas. Isso significa, minha amiga, meu amigo, que ao primeiro sinal de temperaturas mais altas, o surto coletivo está decretado. Verão é o momento onde todos estão em todos os lugares fazendo tudo que conseguirem fazer. Então, após disputar a tapas e pontapés os dias de férias, rumamos para Eisenach.

Essa pequena cidade (pequena, mas três vezes maior do que Herrsching) no estado da Turíngia é destino de turismo local. Além de ser a cidade natal de Bach, é onde se encontra o Castelo de Wartburg, lugar no qual Martinho Lutero traduziu o Novo Testamento do latim para o alemão. Mas o motivo de nossa viagem não teve relação com música ou religião...pelo menos não essa. Eisenach abrigou a AWE - Automibilwerk Eisenach (1898-1991) - empresa que fabricou o carro Wartburg entre 1956 e 1991. Com a reunificação entre as Alemanhas, a produção foi descontinuada e a fábrica fechada. Está aí a origem do motivo desta viagem: ver um monte de carro velho, digo, antigo. Ver lindos e bem conservados carros antigos!

Existe lá um autoclube que se dedica a preservar a história daquele carro. A motivação deles é tal, que conseguiram em 2005 montar um museu dedicado aos carros produzidos pela AWE em um dos prédios da antiga fábrica. Além disso, promovem anualmente um encontro onde compartilham não somente a afinidade automobilística, mas também por um estilo de vida que se extinguiu com a reunificação das Alemanhas. O nome do autoclube e do encontro é "Heimweh". Esta palavra pode ser traduzida como saudade de casa, saudade da terra natal, nostalgia. Um significado que conheço profundamente.

Fomos ao tal encontro. Eu esperava ver centenas de Wartbrugs em todas as variações possíveis e de fato vi. Mas o que eu não esperava era ser recebida de forma tão generosa pelas pessoas do autoclub, em especial pelo seu fundador Enrico Martin. E aí, meus amores, fez aquele contraste colossal com a vida cotidiana. A gente vai se acostumando com algumas coisas que não são boas na mesma medida em que vai esquecendo de como a vida deveria/poderia ser. E vou te dizer: é muito bom sentir-se bem-vindo, ser acolhido, sentir-se parte...ainda que de forma passageira. Fiquei tão impactada com isso que quis retribuir de alguma forma. A forma que eu tenho, normalmente, é através do mosaico. Dentre as possibilidades, escolhi o nome do evento, a palavra que ecoa tanto em mim, nosso ponto em comum.

Do site do evento peguei o modelo para o mosaico.



E fiz esta placa para presentear o casal de anfitriões.

Para compor as bordas e as letras do mosaico usei pastilhas do tipo Cristal. Para o fundo, pastilhas de cerâmica que só a torquês Montolit dá conta de cortar. A disposição das tesselas, criando estas listras verticais, me levaram a uma viagem pelas memórias das estações de metrô de Berlim e suas cerâmicas tão características.

Saudade é essa coisa dúbia. É doída, pode causar tristeza, mas nasce de algo muito bom que ficou no passado. É ruim, mas é bom...é bom, mas é ruim. Independente de como a gente consiga se relacionar com ela, acho que o ponto pacífico é: não sentimos saudade do que foi ruim. Coisa ruim a gente deixa para o tempo sepultar. Ou fermenta no ódio, como no meu caso.

Até a próxima!
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O olho que olha

 As famosas placas de ferro do Sr.Walter foram base para muitos dos meus trabalhos ao longo dos anos. Bateu uma saudade daquela época, das visitas periódicas para comprar mais placas e da acolhida que sempre recebi na casa deles (a D. Marta, esposa do Sr.Walter, é parceira de primeira linha nos negócios). Sempre havia papo, contação de história e visita à horta. Sempre havia uma caixa de legumes e verduras para eu levar junto com a encomenda de placas. Na verdade eu queria reviver aqueles tempos, quando em mim havia ainda um pequenino reduto de inocência que se extinguiu nos anos que vieram.

A saída para este tipo de banzo foi fuçar a prateleira dos materiais. Minha mémória dizia que em um dos nossos reencontros eu tinha voltado com umas duas placas na mala. Era isso mesmo. Achei-as ainda com a embalagem de espuma. O formato elíptico e os arabescos me fizeram revisitar toda a dinastia de Olhos Gregos que já fiz. Eu os adoro. Não sei porque. Apenas adoro. Mas não queria fazer um amuleto. Então fiz apenas um olho com stained glass, outros tipos de vidro e dois pinguinhos de espelho.


