Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.
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A recuperação, a paciência e a garrafa.

20 minutos. Esse era o tempo que eu conseguia fazer um pouco de mosaico antes de ceder à dor. Ao contrário do que imaginava, o mais dolorido não era usar a torquês, mas fazer movimentos mais finos com os dedos, como segurar a pinça ou pegar uma miçanga. A postura também era um problema. O colar cervical diminuía a dor, mas dificultava todo o resto. Destino dado, o melhor que eu poderia fazer era aproveitar esses 20 minutos diários. Lado ruim: quando começo um trabalho, quero ir fazendo até cansar, até dar a hora de fazer outra coisa ou até acabar a inspiração. Era frustrante. Mas fazer nada seria incomparavelmente mais frustrante ainda. Lado bom: o ritmo bem lento foi um convite para mergulhar nos detalhes. Além disso, de um dia para o outro o silicone estava bem seco e isso me dava total liberdade para trabalhar qualquer face da garrafa que quisesse, sem medo de deslocar alguma tessela. Foi sob essas regras que comecei o novo trabalho.

Para este, deixei um pouco de lado o tipo de tampa que normalmente uso - o puxador de gaveta fixado numa rolha. Fui até a última prateleira da estante resgatar uma tampa de vidro comprada num passado já sem data. Nesta garrafa a tampa não ficaria fixa como em todas as antecessoras. Fiquei imaginando que deliciosa extravagância seria tomar qualquer coisa que saísse de uma garrafa completamente revestida em mosaico e cedi à sedução da idéia. Na prática não tenho coragem de fazer isso. Imagina colocar um suco ali dentro. Como seria para limpar depois? Como saberia se a garrafa ficou realmente limpa? Não, não, não! No mundo real não daria certo. Mas na imaginação é incrível! Segui com meu plano.

Não é uma lindeza de tampa?

Como de costume, as cores da tampa determinaram as cores dos materiais para o mosaico. Depois disso, o trabalho de formiguinha correu, ou melhor, andou solto, bem solto mesmo. Um espacinho a cada dia. Um dia em cima, no outro embaixo. Formar linhas, preencher formas, criar e repetir padrões.
Houve momentos em que achei que não terminaria nunca. Precisava me lembrar constantemente que o mais importante era fazer. Terminar seria uma consequência. Era (e ainda é) fundamental manter os músculos em movimento. Aprendi com a fisioterapeuta que é justamento o movimento que nos tira de uma crise. Aprendi ainda que os exercícios devem ser feitos não apenas depois, mas também antes do trabalho.

E, de 20 em 20 minutos, a garrafa ficou pronta. Ao final, o limite dos 20 minutos já era 30, às vezes 40 minutos. Só uma coisa não mudou: o dilema da cor do rejunte. Optei por cinza, mas fiz uma mistura de dois tons que já tinha para ficar num meio termo. Gostei? Gostei. Fiquei pensando se o preto não ficaria melhor? Fiquei...só para não perder o costume.


A parte da frente. Dá um close e vê essa riqueza em detalhes.

A garrafa de perfil. Algo aí me faz pensar em céu, em nuvens, em conforto.

A parte de trás que também poderia ser da frente.

Fiquei com vontade de ter uma base giratória para contemplar em modo contínuo todos os lados da garrafa e me perguntei que história é essa de ter uma parte que fica para frente e outra que fica para trás. Talvez não precise ser sempre assim. Já fiz algumas garrafas que não tem frente ou trás porque todas as faces são iguais. Não é o caso dessa.

