Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.
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Heimweh

 Habitar um lugar com quatro estações envolve lidar com um certo nível constante de desespero. Pelo menos é assim que sinto. Não se pode fazer qualquer coisa a qualquer tempo porque o clima é quem dá as cartas. Isso significa, minha amiga, meu amigo, que ao primeiro sinal de temperaturas mais altas, o surto coletivo está decretado. Verão é o momento onde todos estão em todos os lugares fazendo tudo que conseguirem fazer. Então, após disputar a tapas e pontapés os dias de férias, rumamos para Eisenach.

Essa pequena cidade (pequena, mas três vezes maior do que Herrsching) no estado da Turíngia é destino de turismo local. Além de ser a cidade natal de Bach, é onde se encontra o Castelo de Wartburg, lugar no qual Martinho Lutero traduziu o Novo Testamento do latim para o alemão. Mas o motivo de nossa viagem não teve relação com música ou religião...pelo menos não essa. Eisenach abrigou a AWE - Automibilwerk Eisenach (1898-1991) - empresa que fabricou o carro Wartburg entre 1956 e 1991. Com a reunificação entre as Alemanhas, a produção foi descontinuada e a fábrica fechada. Está aí a origem do motivo desta viagem: ver um monte de carro velho, digo, antigo. Ver lindos e bem conservados carros antigos!

Existe lá um autoclube que se dedica a preservar a história daquele carro. A motivação deles é tal, que conseguiram em 2005 montar um museu dedicado aos carros produzidos pela AWE em um dos prédios da antiga fábrica. Além disso, promovem anualmente um encontro onde compartilham não somente a afinidade automobilística, mas também por um estilo de vida que se extinguiu com a reunificação das Alemanhas. O nome do autoclube e do encontro é "Heimweh". Esta palavra pode ser traduzida como saudade de casa, saudade da terra natal, nostalgia. Um significado que conheço profundamente.

Fomos ao tal encontro. Eu esperava ver centenas de Wartbrugs em todas as variações possíveis e de fato vi. Mas o que eu não esperava era ser recebida de forma tão generosa pelas pessoas do autoclub, em especial pelo seu fundador Enrico Martin. E aí, meus amores, fez aquele contraste colossal com a vida cotidiana. A gente vai se acostumando com algumas coisas que não são boas na mesma medida em que vai esquecendo de como a vida deveria/poderia ser. E vou te dizer: é muito bom sentir-se bem-vindo, ser acolhido, sentir-se parte...ainda que de forma passageira. Fiquei tão impactada com isso que quis retribuir de alguma forma. A forma que eu tenho, normalmente, é através do mosaico. Dentre as possibilidades, escolhi o nome do evento, a palavra que ecoa tanto em mim, nosso ponto em comum.

Do site do evento peguei o modelo para o mosaico.



E fiz esta placa para presentear o casal de anfitriões.

Para compor as bordas e as letras do mosaico usei pastilhas do tipo Cristal. Para o fundo, pastilhas de cerâmica que só a torquês Montolit dá conta de cortar. A disposição das tesselas, criando estas listras verticais, me levaram a uma viagem pelas memórias das estações de metrô de Berlim e suas cerâmicas tão características.

Saudade é essa coisa dúbia. É doída, pode causar tristeza, mas nasce de algo muito bom que ficou no passado. É ruim, mas é bom...é bom, mas é ruim. Independente de como a gente consiga se relacionar com ela, acho que o ponto pacífico é: não sentimos saudade do que foi ruim. Coisa ruim a gente deixa para o tempo sepultar. Ou fermenta no ódio, como no meu caso.

Até a próxima!
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O olho que olha

 As famosas placas de ferro do Sr.Walter foram base para muitos dos meus trabalhos ao longo dos anos. Bateu uma saudade daquela época, das visitas periódicas para comprar mais placas e da acolhida que sempre recebi na casa deles (a D. Marta, esposa do Sr.Walter, é parceira de primeira linha nos negócios). Sempre havia papo, contação de história e visita à horta. Sempre havia uma caixa de legumes e verduras para eu levar junto com a encomenda de placas. Na verdade eu queria reviver aqueles tempos, quando em mim havia ainda um pequenino reduto de inocência que se extinguiu nos anos que vieram.

