Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos com reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.
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Vaso Lâmpada

Quando passei a reutilizar Lâmpadas queimadas para fazer pequenos vasos, passei a receber diversas doações. Acredito que isso aconteça com a maioria de nós: sermos lembrados e presenteados pelas pessoas próximas com alguma coisa que nos seja útil, fortalecendo e celebrando vínculos. Foi assim que uma belíssima lâmpada redonda veio parar em minhas mãos.

Minha intenção quando faço vasos a partir de lâmpadas é sempre manter a parte da rosca. Para mim isso deixa a peça ainda mais charmosa. Neste trabalho o destino quis diferente. A rosca se soltou do vidro enquanto eu limpava a lâmpada após extrair o filamento. Uma pena! Mas longe de ser um impedimento para prosseguir o projeto.

Fiz um mosaico com muitos detalhes que, em alguns pontos, mais parece um bordado. Na base da lâmpada fixei uma pastilha Cristal de 5cmx5cm que lapidei até ficar redonda. Isso permite que o vaso permaneça em pé sem a necessidade de um suporte. Para o mosaico utilizei pérolas, hematita furta cor, corações de cristal, contas facetadas, pastilhas Cristal lisa e metalizada, canutilhos, miçangas e partes de bijuterias. As linhas horizontais são interrompidas tanto na parte da frente como na de trás por linhas curvas que emolduram peças focais. Isto traz movimento ao aspecto final do vaso. Para acabamento, utilizei rejunte preto que evidenciou as diferentes cores e acentuou o brilho de alguns materiais.

Ao final de 22 horas de trabalho, nasceu uma peça única e original, capaz de dar um toque de vida e beleza extra a uma decoração harmoniosa.








Esta peça está disponível para pronta entrega. Basta clicar em "loja online no Elo7" do lado direito da tela.

O Primo Feliz do Primo Tímido

Não sei é devido ao signo solar ou à natureza do meu ofício, mas me classifico como um ser narcisista. Olho aquilo que faço e me contento comigo mesma. A autocensura está mais ligada à antecipação da rejeição imaginária que o outro poderá lançar sobre mim. Então, quando estou eu sozinha comigo mesma é bem divertido. Faz parte desta diversão tentar fazer uma foto das mudanças que acontecem com o passar do tempo. Isso significa reeditar algo que já fiz. Funciona mais ou menos como pegar aquela receita de bolo que você já não faz há algum tempo e repetí-la. Ao fazer isso, dá para perceber se você melhorou seu dotes culinários, se o seu paladar mudou, se a receita vale mesmo a pena e até observar como você editou a sua memória.

A reedição da vez foi feita sobre o balão de tampinhas de garrafa. O primeiro que fiz foi em 2018. Na época anotei que deveria ter feito um fundo para ele. Hoje revendo o trabalho, acho que o fundo não faz falta alguma, mas não entendo por qual razão achei que precisava colar vidro transparente sobre vidro transparente no cesto do balão.

Para você que não viu, esse é o balão de 2018.

Para a edição de 2020, de cara abri mão do cesto para colocar flores. Na prática não foi tão prático (ainda que seja a coisa mais fofa dessa vida), pois a água secava rápido e as flores murchavam rápido, exigindo uma manutenção indesejada para algo que pendurei no alto. Sem falar que comecei a sentir muita pena das flores cortadas, mas isso é uma reflexão para um outro lugar.

Definidas as alterações que gostaria de fazer, mergulhei nas tampinhas. Aqui preciso destacar algo que acho muito bacana: a solidariedade de quem sabe que eu existo. Por saber que uso tampinhas de garrafa, o marido guarda para mim todas as que passam pela sua frente. Mas até aí, marido tem mais é que fazer isso mesmo. Porém recebi uma doação enorrrrrme do primo que mora muito, muito longe. Com ajudas aqui e ali, as tampinhas chegaram até mim e incrementaram meu arsenal.