Além de pensar sobre lados, também pensei de onde vem a pressa, a urgência que sentimos constantemente. Por que mesmo precisamos correr? O que exatamente tem nos roubado os inestimáveis momentos presentes? Eu sempre tive pressa de terminar um trabalho para poder começar outro. Nessa garrafa não adiantava a pressa. O ritmo foi estabelecido pela dor e na lentidão da minha possibilidade eu pude estar mais no presente, pude desfrutar mais profundamente daquilo que me encanta. Talvez porque soubesse que aquele momento era breve. Talvez porque fosse impossível agir diferente. Seja o que for, me pareceu que vivemos um tanto errados há um tanto de tempo. Esse não é um pensamento do tipo "joga tudo fora e começa de novo". É um pensamento do tipo que quer prestar mais atenção naquilo que traz angústia e ansiedade e então refletir se não há uma outra maneira de fazer o que temos que fazer. Uma maneira que nos permita não apenas um maior desfrute do momento presente, mas o desfrute de nós mesmos, menos apartados de nosso íntimo.

E nas tentativas, seguimos.

Até a próxima!
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O vaso, a hérnia e a pausa.

 Tinha terminado a parte teórica do curso online de vitrais e, sabendo que não daria para fazer o projeto do curso agora, fui cheia de amor me reencontrar com o mosaico. Havia um vaso sobre a mesa que seguramente já fizera aniversário. Ele veio dos desapegos muito comuns na primavera, quando a maior parte das pessoas faz um faxinão em casa e coloca para fora o que não quer mais. Quase o revesti uma vez. Fiz rascunho e tudo, mas não me convenci e o vaso continuou ali de lado. Porém, o momento agora era outro. Comecei os trabalhos dizendo para mim que não era para ter pressa porque certamente não o terminaria antes das férias já programadas. Com o espírito embuído de calma fui compondo com carinho, curvada sobre os materiais e ferramentas que tanto gosto. Curvada como sempre. Curvada demais, talvez. Já tinha umas dores aqui e ali, mas a pausa para um bom alongamento não acontecia nunca.  Encurtando a história, a dor no ombro, na escápula, no braço direito, no cotovelo e os dedos dormentes eram sintomas de hérnia de disco cervical que estava extrusa. Entre C5 e C6, mostrou a ressonância feita no que seria o primeiro dia de férias. Férias canceladas. Drogas e fisioterapia no lugar. Também conheci algo chamado Osteopatia, que até agora não sei dizer extamaente o que é, mas recomendo muitíssimo!

Além das férias, fiquei sem tudo que mais gosto. Sem as caminhadas no mato, sem mosaico, sem crochê, sem desenho, sem conseguir dormir, sem conseguir escrever, sem conseguir pegar o PoiZé no colo, sem independêcia...sem identidade, enfim. Aos poucos fui sabendo de mais e mais pessoas com o mesmo problema. Recebi muitas dicas e coloquei todas em prática. Também me deparei com muita solidariedade e, vou te dizer, isso faz maravilhas denro do organismo! Como todo este apoio, o tratamento e muita paciência as coisas foram melhorando. Para drenar um pouco do que acontece dentro da minha cabeça, pedi uma ajuda para a mão esquerda e ela me foi muito útil para fazer alguns desenhos, apesar da sua falta de prática.


Com a dor menor, olhei para o vaso iniciado. Daria para continuar? Não, ainda não. Mas ele me pareceu simpático como estava. Então decidi pintar a cerâmica e presentear a fisioterapeuta que foi, sem dúvida, a profissional de saúde mais acolhedora com que tive contato aqui.





A ocasião coincidiu com a véspera do feriado de Páscoa, de forma que o vaso foi rechado de chocolate. O presentear rendeu um "oh, nein!" (oh, não!), que eu já aprendi que é dito em momentos de boa surpresa. Também teve "Gänsehaut", que é quando a pele fica arrepiada. E o que veio depois, eu nunca imaginei que aconteceria aqui: um abraço. Por essa eu não esperava! Foi preciso concentração para conseguir deixar o choro para depois. Em minha defesa, digo que nestes dias eu chorava por tudo e por nada.

Agora tudo está melhor. Na última semana comecei a mosaicar uma garrafa, muito mais atenta aos limites do corpo. É ele que me diz quando devo parar. Ontem fiz um pouco de crochê e isso me deu alegria. Antes de ontem voltei a caminhar no mato e isso me acalmou. Viver apenas um dia por vez nunca foi tão necessário.