A saída para este tipo de banzo foi fuçar a prateleira dos materiais. Minha mémória dizia que em um dos nossos reencontros eu tinha voltado com umas duas placas na mala. Era isso mesmo. Achei-as ainda com a embalagem de espuma. O formato elíptico e os arabescos me fizeram revisitar toda a dinastia de Olhos Gregos que já fiz. Eu os adoro. Não sei porque. Apenas adoro. Mas não queria fazer um amuleto. Então fiz apenas um olho com stained glass, outros tipos de vidro e dois pinguinhos de espelho.


Terminei e vi este olhar vago, um tanto sem vida. Parece que não julga, parece que sequer presta atenção no que está a sua volta. Apenas olha, absorto em outros mundos. Está cansado, exausto, insone. Entrega-se ao olhar do observador sem fazer muita questão de interação. Ainda assim, sustenta o olhar, não se desvia, não foge, permanece.

Uma vez pendurado, olho-o de vez em quando. Se paro e ponho reparo, começo a pensar nos olhares que não são de vidro. Quanta coisa cabe ali! Um universo de palavras não ditas ganham o mundo jorradas pupila afora. E aí não tem como ocultar o que vai na alma, na cabeça, no coração, na índole. Impossível. A boca falando e olhar desmentindo ou confirmando. Que riqueza há nisso, não é?

A parede de mosaicos ganhou mais um item e o meu banzo não foi exatamente solucionado. Faz parte. Uma coisa me consola: enquanto o passado acontecia, eu sabia quando estava bom. Prestava atenção, curtia e agradecia. 



A gente se vê na próxima.

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Reflexo da Sorte

Há um caminhão, uma montanha, um mundo de coisas que fazemos sem pensar. Gestos, passos, atos, palavras e pensamentos que despejamos corpo a dentro e a fora, inconscientes da origem. Acontece, porém, que a vida é esse fluxo que nos empurra por alguns caminhos para que a gente preste mais atenção em detalhes importantes. Acho que é a energia amorosa da existência nos conduzindo para um aprendizado. Observe, reflita e aprenda. Como estamos sempre distraídos, não paramos para observar, não refletimos e não aprendemos. Por isso tomamos tanta porrada da vida, que consegue na violência do infortúnio captar nossa atenção.

Quantas crenças cultivamos e passamos adiante? E quantas delas envolvem medos? Pequenas frases ditas com propósito de proteção entregam pequenas ameaças: "se varrer o pé, não casa mais", " se comer na panela, chove no dia do casamento", "passar embaixo de escada dá azar", "espelho quebrado dá azar". Esses dizeres desvelam os valores em voga na época em que nasceram. Só que tudo é mudança, minha gente! E não é só isso. Tudo é contexto. Quantos de nós já varremos apressados os cacos do espelho que acabou de se partir, colocando-os no lixo e colocando esse lixo para fora de casa o quanto antes? Normalmente não se faz uma pausa para pensar que um espelho é algo frágil e, graças à gravidade, se cair é certeza que quebrará. Não fazemos isso. Queremos é nos livrar da maldição eminente do azar. Até que...você (no caso, eu) começa a fazer mosaicos. Corta para a cena seguinte: você (no caso, eu) está andando na rua e vê ao pé de uma árvore uma quantidade boa de espelho quebrado. O que você (no caso, eu) faz? Para quem faz mosaico, achar um espelho quebrado é como achar dinheiro no chão. Azar para uns, sorte para outros. O contexto mudou. Não há maldição, há alegria por encontrar material de graça. O trabalho a seguir foi feito justamente com espelhos que a rua me presenteou.

Além dos espelhos, também a base sobre a qual o mosaico foi feito, um tipo de Madeirite, é presente das ruas.


Tampas de garrafa sem desenhos também são ótimos elementos para composição.

Os materiais e suas cores foram escolhidos de forma a criar harmonia no local onde estes mosaicos ficarão.