Mão na massa! Passei o desenho para um pedaço de Wedi e comecei a trabalhar as tampinhas.

Quando vejo tampinhas fico pensando no sujeito que pensou em como colocar o logo da marca ali.


Tampinhas devidamente trabalhadas, passei para o cesto do balão. Há um bom tempo havia ganhado uma caixa de sucatas (a tal da solidariedade, lembra?) e nunca tinha usado nada dela...até esse dia. E como ela tinha (ainda tem) alternativas para oferecer!

Descasquei uns cabos, encaracolei uns perfis, separei umas roscas...

...posicionei uns terminais, brinquei com parafusos e dei um espirro de miçangas em cima. Pronto!


Fechei o acabamento com pastilhas e o Balão 2020 estava apto a voar. Foi fazer companhia para o parente de 2018. Foi o marido que saiu com essa história de que o primeiro balão é mais tímido e o segundo, mais feliz. Eu diria que o segundo balão talvez seja o primeiro, mas que saiu do armário e se assumiu plenamente como balão de tampinhas. Talvez venha daí a impressão de felicidade.


Agora ambos integram um projeto maior, que é o de cobrir as paredes deste apartamentinho com mosaico, porque mosaico é vida. Acredite.

Independente da Dominação Mundial Musiva, o exercício de observar as próprias mudanças é, além de interessante, de muita ajuda para assimilar que tudo muda o tempo todo. Quando nos surpreendemos com as mudanças a nossa volta, geralmente temos a impressão de que somos sempre os mesmos. Não somos. A cada tanto de tempo, a gente morre e renasce. Tudo é transitório.

Até a próxima (transição)!

A luminária e a flor de veludo.

À medida em que a gente vai vivendo a vida, vamos também encontrando algumas respostas. São poucas e raras. São valiosas e nunca (nunca!) são definitivas. O que fazer da vida sempre foi uma grande questão no meu caminho. Algumas vezes achei que tinha encontrado a resposta. Talvez até fosse a resposta...para aquele momento. Aí a gente muda, as pessoas à nossa volta mudam, o mundo muda e, ainda que a pergunta permaneça, a resposta vai mudando também. A resposta para minha pergunta existencial sempre busco dentro de mim e, meu Deus do céu!, tem coisa mais difícil do que esmiuçar nossas entranhas? Tento me guiar por aquela sensação que é forte e nítida, que me inunda de uma espécie de coragem e de um tipo de certeza que nasce na base da minha espinha. É uma sensação que faz o peito ficar macio e parece que o coração vira uma grande flor que desabrocha em pétalas de veludo perfumado. A sensação apenas me aponta o que é bom para mim, mas não me conta sobre os "como". Como fazer, como chegar lá...isso preciso descobrir por outros meios.

A minha seta aponta cada vez mais brilhante para fazer, seja o que for, reutilizando materiais. Por quê? Só para sentir a flor de veludo desabrochando no peito.

Resumindo o impasse filosófico: peguei garrafas e um pedaço de aglomerado e fiz uma luminária para velas.

Uma garrafa de vidro incolor é ideal para receber os outros vidros coloridos.

O pequeno recorte de aglomerado de madeira (era um quadro de avisos) recebe revestimento de azulejo, pastilhas de vidro, gemas de vidro, miçangas e pedaços de vidro verde de garrafa para se transformar na base da luminária, onde a vela será colocada.

No revestimento da luminária usei, além dos vidros de garrafa - tanto os verdes quanto o incolor que pintei - gemas de vidro, pastilhas de vidro...

...e miçangas. Muitas miçangas de vidro.

É assim que uma luminária é por dentro. Eu sonho em morar numa casinha onde o teto seja assim.

Quando você usa a parte central de uma garrafa, pode montar mini garrafas com o topo e a base que sobram. Aí é só revestir e elas ficam assim.