Até a próxima!

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O carro, a bandeja e a pequenez do mundo.

Você já ouviu o ditado que diz que o mundo todo tem 300 pessoas e o resto é figurante? Isso explicaria porque de quando em quando esbarramos com alguém que conhece alguém que nos conhece. Daí a necessidade de andar direito na vida ou assumir o risco de ter sua reputação jogada na lama. É basicamente isso que me impede de sair de pijama sob o casaco para dar aquela corridinha na farmácia. Pois bem, sabendo que somos este punhadinho de gente no planeta, era de se esperar (mas na verdade, não) que alguém que estivesse em Herrsching quisesse conhecer o meu trabalho. Não qualquer alguém, mas alguém que já sabia que eu faço mosaico porque conhece a minha mãe e, por meio dela, já havia visto fotos dos meus trabalhos no Facebook. Como se não fosse cruzamento suficiente de destinos, a futura cliente estava passando ums dias na casa de uma amiga aqui na cidade, mais especificamente a dois quarteirões de onde moramos. Foi assim que nos encontramos.

O pedido era um presente de casamento. Tendo o casal a vida já estabelecida, precisaríamos pensar em algo muito personalizado. Pensando em gostos, na casa e tudo mais, decidiu-se por uma bandeja com a figura do carro Hummer, uma paixão do noivo. Outro detalhe importante era a cor, preferida do casal para tudo na vida: preto. Não só a cor do carro, mas da peça toda.
Com tudo definido, bora trabalhar! O material escolhido foi o Smalti italiano. Como a bandeja é uma peça utilitária, houve a necessidade de colocar uma placa de vidro sobre o mosaico. Para tanto coloquei 12 pedacinhos de madeira distribuídos pelas as bordas e peloo meio da superfície da bandeja para servirem de apoio para o vidro. 
Além do preto, usei também o tom mais ecuro de marrom e o tom mais escuro de cinza. Alguns outros tons de cinza para detalhes e nuances e ouro branco para o contorno
Este pedido me tirou por bons momentos do calor egóico onde cada tessela é sobre mim e relembrou a delicadeza que é fazer um mosaico sobre o momento de outra pessoa, com outro olhar e outro querer. Um pedido nascido do afeto para celebrar o afeto.
Acima você vê abandeja prontinha e brilhando. A seguir, o vidro foi colocado.
Um viva aos noivos! Que a união prossiga, longeva, saudável, vibrante e afetuosa.

Um viva aos caminhos que se cruzam, nunca ao acaso, e ao que surge destas intersecções!

Até a próxima!
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Charles de Gaulle, a ansiedade e o mosaico.

 O episódio Charles de Gaulle

A hoje vizinha havia se mudado há pouco tempo para a região e ainda morava em um hotel enquanto procurava apartamento para alugar. Conta ela que, certo dia, enquanto dava aquela boa relaxada no esqueleto, alguém abriu a porta do quarto. Tomada por um susto sem tamanho, ela levantou prontamente da cama já perguntando "quem é?". Não deu tempo de ver as feições do invasor, que saiu em disparada dizendo "Charles de Gaulle! Charles de Gaulle! Charles de Gaulle!". Minutos depois o telefone do quarto toca. É a recepção pedindo milhões de desculpas. Houve um equívoco nas reservas e a chave do quarto ocupado pela hoje vizinha foi dada a um novo hóspede. Para tornar a desculpa mais crível, o hotel ofertou à hóspede invadida uma garrafa de espumante de primeiríssima qualidade. Achei justo.

Quando ela nos contou o ocorrido, supusemos que o invasor não teria dito "Charles de Gaulle", mas sim "Entschuldigung!", que signifa "desculpa" em alemão. A hoje vizinha fez uma carinha de que finalmente as coisas faziam mais sentido. Brindamos, nos deliciamos e eu pedi se poderia ficar com a garrafa, tão ancuda e pescoçuda. Pedido atendido, a garrafa foi para a prateleira dos materiais.

A ansiedade e o mosaico.