Terminei e vi este olhar vago, um tanto sem vida. Parece que não julga, parece que sequer presta atenção no que está a sua volta. Apenas olha, absorto em outros mundos. Está cansado, exausto, insone. Entrega-se ao olhar do observador sem fazer muita questão de interação. Ainda assim, sustenta o olhar, não se desvia, não foge, permanece.

Uma vez pendurado, olho-o de vez em quando. Se paro e ponho reparo, começo a pensar nos olhares que não são de vidro. Quanta coisa cabe ali! Um universo de palavras não ditas ganham o mundo jorradas pupila afora. E aí não tem como ocultar o que vai na alma, na cabeça, no coração, na índole. Impossível. A boca falando e olhar desmentindo ou confirmando. Que riqueza há nisso, não é?

A parede de mosaicos ganhou mais um item e o meu banzo não foi exatamente solucionado. Faz parte. Uma coisa me consola: enquanto o passado acontecia, eu sabia quando estava bom. Prestava atenção, curtia e agradecia. 



A gente se vê na próxima.

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Vizinhança, vasos e apego.

 O diagrama é o seguinte: a vizinha, que agora é vizinha minha, tem uma vizinha de quando não era vizinha minha. Passada a fase de reclusão da pandemia a ex-vizinha da agora vizinha minha decidiu festejar o próprio aniversário em grande estilo. Comemorações especiais pedem presentes especiais, certo? Foi então que a vizinha, a minha, me pediu para fazer um presente para a vizinha, que um dia foi dela (parece que uma vez vizinha, sempre vizinha).

Ponderamos juntas o que caberia para a ocasião. Algo marcante, que pudesse estar sempre em uso, ser sempre visto. Então decidimos por um par de lâmpadas-vaso, onde a lâmpada maior media 14 cm de altura e menor, 11cm. Para o estilo me foi dada carta branca. Isso seria a certeza de que o resultado teria um aspecto completamente diverso da estética local, afinal, para que servem os amigos estrangeiros senão para apresentar lampejos de um outro mundo?

Abri a porta de um universo onírico só meu e dali peguei o que precisava. Durante o trabalho fui contemplando meus desejos, cada vez mais, e um apego foi surgindo ali. Um desejo de posse ou de proteção, não sei. Fato é que quando os dois pequenos vasos ficaram prontos fiquei com muita pena de deixá-los ir, pena de irem para um local onde não fossem totalmente compreendidos. Cogitei recusar pagamento e pagar para não entregar. Pareceu racionalmente absurdo, ainda que emocionalmente plausível. Acabei por cumprir o combinado, ficando com a consciência tranquila e o coração ruído. Esta dor vem da percepção que tenho de que eu e os teutões da região que hora habito, temos sensos estéticos diametralmente diferentes. Isto significa que a pessoa presenteada jamais, nem vivendo mil anos, verá ali o mesmo que eu vejo. E isso me parece um desperdício sem propósito. Mas...isso não é problema de ninguém, a não ser meu. Eu que resolva minhas dores na terapia.

Esta é a lâmpada-vaso maior.

A parte lateral.

A parte de baixo.

A lâmpada-vaso menor.

A parte de trás.

A parte de baixo.

A transação foi realizada conforme o combinado. A vizinha, que agora é minha, gostou do que comprou. Resolvi pensar que isto basta e não perguntei se a ex-vizinha, a que foi presenteada, ficou feliz com o presente. Se a resposta fosse negativa, eu sofreria e teria vontade de ir até ela resgatar os vasinhos. Se a resposta fosse positiva, seria insuficiente para diminuir o abismo colossal que abrange nossas visões de mundo.

É...parece que apego e sofrimento caminham lado a lado.

Até a próxima!


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A Dominação Mundial Felina, a serra tico-tico e o auto censor.