Fazia um tempo que os espaços ao lado do porta-chaves ficavam olhando para mim com expressão suplicante. "Está mesmo muito pelado", pensei. Então fiz essas duas peças, repetindo elementos da Sardinha Mutante e do Porta-Chaves para que todos os mosaicos pareçam membros de uma mesma família.

É evidente que cada um é livre para ter suas crenças e essa liberdade é uma das coisas mais belas que há na vida. Mas acho que no momento, se o assunto for acreditar naquilo que não posso ver ou tocar, eu escolho acreditar que o bem e o mal estão dentro de nós e não em objetos. Também escolho acreditar que nós fazemos crescer uma ou outra força, dependendo da nossa sintonia. Para o bem de nossos corações, seria lindo se cada um pudesse estabelecer conexão com o seu melhor. Livre arbítrio e não medo. Pelo menos só por hoje.

Até a próxima!
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O Olho Periódico

Acontece assim: a cada tanto de tempo eu preciso fazer um Olho Grego. Esse precisar é meu mesmo. É como se a cada tanto viajado eu parasse para abastecer o carro, esticar as pernas, comer... É uma espécie de pausa onde retorno para um lugar familiar e seguro. E isso me faz bem.

Em algum momento já devo ter mencionado a atração que tenho por símbolos. Acho-os muito interessantes. Gosto de tentar entendê-los, de saber sua missão, de saber do poder que nós lhes conferimos. Claro que cada pessoa se relaciona de uma maneira com os símbolos. Eu os vejo como um lembrete de nossa própria força. Essa lembrança é de um valor inestimável quando tudo vai mal, quando nos sentimos incapazes de dar mais um passo adiante sem desabar. Nesse instante um símbolo pode nos lembrar que já passamos por isso outras vezes  e continuamos aqui, caminhando. Eles nos lembram que nosso chão é sólido e que nossas pernas tem a exata força que precisamos. Quando as sombras se avolumam sobre nossa alma fragilizada, um símbolo nos recorda que existe uma luz dentro de nós que nunca se apaga e que não há escuridão que não ceda à essa luz. Quando embaralhamos nossas pegadas e estamos perdidos, um símbolo é a seta que nos aponta a direção, que nos faz erguer a cabeça para avistar o destino. Quem faz somos nós. Mas o símbolo nos recorda de que podemos fazer.

O Olho Grego, segundo sua tradição, fala principalmente sobre proteção. Já tentei saber porque gosto tanto deste escudo, mas nunca cheguei até a resposta. Neste ponto acho que descobrir a resposta pouco importa. Se reproduzi-lo em mosaico me traz satisfação, que assim seja. Não fecharei as vias pelas quais a alegria queira me visitar, ainda que eu não saiba o motivo da visita.

Esse Olho Grego fiz sobre um prato de cerâmica, destes que são feitos para ficar sob vasos.

A parte de cerâmica pintei com esta tonalidade de dourado.

Utilizo o rejunte escuro com frequência para destacar as cores, fazendo-as brilhar.

O prato, por ser muito pesado, ganhou um suporte e assim pode ficar sobre aparadores e buffets.




Como acontece com certa frequência (comigo), o projeto inicial funcionou até um certo ponto. Então tudo empacou e não havia forma de ficar bom. Foram quatro tentativas de corta, cola e tira. Precisei de 48h de pausa e uma faxina em casa para achar o meio de fazer a coisa voltar a funcionar. Na ocasião eu coloquei a culpa nas obras de Hundertwasser que vi numa exposição em Lindau. Aquela beleza toda desorganizou meu cérebro e meu espírito. O que fazia sentido antes, não poderia mais ser. Por que isso acontece? Mais uma pergunta sem resposta para a minha coleção. Mesmo sem saber a causa, encontrei uma maneira de resolver o problema.

E assim vamos empacando, resolvendo, crendo, descrendo, entendendo, supondo e fazendo tudo o que dá, da melhor maneira que se sabe fazer.