Essa é a hora da magia, onde me deixo levar pelas sombras coloridas.
É certeza que jamais desvendarei os mistérios da existência e para que essa sensação de pequenez diante do que não entendo não se agigante sobre minha alma, escolho não pensar muito sobre isso. Deixo-me guiar por essa bússola intuitiva, que aponta direções mas não aponta caminho ou ponto de chegada. Conformo-me em ser um átomo agitado e insignificante no planeta. Um átomo que ser deslumbra incansavelmente quando a luz transpassa um vidro colorido.

Até a próxima!
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Reflexo da Sorte

Há um caminhão, uma montanha, um mundo de coisas que fazemos sem pensar. Gestos, passos, atos, palavras e pensamentos que despejamos corpo a dentro e a fora, inconscientes da origem. Acontece, porém, que a vida é esse fluxo que nos empurra por alguns caminhos para que a gente preste mais atenção em detalhes importantes. Acho que é a energia amorosa da existência nos conduzindo para um aprendizado. Observe, reflita e aprenda. Como estamos sempre distraídos, não paramos para observar, não refletimos e não aprendemos. Por isso tomamos tanta porrada da vida, que consegue na violência do infortúnio captar nossa atenção.

Quantas crenças cultivamos e passamos adiante? E quantas delas envolvem medos? Pequenas frases ditas com propósito de proteção entregam pequenas ameaças: "se varrer o pé, não casa mais", " se comer na panela, chove no dia do casamento", "passar embaixo de escada dá azar", "espelho quebrado dá azar". Esses dizeres desvelam os valores em voga na época em que nasceram. Só que tudo é mudança, minha gente! E não é só isso. Tudo é contexto. Quantos de nós já varremos apressados os cacos do espelho que acabou de se partir, colocando-os no lixo e colocando esse lixo para fora de casa o quanto antes? Normalmente não se faz uma pausa para pensar que um espelho é algo frágil e, graças à gravidade, se cair é certeza que quebrará. Não fazemos isso. Queremos é nos livrar da maldição eminente do azar. Até que...você (no caso, eu) começa a fazer mosaicos. Corta para a cena seguinte: você (no caso, eu) está andando na rua e vê ao pé de uma árvore uma quantidade boa de espelho quebrado. O que você (no caso, eu) faz? Para quem faz mosaico, achar um espelho quebrado é como achar dinheiro no chão. Azar para uns, sorte para outros. O contexto mudou. Não há maldição, há alegria por encontrar material de graça. O trabalho a seguir foi feito justamente com espelhos que a rua me presenteou.

Além dos espelhos, também a base sobre a qual o mosaico foi feito, um tipo de Madeirite, é presente das ruas.


Tampas de garrafa sem desenhos também são ótimos elementos para composição.

Os materiais e suas cores foram escolhidos de forma a criar harmonia no local onde estes mosaicos ficarão.

Fazia um tempo que os espaços ao lado do porta-chaves ficavam olhando para mim com expressão suplicante. "Está mesmo muito pelado", pensei. Então fiz essas duas peças, repetindo elementos da Sardinha Mutante e do Porta-Chaves para que todos os mosaicos pareçam membros de uma mesma família.

É evidente que cada um é livre para ter suas crenças e essa liberdade é uma das coisas mais belas que há na vida. Mas acho que no momento, se o assunto for acreditar naquilo que não posso ver ou tocar, eu escolho acreditar que o bem e o mal estão dentro de nós e não em objetos. Também escolho acreditar que nós fazemos crescer uma ou outra força, dependendo da nossa sintonia. Para o bem de nossos corações, seria lindo se cada um pudesse estabelecer conexão com o seu melhor. Livre arbítrio e não medo. Pelo menos só por hoje.

Até a próxima!
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O Olho Periódico

Acontece assim: a cada tanto de tempo eu preciso fazer um Olho Grego. Esse precisar é meu mesmo. É como se a cada tanto viajado eu parasse para abastecer o carro, esticar as pernas, comer... É uma espécie de pausa onde retorno para um lugar familiar e seguro. E isso me faz bem.