 Depois de concluir a "Garrafa da Reabilitação" coloquei novamente o mosaico em pausa para aprender outras coisas, continuar treinando crochê e desenhar (meu ansiolítico preferido). Fiz um curso online de Ponto Bargello e enquanto contemplava o desastre que ficou meu projeto do curso o portal cósmico do mosaico abriu-se novamente. O pedido veio da minha parceirona de escatologia, da melhor professora de crochê que eu poderia ter, da mulher que conheci aqui, mas que descobri que fomos praticamente vizinhas na década de 1990 em São Bernardo do Campo, da pessoa que dá um "Foda-se" como ninguém. Ela pediu um gato para presentear o sobrinho gateiro. Eu, como serva felina que sou, senti-me honrada. A imagem de referência era essa aqui:

Um aparador de porta visto no Instagran.



No nosso caso, o gato seria para enfeitar uma prateleira. Para receber mosaico, achei que outras silhuetas seriam mais adequadas. E a amigona escolheu esta:


Hora de botar a mão na massa. Para cortar esse perfil usei a dupla serra tico-tico e bancada. Foi a primeira vez que utilizei a bancada e, menina!, que delícia! O corte corre pelas linhas curvas como música suave. Senti tanto poder que me deu vontade de sair por aí resolvendo os problemas do mundo com a bancada e a serra embaixo do braço. Infelizmente a mesma alegria não se repetiu na hora de limpar o pó fino acumulado por to-da-par-te...

Superadas as dualidades da vida, comecei o revestimento da silhueta. Usei vários tipos de pastilhas, sendo alguma de cerâmica e outras tantas de vidro, misturando texturas e cores. Para o rejunte, escolhi o cinza grafite. Mosaico concluído, usei retalhos do corte da madeira para fazer a fazer a base e colocar o gatinho em pé. A madeira pintei de cinza médio.

Fofo? Muito fofo!


Sem dúvida foi especialmente gostoso mosaicar o símbolo máximo da elegância, da inteligência e da sabedoria. É dever nosso, toscos mortais, prestar honras e glórias àqueles que salvarão e comandarão o planeta.

Brincadeiras (ou não...à parte), sabe o que foi o melhor de fazer esse gatos? Foi ter um diálogo mais amigável com aquela voz interior que adora cortar o meu barato. Ela surge em vários momentos dos meus dias e sempre fala algo muito cruel como "você acha que isso está bom? Essa porcaria de corte está bom para você? Você não tem vergonha de cobrar por uma porcaria dessa?". Credo, não é? Passei muito tempo evitando essa voz. Mas parece que quanto mais eu tentava ignorá-la, mais forte ela ficava. Então aprendi com a D. Psicóloga que é preciso parar, escutar o que ela tem a dizer e questionar - eu acredito mesmo que está uma porcaria? No caso minha resposta foi não. Aí é hora de dialogar com a voz, algo mais ou menos assim: "eu ouvi o que você disse, mas não concordo com isso. Fiz este mosaico com cuidado, com capricho, prestando atenção aos detalhes. Agora me dê licença porque vou continuar meu trabalho". É mais ou menos um "ahã...senta lá, Cláudia". Isso tudo pode soar meio estranho se você nunca ouviu uma voz como essa. Mas se você também tem um auto censor na sua cabeça, entende como colocá-lo no devido lugar é importante. Não se trata de extinguí-lo, mas de mantê-lo do tamanho adequado para que a gente possa desfrutar dos nossos momentos com leveza.

Finalizado, o gatinho mede 25 cm de altura e 20 cm de largura.

Fiquem bem, meus queridos! Façam as pazes consigo mesmos e até a próxima!

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A recuperação, a paciência e a garrafa.

20 minutos. Esse era o tempo que eu conseguia fazer um pouco de mosaico antes de ceder à dor. Ao contrário do que imaginava, o mais dolorido não era usar a torquês, mas fazer movimentos mais finos com os dedos, como segurar a pinça ou pegar uma miçanga. A postura também era um problema. O colar cervical diminuía a dor, mas dificultava todo o resto. Destino dado, o melhor que eu poderia fazer era aproveitar esses 20 minutos diários. Lado ruim: quando começo um trabalho, quero ir fazendo até cansar, até dar a hora de fazer outra coisa ou até acabar a inspiração. Era frustrante. Mas fazer nada seria incomparavelmente mais frustrante ainda. Lado bom: o ritmo bem lento foi um convite para mergulhar nos detalhes. Além disso, de um dia para o outro o silicone estava bem seco e isso me dava total liberdade para trabalhar qualquer face da garrafa que quisesse, sem medo de deslocar alguma tessela. Foi sob essas regras que comecei o novo trabalho.