Atualmente deixo para fazer uma garrafa quando quero colocar as coisas de dentro da cabeça em ordem. 

Ano novo, problemas velhos, achei que uma garrafa seria a melhor forma de começar janeiro. Olhei a prateleira e escolhi justamente a garrafa "Charles de Gaulle". Suas formas marcantes seriam um bom estímulo. Porém, desta vez, não queria que a já companheira íntima, a ansiedade, atrapalhasse a minha brincadeira. Propus uma regra para mim: não faria nada correndo. Levaria o tempo que fosse preciso para fazer o mosaico. Se desse um branco, faria uma pausa e só seguiria adiante quando surgisse a ideia. Fiquei muito vigilante e parei o trabalho inúmeras vezes. Fazendo isso, descobri que a ansiedade em terminar logo vem do fato de que há muitas ideias na cabeça e a torneira por onde elas saem tem uma vazão muito pequena. Então fica aquela pressão desgraçada, um desejo de tornar real tudo o que habita a imaginação. Impossível, não é, amores? Totalmente impossível.

O fato é que fazendo as pausas necessárias para não colocar a carroça na frente dos bois, levei quase um mês para terminar o mosaico. Um mês! Qual o ponto positivo? Tenho apenas um arrependimento no trabalho como um todo: a cor do rejunte. Normalmente são vários arrependimentos. O ponto negativo é que levou um mês para fazer um trabalho de aparência ordinária, ou seja, não é pior e nem melhor do que os demais. Então concluí algo bem estranho: talvez não valha muito a pena querer controlar a ansiedade a ferro e fogo. Quero dizer, o fato de eu deixar para continuar o trabalho quando estivesse mais tranquila e pensando com mais clareza não me levou a um resultado melhor. Se tiver algum analista lendo isso, por gentileza, me conte o que Freud diria.

Enquanto aguardo o meu diagnóstico, vamos aos fatos:

Ei-la, senhoras e senhores,a rainha de janeiro!

O bom e velho puxador rosqueado na rolha como tampa. Agora desça um pouco o seu olhar e veja que belo desenho as miçangas formaram ali em baixo.


Cada coluna da garrafa teve uma cor guia. Foram quatro no total: laranja, rosa, roxo e verde.

Usei conchas pintadas por toda a volta.

Para o mosaico desta garrafa usei pastilhas de vidro, miçangas, contas, canutilhos e conchas. A questão do rejunte é que se ele fosse uma tonalidade mais escura, acredito que as cores ficariam mais vibrantes. Da forma como ficou, a garrafa tem uma delicadeza que eu não desejei que tivesse. Mas, como alguém já disse em vários lugares, tudo é aprendizado. Por aqui, lição aprendida e anotada.

Espero que o ano de vocês, até este meio de fevereiro, tenha sido estável. Se não melhorou nada em relação ao nefasto 2020, que pelo menos não tenha piorado. Torço por isso!

Até a próxima!

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Reflexo da Sorte

Há um caminhão, uma montanha, um mundo de coisas que fazemos sem pensar. Gestos, passos, atos, palavras e pensamentos que despejamos corpo a dentro e a fora, inconscientes da origem. Acontece, porém, que a vida é esse fluxo que nos empurra por alguns caminhos para que a gente preste mais atenção em detalhes importantes. Acho que é a energia amorosa da existência nos conduzindo para um aprendizado. Observe, reflita e aprenda. Como estamos sempre distraídos, não paramos para observar, não refletimos e não aprendemos. Por isso tomamos tanta porrada da vida, que consegue na violência do infortúnio captar nossa atenção.