Até a próxima! 
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A garrafa iluminada

Os fatos já são velhos conhecidos: Adriana adora decorar garrafas com mosaico. Adriana adora luz colorida. Adriana adora vidro colorido. E já faz um bom tempo que eu nutria o desejo de juntar todas as minhas adorações em uma coisa só. Enquanto não achava um bom jeito de fazer a tal união acontecer, praticava o prazer secreto de colocar uma lanterna sob uma garrafa terminada só para imaginar as possibilidades iluminadas do futuro. Até que certo dia, enquanto mergulhava fundo no oceano da internet, apareceu um anúncio de uma rolha de plástico da qual saía um fio de LED. A proposta era justamente iluminar garrafas. É sério, Deus? Achei que o Senhor estava bem ocupado com as eternas tensões do oriente médio, com a eterna fome que aflige quase 1 bilhão de pessoas ao redor deste mundo, com as diversas guerras e conflitos que cospem refugiados para todos os cantos. No meio de tudo isso o Senhor teve tempo de inspirar um chinês para fazer o sistema perfeito para iluminar garrafas?! Como agradecê-Lo? Aqui, na minha pequenez, acho que é honrando Sua criação. 

De início fiquei ressabiada em entregar meus dados e meus trocados numa loja virtual desconhecida que prometia uma entrega entre 10 e 45 dias úteis. Muito elástico esse prazo. Deixa para lá. Uma hora a novidade chega por aqui. E chegou! Lá na loja de inutilidades domésticas. Não aqui em Herrsching, é claro. A vocação para o turismo lacustre de terceira idade desta pequena estância bávara não combina com esse tipo de comércio. Fui ser feliz a alguns bons quilômetros daqui.

Uma vez proprietária da rolha iluminadora, separei materiais translúcidos e transparentes para a minha obra. Seria a ocasião perfeita para usar um pires de vidro que pegamos numa caixa de doações. O danado era bem bonitinho, verde, todo desenhado e tinha uns bons lascados aqui e ali. De início achei que o usaria como base para alguma coisa, mas a gente não pode - anote isso aí no seu caderno de diretrizes para a vida - desperdiçar um vidro colorido escondendo sua cor e sua transparência. Anotou? Ótimo! Então o pires iria para uma luminária...mas aí veio a rolha de luz e o pires foi devidamente picotado para ornamentar a garrafa dos meus sonhos.

Maltratado, mas muito digno.

Onde havia um pires passaram a existir tesselas.

Daí para frente todo mundo já sabe como funciona: corta, cola, corta, cola, corta, cola, seca a cola, rejunta tudo, seca o rejunte, limpa tudo, limpa mais um pouco, limpa de novo, coloca a rolha, acha que a rolha não tem nada a ver, troca zapzap com a irmã sobre a rolha, acata a sugestão, pinta a rolha de dourado, acha que a ainda não está bom, cola uma gema em cima da rolha mesmo com o marido sendo contra e aí acha que está ok, harmonioso, funcionando e dentro das expectativas. Sinto falta das tampas de louça e de vidro? Sinto, mas para ter a garrafa dos meus sonhos precisava abrir mão de alguma coisa (nesse caso da estética já conhecida). Quem sabe o mesmo chinês não inventa uma outra rolha de luz com upgrade estético. Quem sabe...

Vamos à diversão!

Fofa! Ela é feliz, mas é discreta. Não sai por aí fazendo post sobre sua felicidade (ao contrário de nós...)

Perfil elegante anunciando que o que está na frente não está atrás.

Parte de trás com sua beleza própria.

Close dos pedaços do pires verde.

Para mim foram os pedaços do pires que deram o toque especial.

A chave mágica, a razão da minha alegria.

Aqui você pode ver a garrafa muito segura de si. Ela pode não ter uma tampa toda ornamentada, mas ela tem luz! Como competir com isso?

Reinando plena e exclusiva.
Há luz...

...por todos os lados!

Fiquei pensando sobre o meu tempo de espera para ter uma garrafa com luz. Poderia dizer que tudo tem seu tempo ou que cada coisa acontece no momento certo. Esses ditos são verdade, mas talvez não nesse caso. A rolha iluminada não é exatamente uma ideia complexa, concorda? Talvez muitos de nós improvisaríamos algo muito semelhante se estivéssemos dispostos a chegar num resultado assim. Não menciono isso porque acredito que deveria ter sido eu a dar a ideia aos chineses, mas porque não sei responder a mim mesma sobre o motivo de não ter encarado com mais atenção o desejo da minha mente inquieta. Aqui é apenas uma garrafa iluminada, mas se faço isso com algo simples, imagine o que acontece com as questões complexas.