Para este, deixei um pouco de lado o tipo de tampa que normalmente uso - o puxador de gaveta fixado numa rolha. Fui até a última prateleira da estante resgatar uma tampa de vidro comprada num passado já sem data. Nesta garrafa a tampa não ficaria fixa como em todas as antecessoras. Fiquei imaginando que deliciosa extravagância seria tomar qualquer coisa que saísse de uma garrafa completamente revestida em mosaico e cedi à sedução da idéia. Na prática não tenho coragem de fazer isso. Imagina colocar um suco ali dentro. Como seria para limpar depois? Como saberia se a garrafa ficou realmente limpa? Não, não, não! No mundo real não daria certo. Mas na imaginação é incrível! Segui com meu plano.

Não é uma lindeza de tampa?

Como de costume, as cores da tampa determinaram as cores dos materiais para o mosaico. Depois disso, o trabalho de formiguinha correu, ou melhor, andou solto, bem solto mesmo. Um espacinho a cada dia. Um dia em cima, no outro embaixo. Formar linhas, preencher formas, criar e repetir padrões.
Houve momentos em que achei que não terminaria nunca. Precisava me lembrar constantemente que o mais importante era fazer. Terminar seria uma consequência. Era (e ainda é) fundamental manter os músculos em movimento. Aprendi com a fisioterapeuta que é justamento o movimento que nos tira de uma crise. Aprendi ainda que os exercícios devem ser feitos não apenas depois, mas também antes do trabalho.

E, de 20 em 20 minutos, a garrafa ficou pronta. Ao final, o limite dos 20 minutos já era 30, às vezes 40 minutos. Só uma coisa não mudou: o dilema da cor do rejunte. Optei por cinza, mas fiz uma mistura de dois tons que já tinha para ficar num meio termo. Gostei? Gostei. Fiquei pensando se o preto não ficaria melhor? Fiquei...só para não perder o costume.


A parte da frente. Dá um close e vê essa riqueza em detalhes.

A garrafa de perfil. Algo aí me faz pensar em céu, em nuvens, em conforto.

A parte de trás que também poderia ser da frente.

Fiquei com vontade de ter uma base giratória para contemplar em modo contínuo todos os lados da garrafa e me perguntei que história é essa de ter uma parte que fica para frente e outra que fica para trás. Talvez não precise ser sempre assim. Já fiz algumas garrafas que não tem frente ou trás porque todas as faces são iguais. Não é o caso dessa.

Além de pensar sobre lados, também pensei de onde vem a pressa, a urgência que sentimos constantemente. Por que mesmo precisamos correr? O que exatamente tem nos roubado os inestimáveis momentos presentes? Eu sempre tive pressa de terminar um trabalho para poder começar outro. Nessa garrafa não adiantava a pressa. O ritmo foi estabelecido pela dor e na lentidão da minha possibilidade eu pude estar mais no presente, pude desfrutar mais profundamente daquilo que me encanta. Talvez porque soubesse que aquele momento era breve. Talvez porque fosse impossível agir diferente. Seja o que for, me pareceu que vivemos um tanto errados há um tanto de tempo. Esse não é um pensamento do tipo "joga tudo fora e começa de novo". É um pensamento do tipo que quer prestar mais atenção naquilo que traz angústia e ansiedade e então refletir se não há uma outra maneira de fazer o que temos que fazer. Uma maneira que nos permita não apenas um maior desfrute do momento presente, mas o desfrute de nós mesmos, menos apartados de nosso íntimo.

E nas tentativas, seguimos.

Até a próxima!
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O vaso, a hérnia e a pausa.