Quantas crenças cultivamos e passamos adiante? E quantas delas envolvem medos? Pequenas frases ditas com propósito de proteção entregam pequenas ameaças: "se varrer o pé, não casa mais", " se comer na panela, chove no dia do casamento", "passar embaixo de escada dá azar", "espelho quebrado dá azar". Esses dizeres desvelam os valores em voga na época em que nasceram. Só que tudo é mudança, minha gente! E não é só isso. Tudo é contexto. Quantos de nós já varremos apressados os cacos do espelho que acabou de se partir, colocando-os no lixo e colocando esse lixo para fora de casa o quanto antes? Normalmente não se faz uma pausa para pensar que um espelho é algo frágil e, graças à gravidade, se cair é certeza que quebrará. Não fazemos isso. Queremos é nos livrar da maldição eminente do azar. Até que...você (no caso, eu) começa a fazer mosaicos. Corta para a cena seguinte: você (no caso, eu) está andando na rua e vê ao pé de uma árvore uma quantidade boa de espelho quebrado. O que você (no caso, eu) faz? Para quem faz mosaico, achar um espelho quebrado é como achar dinheiro no chão. Azar para uns, sorte para outros. O contexto mudou. Não há maldição, há alegria por encontrar material de graça. O trabalho a seguir foi feito justamente com espelhos que a rua me presenteou.

Além dos espelhos, também a base sobre a qual o mosaico foi feito, um tipo de Madeirite, é presente das ruas.


Tampas de garrafa sem desenhos também são ótimos elementos para composição.

Os materiais e suas cores foram escolhidos de forma a criar harmonia no local onde estes mosaicos ficarão.

Fazia um tempo que os espaços ao lado do porta-chaves ficavam olhando para mim com expressão suplicante. "Está mesmo muito pelado", pensei. Então fiz essas duas peças, repetindo elementos da Sardinha Mutante e do Porta-Chaves para que todos os mosaicos pareçam membros de uma mesma família.

É evidente que cada um é livre para ter suas crenças e essa liberdade é uma das coisas mais belas que há na vida. Mas acho que no momento, se o assunto for acreditar naquilo que não posso ver ou tocar, eu escolho acreditar que o bem e o mal estão dentro de nós e não em objetos. Também escolho acreditar que nós fazemos crescer uma ou outra força, dependendo da nossa sintonia. Para o bem de nossos corações, seria lindo se cada um pudesse estabelecer conexão com o seu melhor. Livre arbítrio e não medo. Pelo menos só por hoje.

Até a próxima!
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O Olho Periódico

Acontece assim: a cada tanto de tempo eu preciso fazer um Olho Grego. Esse precisar é meu mesmo. É como se a cada tanto viajado eu parasse para abastecer o carro, esticar as pernas, comer... É uma espécie de pausa onde retorno para um lugar familiar e seguro. E isso me faz bem.

Em algum momento já devo ter mencionado a atração que tenho por símbolos. Acho-os muito interessantes. Gosto de tentar entendê-los, de saber sua missão, de saber do poder que nós lhes conferimos. Claro que cada pessoa se relaciona de uma maneira com os símbolos. Eu os vejo como um lembrete de nossa própria força. Essa lembrança é de um valor inestimável quando tudo vai mal, quando nos sentimos incapazes de dar mais um passo adiante sem desabar. Nesse instante um símbolo pode nos lembrar que já passamos por isso outras vezes  e continuamos aqui, caminhando. Eles nos lembram que nosso chão é sólido e que nossas pernas tem a exata força que precisamos. Quando as sombras se avolumam sobre nossa alma fragilizada, um símbolo nos recorda que existe uma luz dentro de nós que nunca se apaga e que não há escuridão que não ceda à essa luz. Quando embaralhamos nossas pegadas e estamos perdidos, um símbolo é a seta que nos aponta a direção, que nos faz erguer a cabeça para avistar o destino. Quem faz somos nós. Mas o símbolo nos recorda de que podemos fazer.

O Olho Grego, segundo sua tradição, fala principalmente sobre proteção. Já tentei saber porque gosto tanto deste escudo, mas nunca cheguei até a resposta. Neste ponto acho que descobrir a resposta pouco importa. Se reproduzi-lo em mosaico me traz satisfação, que assim seja. Não fecharei as vias pelas quais a alegria queira me visitar, ainda que eu não saiba o motivo da visita.

Esse Olho Grego fiz sobre um prato de cerâmica, destes que são feitos para ficar sob vasos.