E com o amargor desta constatação permitir-me-ei uns instantes de "deixa prá lá" só para ter a mente em paz e apreciar minha garrafa iluminada. Até a próxima!

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Porque fazemos o que fazemos

Ela me escreveu contando que o marido, que até hoje nunca conseguiu entender sobre aquilo que lhe encanta, havia quebrado a luminária que ela comprou no final do ano passado. Ela estava triste e disse que gostaria de saber se algum dia eu faria uma luminária similar àquela. Apenas essa conversa, sem garantia de nada, foi suficiente para colocar na lista de tarefas uma nova luminária. Sendo mais sincera, foi suficiente para colocar essa tarefa na frente de outras tarefas. Sim, sem garantia de nada, afinal nada está garantido nessa vida que levamos, não é?

Mas por que um pedido sobre uma possibilidade no futuro tem tanto poder sobre mim? Porque ele traz uma conexão. Alguém em algum lugar entendeu o que eu faço e esse entendimento é que parece dar sentido a muita coisa.

Quem escolhe trilhar um caminho que não é convencional, rapidamente aprende que fará parte do trabalho ouvir uma boa cota de coisas nonsense, que vão desde a suposição de que você deveria arrumar um trabalho "de verdade" e fazer isso aí como um hobby até uma lista de adjetivos pejorativos sobre sua existência. Com tudo contra ou muito pouco a favor, a gente continua. E por que fazemos isso? Para mim, a resposta parece simples: porque é isso que somos. Essa é nossa verdade. Fazer outra coisa tornaria pessoas como eu muito infelizes, com almas miseráveis e, só aqui entre nós, o mundo não precisa de mais gente infeliz. A caminhada sempre será difícil, para todo mundo sem exceção, mas não precisa ser um completo desastre. Cada vez que alguém entende o que faço ou entende a minha motivação é para mim um momento onde tudo faz sentido. Por alguns minutos tudo valeu a pena, tudo se encaixa.

Essa é luminária "Ondas", versão 2.
Com a luz da vela as cores bailam fluidamente.
As miçangas, as pastilhas de vidro, o Vidrotil, os vidros de garrafa o stained glass...todos se unem nesse movimento sinuoso e infinito.

"Ondas" 2 e todas a suas faces.
Um poço dos desejos numa cascata de cores.

Eu faço o que faço porque acredito na transformação, acredito que pouquíssima coisa é realmente descartável e que muita, muita, muita coisa pode ser usada novamente. Eu faço o que faço porque acredito que não estamos aqui a passeio e cabe a nós mesmos buscar soluções para os problemas que nós mesmos criamos. Eu faço o que faço porque essa é a forma que eu vejo o mundo e não acredito ser possível viver os meus dias sob um olhar, uma intuição ou um amor que não sejam os meus próprios. Ainda que eu não saiba onde tudo isso vai dar, eu sinto que é nessa direção que eu devo caminhar. Quem sabe a gente não se encontra lá...seja lá onde for.

Até a próxima!
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A metade verde.

Todos nós que cultivamos muito gosto por alguma coisa nos deparamos com o dia em que nos falta espaço para enfileirar os objetos de nosso gosto. Aconteceu comigo. Não há mais espaço nas prateleiras para exibir minhas amadas garrafas com dignidade. Dizem que a necessidade é a mãe da invenção. No meu caso, eu adaptaria dizendo que a necessidade é o fermento da criatividade. Com os dedos coçando para fazer uma nova garrafa olhei para as paredes e achei que elas poderiam receber muito mais furos e pregos do que têm atualmente. Nada como um espaço em branco não é mesmo?