 Tinha terminado a parte teórica do curso online de vitrais e, sabendo que não daria para fazer o projeto do curso agora, fui cheia de amor me reencontrar com o mosaico. Havia um vaso sobre a mesa que seguramente já fizera aniversário. Ele veio dos desapegos muito comuns na primavera, quando a maior parte das pessoas faz um faxinão em casa e coloca para fora o que não quer mais. Quase o revesti uma vez. Fiz rascunho e tudo, mas não me convenci e o vaso continuou ali de lado. Porém, o momento agora era outro. Comecei os trabalhos dizendo para mim que não era para ter pressa porque certamente não o terminaria antes das férias já programadas. Com o espírito embuído de calma fui compondo com carinho, curvada sobre os materiais e ferramentas que tanto gosto. Curvada como sempre. Curvada demais, talvez. Já tinha umas dores aqui e ali, mas a pausa para um bom alongamento não acontecia nunca.  Encurtando a história, a dor no ombro, na escápula, no braço direito, no cotovelo e os dedos dormentes eram sintomas de hérnia de disco cervical que estava extrusa. Entre C5 e C6, mostrou a ressonância feita no que seria o primeiro dia de férias. Férias canceladas. Drogas e fisioterapia no lugar. Também conheci algo chamado Osteopatia, que até agora não sei dizer extamaente o que é, mas recomendo muitíssimo!

Além das férias, fiquei sem tudo que mais gosto. Sem as caminhadas no mato, sem mosaico, sem crochê, sem desenho, sem conseguir dormir, sem conseguir escrever, sem conseguir pegar o PoiZé no colo, sem independêcia...sem identidade, enfim. Aos poucos fui sabendo de mais e mais pessoas com o mesmo problema. Recebi muitas dicas e coloquei todas em prática. Também me deparei com muita solidariedade e, vou te dizer, isso faz maravilhas denro do organismo! Como todo este apoio, o tratamento e muita paciência as coisas foram melhorando. Para drenar um pouco do que acontece dentro da minha cabeça, pedi uma ajuda para a mão esquerda e ela me foi muito útil para fazer alguns desenhos, apesar da sua falta de prática.


Com a dor menor, olhei para o vaso iniciado. Daria para continuar? Não, ainda não. Mas ele me pareceu simpático como estava. Então decidi pintar a cerâmica e presentear a fisioterapeuta que foi, sem dúvida, a profissional de saúde mais acolhedora com que tive contato aqui.





A ocasião coincidiu com a véspera do feriado de Páscoa, de forma que o vaso foi rechado de chocolate. O presentear rendeu um "oh, nein!" (oh, não!), que eu já aprendi que é dito em momentos de boa surpresa. Também teve "Gänsehaut", que é quando a pele fica arrepiada. E o que veio depois, eu nunca imaginei que aconteceria aqui: um abraço. Por essa eu não esperava! Foi preciso concentração para conseguir deixar o choro para depois. Em minha defesa, digo que nestes dias eu chorava por tudo e por nada.

Agora tudo está melhor. Na última semana comecei a mosaicar uma garrafa, muito mais atenta aos limites do corpo. É ele que me diz quando devo parar. Ontem fiz um pouco de crochê e isso me deu alegria. Antes de ontem voltei a caminhar no mato e isso me acalmou. Viver apenas um dia por vez nunca foi tão necessário.

Até a próxima!

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O Vaso restaurado.

Este vaso foi feito em 2016, ou seja, ontem (clique AQUI para ler sobre o nascimento dele). Foi o primeiro que fiz usando tampinhas de garrafa. Na ocasião, achei que fazia muito sentido amassá-las para depois colá-as ao vaso. Hoje, honestamente, não acho que esse seja o melhor caminho...

O vaso com tampinhas na ocasião de seu nascimento.

O que deu errado não foi amassar as tampinhas, mas não ter retirado aquela borrachinha que vem grudada na parte de dentro. Ledo engano. O adesivo aderiu à borracha e não à tampinha. Com o passar dos anos o óbvio aconteceu: uma tampinha se soltou. Por motivo de preguiça pura tentei dar o truque e apenas recolar a tampinha, desta vez sem a borracha. Tarde demais. O rejunte já havia rachado e o reparo durou pouco tempo. Começou então um tipo de efeito cascata. A cada vez que eu mexia no vaso o mosaico da borda ia ficando mais frágil. Até aí eu me contentava em virar o lado quebrado para a parede e seguir o baile. Então descobri que há algo que me afeta mais do que um mosaico capenga - planta triste.