A parte de cerâmica pintei com esta tonalidade de dourado.

Utilizo o rejunte escuro com frequência para destacar as cores, fazendo-as brilhar.

O prato, por ser muito pesado, ganhou um suporte e assim pode ficar sobre aparadores e buffets.




Como acontece com certa frequência (comigo), o projeto inicial funcionou até um certo ponto. Então tudo empacou e não havia forma de ficar bom. Foram quatro tentativas de corta, cola e tira. Precisei de 48h de pausa e uma faxina em casa para achar o meio de fazer a coisa voltar a funcionar. Na ocasião eu coloquei a culpa nas obras de Hundertwasser que vi numa exposição em Lindau. Aquela beleza toda desorganizou meu cérebro e meu espírito. O que fazia sentido antes, não poderia mais ser. Por que isso acontece? Mais uma pergunta sem resposta para a minha coleção. Mesmo sem saber a causa, encontrei uma maneira de resolver o problema.

E assim vamos empacando, resolvendo, crendo, descrendo, entendendo, supondo e fazendo tudo o que dá, da melhor maneira que se sabe fazer.

Até a próxima! 
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A garrafa iluminada

Os fatos já são velhos conhecidos: Adriana adora decorar garrafas com mosaico. Adriana adora luz colorida. Adriana adora vidro colorido. E já faz um bom tempo que eu nutria o desejo de juntar todas as minhas adorações em uma coisa só. Enquanto não achava um bom jeito de fazer a tal união acontecer, praticava o prazer secreto de colocar uma lanterna sob uma garrafa terminada só para imaginar as possibilidades iluminadas do futuro. Até que certo dia, enquanto mergulhava fundo no oceano da internet, apareceu um anúncio de uma rolha de plástico da qual saía um fio de LED. A proposta era justamente iluminar garrafas. É sério, Deus? Achei que o Senhor estava bem ocupado com as eternas tensões do oriente médio, com a eterna fome que aflige quase 1 bilhão de pessoas ao redor deste mundo, com as diversas guerras e conflitos que cospem refugiados para todos os cantos. No meio de tudo isso o Senhor teve tempo de inspirar um chinês para fazer o sistema perfeito para iluminar garrafas?! Como agradecê-Lo? Aqui, na minha pequenez, acho que é honrando Sua criação. 

De início fiquei ressabiada em entregar meus dados e meus trocados numa loja virtual desconhecida que prometia uma entrega entre 10 e 45 dias úteis. Muito elástico esse prazo. Deixa para lá. Uma hora a novidade chega por aqui. E chegou! Lá na loja de inutilidades domésticas. Não aqui em Herrsching, é claro. A vocação para o turismo lacustre de terceira idade desta pequena estância bávara não combina com esse tipo de comércio. Fui ser feliz a alguns bons quilômetros daqui.

Uma vez proprietária da rolha iluminadora, separei materiais translúcidos e transparentes para a minha obra. Seria a ocasião perfeita para usar um pires de vidro que pegamos numa caixa de doações. O danado era bem bonitinho, verde, todo desenhado e tinha uns bons lascados aqui e ali. De início achei que o usaria como base para alguma coisa, mas a gente não pode - anote isso aí no seu caderno de diretrizes para a vida - desperdiçar um vidro colorido escondendo sua cor e sua transparência. Anotou? Ótimo! Então o pires iria para uma luminária...mas aí veio a rolha de luz e o pires foi devidamente picotado para ornamentar a garrafa dos meus sonhos.

Maltratado, mas muito digno.

Onde havia um pires passaram a existir tesselas.