Uma vez decidido que penduraria a garrafa na parede, surgiram na minha mente algumas maneiras de fazer isso. Escolhi cortar a garrafa ao meio, longitudinalmente, e fixar essa metade em uma base. Escolhi usar Wedi para que o trabalho pronto ficasse um pouco mais leve. Decisões tomadas, garrafa cortada e colada, foi a hora de começar a revestir tudo. Mais uma vez a mente trouxe um tanto de possibilidades. Eu decidi revestir a garrafa primeiro e depois fazer o fundo, mergulhando num mar de tons de verde.


Teve pedra natural, espelhos, miçangas, pastilhas de vidro de vários tipos, gemas de vidro...

...sem falar no reaproveitamento de bijou (obrigada, mãe!) e nas conchas que pintei com tinta vitral.
Durante a elaboração do mosaico eu estava mais concentrada em fazer padrões e repetir elementos para não perder a harmonia. O resultado final foi uma garrafa de mosaico totalmente mimetizada com o fundo.
Onde começa e onde termina a garrafa?

Prova de que tem mesmo uma meia garrafa ali.
Para o acabamento das bordas, escolhi usar fatias de rolhas já que elas abundam neste pequeno lar. Uma vez fatiadas, usei um pirógrafo (quem lembra disso?) para criara detalhes na cortiça. Confesso que o cheiro de cortiça queimada rendeu uma "good trip" que me levou diretamente aos tempos de primário.
A Garrafa de Parede, no meio de suas irmãs de prateleira, ficou com cara de quadro de antepassado, aqueles com o retrato do tataravô do seu bisavô que foi príncipe em algum fim de mundo por aí.

Mas na parede ficou uma lindeza só. A outra metade também habitará essa mesma parede.
Esse trabalho trouxe algumas alegrias. A primeira foi conseguir cortar a garrafa (me senti muito vitoriosa!). A segunda foi a confecção do mosaico em si, que dá aquele prazerzinho no cérebro. A terceira foi o exercício das possibilidades. Isso é uma coisa que me encanta na existência. Há várias maneiras, muitas mesmo, de se fazer uma mesma coisa e chegar no mesmo resultado. Acho essa ideia maravilhosa. Há várias formas de se alimentar, várias formas de se vestir, várias formas de se movimentar, várias formas de amar, várias formas de se relacionar, várias formas de se expressas, várias formas de trabalhar, várias formas de rezar, várias formas de ajudar, várias formas de se alegrar, várias formas de curar e essa pluralidade é linda demais! Essas múltiplas opções falam de como somos seres diversificados e cheios de possibilidades, de como cada um de nós pode ficar tranquilo em ser aquilo que é, em externalizar sua Essência. O que faz a primavera ser tão linda é a profusão de cores, formas e aromas diferentes, não é? Então deixemos nosso espelho narcisista de lado por um instante para nos surpreendermos com tudo que há de diferente à nossa volta.

Até a próxima!
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Outro balão vai subindo.

E desta vez não houve um intervalo tão grande entre a ideia e o mosaico como no caso do primeiro balão que subiu. 

Sabe aquela história que todos nós sabemos que quando muda o ângulo de visão, tudo muda? Foi justamente assim que consegui enxergar esse balãozinho. Em 2014 comecei a fazer pequenos vasos a partir de lâmpadas queimadas. A ideia em si não era original. Quando eu era criança, meu pai fez alguns vasinhos com lâmpadas. Tenho muito vivo em minha mente a visão da lâmpada com água, uma Maria-sem-vergonha dentro e o sol vindo através da janela da lavanderia e iluminando esse cenário que para mim era mágico.