Originalmente o vaso foi feito para abrigar um pé de gengibre. Depois de um tempo o gengibre ganhou a companhia da cúrcuma. Aí achei que a dupla tinha morrido e plantei ali a Ciclame, a fim de salvá-la de depressão de uma vaso minúsculo. A Ciclame foi muito bem. Cresceu e deu flor...até que o gengibre e a cúrcuma reapareceram. Eu, na minha inocência botânica, desconhecia a motivação dos rizomas. O gengibre e a cúrcuma não tinham morrido, apenas estavam numa espécie de entressafra. O problemas é que as três plantas têm necessidades distintas de rega. Resultado: a Ciclame voltou a deprimir-se. Então tirei-a deste vaso para um outro novo, que não abrigasse nenhuma surpresa oculta e continuei conformada em apenas esconder a parte estragada do vaso. Mas aí, não sei se foi efeito da terapia ou o famoso fogo no rabo, achei que isso era uma pouca vergonha. Lá fui eu tirar a cúrcuma e o gengibre da terra, colocá-los na água e restaurar o vaso. Esse tal restauro, meus anjos, durou alguns meses. Sempre surgia alguma coisa que parecia mais importante. Os rizomas (agora eu já estava íntima deles) estavam bem na água, criando novas raízes, de forma que isso contribuía para minha falta de urgência com o vaso. Meu único avanço na obra havia sido remover o que estava e o que não estava solto na borda.


Contudo, esta que agora aqui se confessa, começou a respirar outros ares. Comecei a aprender crochê. Isto me deu uma empolgação para atender outros desejos antigos e me increvi num curso online de Upcycling de Roupas. Fui fazendo as aulas, os exercícios e chegou a hora de fazer o projeto de final de curso. Aí voltamos para o vaso, coitado, emborcado sobre a mesa. Mesa essa da qual precisarei de cada centímetro.

Com motivos mais do que abundantes fui finalmente para a restauração. Refiz o mosaico da borda numa diposição um pouco diferente da original e cobri toda a borda com tampinhas douradas. Hava Nagila!!!




Quantos às plantas, é com pesar que comunico o falecimento do gengibre. Fui tirar uma folha seca e quebrei o caule numa fratura mortal. Como sobrou apenas a cúrcuma, cedi a vez no vaso restaurado para a Flor de Maio. Sempre leal e sintonizada, ela nunca deixou de florir, nem mesmo este ano quando já dava sinais de cansaço pela falta de espaço no pequeno vaso onde residia. Agora ela está no vaso das tampinhas devidamente restaurado, a cúrcuma está no vasinho que era da flor de maio e eu finalmente tenho a mesa livre para fazer meu projeto de Upcycling.


É, colegas, o "x" da questão é descobrir o estímulo que funciona para a gente.

Até a próxima!

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Quer ver mais vasos que eu fiz? Corra lá no Facebook que tem um álbum só deles :-) Vai por AQUI.

O carro, a bandeja e a pequenez do mundo.

Você já ouviu o ditado que diz que o mundo todo tem 300 pessoas e o resto é figurante? Isso explicaria porque de quando em quando esbarramos com alguém que conhece alguém que nos conhece. Daí a necessidade de andar direito na vida ou assumir o risco de ter sua reputação jogada na lama. É basicamente isso que me impede de sair de pijama sob o casaco para dar aquela corridinha na farmácia. Pois bem, sabendo que somos este punhadinho de gente no planeta, era de se esperar (mas na verdade, não) que alguém que estivesse em Herrsching quisesse conhecer o meu trabalho. Não qualquer alguém, mas alguém que já sabia que eu faço mosaico porque conhece a minha mãe e, por meio dela, já havia visto fotos dos meus trabalhos no Facebook. Como se não fosse cruzamento suficiente de destinos, a futura cliente estava passando ums dias na casa de uma amiga aqui na cidade, mais especificamente a dois quarteirões de onde moramos. Foi assim que nos encontramos.

O pedido era um presente de casamento. Tendo o casal a vida já estabelecida, precisaríamos pensar em algo muito personalizado. Pensando em gostos, na casa e tudo mais, decidiu-se por uma bandeja com a figura do carro Hummer, uma paixão do noivo. Outro detalhe importante era a cor, preferida do casal para tudo na vida: preto. Não só a cor do carro, mas da peça toda.
Com tudo definido, bora trabalhar! O material escolhido foi o Smalti italiano. Como a bandeja é uma peça utilitária, houve a necessidade de colocar uma placa de vidro sobre o mosaico. Para tanto coloquei 12 pedacinhos de madeira distribuídos pelas as bordas e peloo meio da superfície da bandeja para servirem de apoio para o vidro. 
Além do preto, usei também o tom mais ecuro de marrom e o tom mais escuro de cinza. Alguns outros tons de cinza para detalhes e nuances e ouro branco para o contorno
Este pedido me tirou por bons momentos do calor egóico onde cada tessela é sobre mim e relembrou a delicadeza que é fazer um mosaico sobre o momento de outra pessoa, com outro olhar e outro querer. Um pedido nascido do afeto para celebrar o afeto.
Acima você vê abandeja prontinha e brilhando. A seguir, o vidro foi colocado.
Um viva aos noivos! Que a união prossiga, longeva, saudável, vibrante e afetuosa.