Daí para frente todo mundo já sabe como funciona: corta, cola, corta, cola, corta, cola, seca a cola, rejunta tudo, seca o rejunte, limpa tudo, limpa mais um pouco, limpa de novo, coloca a rolha, acha que a rolha não tem nada a ver, troca zapzap com a irmã sobre a rolha, acata a sugestão, pinta a rolha de dourado, acha que a ainda não está bom, cola uma gema em cima da rolha mesmo com o marido sendo contra e aí acha que está ok, harmonioso, funcionando e dentro das expectativas. Sinto falta das tampas de louça e de vidro? Sinto, mas para ter a garrafa dos meus sonhos precisava abrir mão de alguma coisa (nesse caso da estética já conhecida). Quem sabe o mesmo chinês não inventa uma outra rolha de luz com upgrade estético. Quem sabe...

Vamos à diversão!

Fofa! Ela é feliz, mas é discreta. Não sai por aí fazendo post sobre sua felicidade (ao contrário de nós...)

Perfil elegante anunciando que o que está na frente não está atrás.

Parte de trás com sua beleza própria.

Close dos pedaços do pires verde.

Para mim foram os pedaços do pires que deram o toque especial.

A chave mágica, a razão da minha alegria.

Aqui você pode ver a garrafa muito segura de si. Ela pode não ter uma tampa toda ornamentada, mas ela tem luz! Como competir com isso?

Reinando plena e exclusiva.
Há luz...

...por todos os lados!

Fiquei pensando sobre o meu tempo de espera para ter uma garrafa com luz. Poderia dizer que tudo tem seu tempo ou que cada coisa acontece no momento certo. Esses ditos são verdade, mas talvez não nesse caso. A rolha iluminada não é exatamente uma ideia complexa, concorda? Talvez muitos de nós improvisaríamos algo muito semelhante se estivéssemos dispostos a chegar num resultado assim. Não menciono isso porque acredito que deveria ter sido eu a dar a ideia aos chineses, mas porque não sei responder a mim mesma sobre o motivo de não ter encarado com mais atenção o desejo da minha mente inquieta. Aqui é apenas uma garrafa iluminada, mas se faço isso com algo simples, imagine o que acontece com as questões complexas.

E com o amargor desta constatação permitir-me-ei uns instantes de "deixa prá lá" só para ter a mente em paz e apreciar minha garrafa iluminada. Até a próxima!

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Dando asas à perua.


Dizem os especialistas que ao longo da vida nossas orelhas e nosso nariz não param de crescer. Além de outras partes do corpo, eu adicionaria à lista os anéis, os brincos e os colares. Eu fui um dia a discreta, adepta das bijuterias minimalistas. Qualquer acessório além dos mini brincos já era coisa demais. Mas, não sei por qual motivo, a regra foi perdendo efeito ao longo dos anos. Seria o signo solar falando mais alto? Seria a auto censura falando mais baixo? Pouco, muito pouco importa. Tendências "peruescas" assumidas, vamos tratar de expressá-las, afinal não é toda perua que gosta de legging com animal print, de dirigir SUV e de longas unhas decoradas. A minha jovem perua curte a tendência de andar a pé, prefere estampa floral em roupas largas e leves como o vento e mantém as unhas curtas e eventualmente coloridas (de preferência uma mão de cada cor). E para atender aos meus próprios anseios, achei que era uma boa fazer meu próprio colar, logicamente com influências musivas. 

Em outras ocasiões fiz minhas caminhadas por esses campos. A cada peça feita, tive a sensação de que ainda não tinha chegado lá, ou seja, ainda não tinha conseguido me expressar satisfatoriamente nas bijuterias. Agora dei mais um passo numa direção que para mim é boa. Vamos a ele:

Essa é a parte de trás. Como das últimas vezes, a base é feita com tampas de garrafa. Neste colar usei todas do mesmo tipo (Fritz-Kola).
 
Tirei a borda ondulada das tampinhas e preenchi cada uma com pequenos mosaicos de stained glass, miçangas, areia de espelho e contas de vidro.


As peças de vidro foram o elo de ligação entre as tampinhas.
Sim, um guizo para finalizar. Porque eu gosto, porque é lúdico, porque me traz lembranças da juventude.

Belo! Muito belo!

Dá para usar bem próximo do pescoço.