Os primeiros vasinhos pareciam ao meu olhar pequenas jóias preciosas. Com suporte ou sem suporte, eles eram a cara de quem gosta de sonhar acordado. Os últimos vasinhos que fiz conversaram comigo de maneira muito clara e me disseram que eles poderiam alcançar o céu. Foi tirando as fotos que o óbvio se revelou: não era uma lâmpada e nem um vaso. Era um balão! Lógico! Ao que parece um bom balão precisa de um cesto, caso contrário quem vai conseguir dar a volta ao mundo num balão, certo? Uma tampa de garrafa, dessas de rosca, serviu perfeitamente para isso. E daí para frente foi aquele exercício de transmitir para as mãos tudo aquilo que está na cabeça. Com ele pronto achei que era uma boa se o cesto, as correntinhas e a rosca da agora ex-lâmpada fossem dourados. Nem pensei duas vezes em cobrir tudo com glitter. Deveria ter pensado pelo menos duas vezes. Até agora tem glitter por aí, no banheiro, na cozinha, no travesseiro, nos gatos. E a dureza é que a cobertura não ficou completa. Então decidi, depois que a cola secou totalmente, passar um pincel com uma certa sede de justiça, para cair tudo o que precisava cair e no final ficou mais com uma cara de pátina com glitter, por assim dizer. Acho que na próxima vou de goma-laca e purpurina mesmo. Agora você acha que isso diminuiu meu amor por esse balão para fadas? Nem um milímetro!!!! Ok, eu sei que fadas tem asas e tudo mais. Mas pode acontecer de ela estar mais cansada um dia e querer apreciar a paisagem enquanto relaxa as asas, exatamente como acontece com a gente quando vai de carona no carro.

Sem mais delongas, eis aqui o meu amado Uber de Fadas!

Dá ou não dá vontade de morder?

Para passar o fio fiz um pequeno furinho na lâmpada com toda a paciência que os vidros exigem.

Sim, você viaja confortavelmente acomodada sobre uma flor.

O ganchinho para pendurar é um anzol de fazer brincos, sabe?

Imagem feita durante vôo de testes. :-)
Tão bom quanto comer quando se está com fome é concretizar uma ideia. Só que depois de um tempo que acaba já vai surgindo a fome de novo. E se fizesse um móbile, por exemplo? Sim, porque ideia é essa coisa parideira. A gente dá à luz a uma e esse uma dá à luz outra e assim vai, numa sucessão de nascimentos. 

Beijos a todas às mentes férteis e até a próxima!
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As lâmpadas, o mosaico e a neve.

Já mencionei aqui que quando nos mudamos para Herrsching eu notei um incremento na minha energia de vida. Berlim é uma cidade in-crí-vel, mas morar lá foi especialmente desafiador pela falta de luz. Aqui no sul essa questão é muito mais amena e meu cérebro percebeu isso rapidamente. O impacto que isso teve no meu trabalho é percebido claramente. Aliás, um passeio pelo álbum de fotos vai contando diversas histórias sobre fases e percepções.

Somos capazes de fazer o que fazemos nas mais variadas situações, mas para que a nossa verdade venha à tona é preciso que algumas condições estejam alinhadas. Por exemplo, semana passada nevou muito por aqui. Na minha caminhada em meio ao cenário branco fiquei observando a neve acumulada pelos lugares. Em todas as superfícies, inclusive nas mais estreitas, havia uma torre de gelo. É fascinante!

Floco por floco, um após o outro, um sobre o outro e esculturas improváveis vão se formando.
Olhando para essas fotos, imagine a paz que precisa existir para que estas frágeis paredes se ergam sobre um galho, um corrimão, uma cerca...O vento não pode ser exagerado, a temperatura deve se manter dentro de determinada faixa e o tipo da neve também influencia. Cumprido todos os requisitos o espetáculo acontece.

No mundo encantado do mosaico, a mágica também funciona dessa maneira. É necessária uma dose de paz (muito mais interna do que externa) para que a criatividade baile, para que as ideias e o vidro sejam lapidados. É necessária paciência para unir os pedaços de uma determinada forma para que surja o todo. É necessário esperar, porque o tempo leva o tempo que o tempo leva. Cabe a nós nos encaixarmos nesse fluxo.

Meus objetos de paz e paciência da vez são dois vasinhos de lâmpada que mais parecem duas jóias preciosas de um tesouro inestimado.











Fazer mosaico é como andar na neve, você dá um passo por vez e anda devagar. Às vezes precisa mudar o percurso para contornar um obstáculo, às vezes precisa voltar uma parte para depois retomar a mesma direção. Chegar ao final da caminhada é bom, mas o percurso é o que há de mais gostoso.

Que tenhamos a paz e a paciência que nossos passos requerem para andarmos no rumo que mais nos atrair, desfrutando do caminho tanto quanto do prazer da chegada.

Até a próxima!
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