Um viva aos caminhos que se cruzam, nunca ao acaso, e ao que surge destas intersecções!

Até a próxima!
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O espelho, as miçangas e o frangalho emocional.

 Aqui na sala onde fica minha mesa, comecei a compor uma parede com os meus trabalhos. No começo a questão era apenas encontrar uma maneira agradável de dispor os mosaicos que iam nascendo. Mas, a partir de um momento, os mosaicos começaram a nascer para integrarem essa composição. Com a ordem das coisas invertida, estava na minha mira um trabalho que abrigasse um espelho redondo e que preencheria o último grande espaço vago. Já sabia que o espelho seria disposto no canto superior direito de uma base retangular. Assim, esta peça faria o contraponto com o outro mosaico com espelho que habita a parede.

Com a base montada, precisava de um ponto de partida. Já havia decidido que algum conteúdo do pote de sucatas deveria fazer parte deste mosaico. O motivo? Precisava esvaziar um pouco o tal pote. De lá tirei moedas, uma arruela, um filtro antigo de cafeteira italiana e um zíper. A ideia inicial foi essa:

 


Achei que era um bom começo. O passo seguinte foi pintar estas peças e adicionar detalhes. No momento de colar decidi por não colocar o zíper e o visual foi este:

Sobre o filtro da cafeteira, colei canutilhos e um broche. Sobre a arruela, canutilhos e contas de vidro. Nas moedas, mais canutilhos.

Deste momento em diante trabalhei das bordas para dentro. Meu desejo maior foi ter todo o tempo do mundo para fazer tantos detalhes quantos fossem surgindo na mente. A cada nova fase, um novo humor. Os diferentes estados de espírito ficaram encravados na argamassa. Teve tudo, tudo o que você pode imaginar que seja possível sentir no mundo que temos hoje.

Teve desejo de acolhimento, de comunhão, de dias com mais brilho no olhar.

 
Teve o momento de querer estar na natureza, aprendendo sobre nós através dela.

Teve desejo de ir além de nossas barreiras físicas, ser mais etérea, mais inteligente, compreender o todo.


Teve a angústia roubando o ar. Teve o esforço para respirar...devagar, com ritmo e consciência. Tentativa de pensar melhor.

Teve momento de não querer pensar e, principalmente, não querer sentir, com medo de que o coração não aguentasse.

Teve o momento de perceber que o fundo do poço tem porão e de buscar ajuda para tentar tirar o mastodonte que está sentado há séculos sobre o meu peito.

Teve tentativa de se reorganizar, entendendo que essa tentativa tem que ser repetida todos os dias.

Teve apoio e acolhimento das amigas. Nos escoramos umas nas outras, porque não está fácil...por meio de uma delas veio a indicação do poema tão preciso. Empatia.

Ao concluir o mosaico, entendi que ele foi feito não pela junção de vidro, metal, madeira, cimento...ele foi feito com o amálgama deste emaranhado de emoções agudas e mal endereçadas que estão em mim. Uma mistura de extremos opostos, de conflitos, de antônimos. Ele me denuncia sem nenhum constrangimento.

Ao contemplá-lo, me vejo. Os últimos meses foram ruidosos dentro da cabeça. Aversão. Compreensão.

É isso o que acontece quando a gente resolve criar, não importa o que esteja acontecendo: nos revelamos cruamente para nós mesmos.

A parede recebeu mais uma peça do quebra-cabeça. Mais um retrato colorido de um momento específico.

Ainda há outros espaços a preencher. Novos capítulos de uma velha história.


Sigamos, colegas, sigamos...

Pausando. Respirando. Respeitando. Ajudando. Sendo ajudado.

Cuidem-se bem para que possamos nos encontrar na próxima. Até lá!

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