Ou deixar mais comprido, descendo pelo colo.
A sensação de "quase lá" me diz que falta dominar essa caminho que vai desde o que existe dentro da cabeça até as mãos. É um processo curioso esse. Freqüentemente me perco nas curvas ou pego atalhos. O problema destes desvios é não chegar no destino final. A gente chega, mas chega em outro lugar.

Criar e executar também envolve disciplina e, às vezes (ou sempre), a criança interna não fica muito contente com essa história. Ela quer sair pulando e cantando, pisando em poças d'água, deitando na grama, correndo no mato, voando entre nuvens, cheirando flores para sentir se são perfumadas... Sempre há o dilema de quem deve falar mais alto: a disciplina ou a liberdade? Alguém uma vez disse que se a primeira ameaça a segunda, é o momento da segunda falar mais alto. Neste ponto a gente precisa tomar um certo cuidado para não descambar para a boa e velha putaria. Parece, então, que tudo se resolve com o famoso "meio termo". Difícil...bem difícil. É muito mais simples ficar em um ou outro extremo, mas aí não se chega onde se quer chegar. Já pensou nisso? Dilemas, meus queridos, dilemas! A boa notícia é que enquanto estamos vivos, podemos aprender. Que siga o baile!

Até a próxima!
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Porque fazemos o que fazemos

Ela me escreveu contando que o marido, que até hoje nunca conseguiu entender sobre aquilo que lhe encanta, havia quebrado a luminária que ela comprou no final do ano passado. Ela estava triste e disse que gostaria de saber se algum dia eu faria uma luminária similar àquela. Apenas essa conversa, sem garantia de nada, foi suficiente para colocar na lista de tarefas uma nova luminária. Sendo mais sincera, foi suficiente para colocar essa tarefa na frente de outras tarefas. Sim, sem garantia de nada, afinal nada está garantido nessa vida que levamos, não é?

Mas por que um pedido sobre uma possibilidade no futuro tem tanto poder sobre mim? Porque ele traz uma conexão. Alguém em algum lugar entendeu o que eu faço e esse entendimento é que parece dar sentido a muita coisa.

Quem escolhe trilhar um caminho que não é convencional, rapidamente aprende que fará parte do trabalho ouvir uma boa cota de coisas nonsense, que vão desde a suposição de que você deveria arrumar um trabalho "de verdade" e fazer isso aí como um hobby até uma lista de adjetivos pejorativos sobre sua existência. Com tudo contra ou muito pouco a favor, a gente continua. E por que fazemos isso? Para mim, a resposta parece simples: porque é isso que somos. Essa é nossa verdade. Fazer outra coisa tornaria pessoas como eu muito infelizes, com almas miseráveis e, só aqui entre nós, o mundo não precisa de mais gente infeliz. A caminhada sempre será difícil, para todo mundo sem exceção, mas não precisa ser um completo desastre. Cada vez que alguém entende o que faço ou entende a minha motivação é para mim um momento onde tudo faz sentido. Por alguns minutos tudo valeu a pena, tudo se encaixa.

Essa é luminária "Ondas", versão 2.
Com a luz da vela as cores bailam fluidamente.
As miçangas, as pastilhas de vidro, o Vidrotil, os vidros de garrafa o stained glass...todos se unem nesse movimento sinuoso e infinito.

"Ondas" 2 e todas a suas faces.
Um poço dos desejos numa cascata de cores.

Eu faço o que faço porque acredito na transformação, acredito que pouquíssima coisa é realmente descartável e que muita, muita, muita coisa pode ser usada novamente. Eu faço o que faço porque acredito que não estamos aqui a passeio e cabe a nós mesmos buscar soluções para os problemas que nós mesmos criamos. Eu faço o que faço porque essa é a forma que eu vejo o mundo e não acredito ser possível viver os meus dias sob um olhar, uma intuição ou um amor que não sejam os meus próprios. Ainda que eu não saiba onde tudo isso vai dar, eu sinto que é nessa direção que eu devo caminhar. Quem sabe a gente não se encontra lá...seja lá onde for.

Até a próxima!
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