Em algum momento já devo ter mencionado a atração que tenho por símbolos. Acho-os muito interessantes. Gosto de tentar entendê-los, de saber sua missão, de saber do poder que nós lhes conferimos. Claro que cada pessoa se relaciona de uma maneira com os símbolos. Eu os vejo como um lembrete de nossa própria força. Essa lembrança é de um valor inestimável quando tudo vai mal, quando nos sentimos incapazes de dar mais um passo adiante sem desabar. Nesse instante um símbolo pode nos lembrar que já passamos por isso outras vezes  e continuamos aqui, caminhando. Eles nos lembram que nosso chão é sólido e que nossas pernas tem a exata força que precisamos. Quando as sombras se avolumam sobre nossa alma fragilizada, um símbolo nos recorda que existe uma luz dentro de nós que nunca se apaga e que não há escuridão que não ceda à essa luz. Quando embaralhamos nossas pegadas e estamos perdidos, um símbolo é a seta que nos aponta a direção, que nos faz erguer a cabeça para avistar o destino. Quem faz somos nós. Mas o símbolo nos recorda de que podemos fazer.

O Olho Grego, segundo sua tradição, fala principalmente sobre proteção. Já tentei saber porque gosto tanto deste escudo, mas nunca cheguei até a resposta. Neste ponto acho que descobrir a resposta pouco importa. Se reproduzi-lo em mosaico me traz satisfação, que assim seja. Não fecharei as vias pelas quais a alegria queira me visitar, ainda que eu não saiba o motivo da visita.

Esse Olho Grego fiz sobre um prato de cerâmica, destes que são feitos para ficar sob vasos.

A parte de cerâmica pintei com esta tonalidade de dourado.

Utilizo o rejunte escuro com frequência para destacar as cores, fazendo-as brilhar.

O prato, por ser muito pesado, ganhou um suporte e assim pode ficar sobre aparadores e buffets.




Como acontece com certa frequência (comigo), o projeto inicial funcionou até um certo ponto. Então tudo empacou e não havia forma de ficar bom. Foram quatro tentativas de corta, cola e tira. Precisei de 48h de pausa e uma faxina em casa para achar o meio de fazer a coisa voltar a funcionar. Na ocasião eu coloquei a culpa nas obras de Hundertwasser que vi numa exposição em Lindau. Aquela beleza toda desorganizou meu cérebro e meu espírito. O que fazia sentido antes, não poderia mais ser. Por que isso acontece? Mais uma pergunta sem resposta para a minha coleção. Mesmo sem saber a causa, encontrei uma maneira de resolver o problema.

E assim vamos empacando, resolvendo, crendo, descrendo, entendendo, supondo e fazendo tudo o que dá, da melhor maneira que se sabe fazer.

Até a próxima! 
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A nova casa da Flor de Maio.

Primeiro é necessário que se diga que nas bandas de cá a Flor de Maio chama-se, numa tradução literal, "Cacto de Outono". Mas eu prefiro chamá-la de Flor de Novembro, que é quando ela dá suas flores. Depois de uma generosa florada no ano que passou, a plantinha foi dando sinais de que precisaria de mais espaço para estender suas asas, digo, raízes. Que fique muito claro uma coisa: pedido de planta a gente não nega. Jamais!

Na fase em que estou, não sei se consigo conceber um vaso sem usar tampas de garrafa. Acho que combinam muito. Ponto de partida estabelecido, notei que o potinho de restos tinha novamente chegado à tampa. Que seja, então, feita a união daquilo que sobrou ali com aquilo o que sobrou aqui. E que se celebre a fartura das sobras! Pois elas abundam e podem construir universos inteiros se assim nós quisermos.

Para quem chegou recentemente por aqui e se pergunta "tampinhas? Mas por que tampinhas?", guarde a resposta: elas são o máximo! Personalidade não lhes falta e merecem o devido destaque.

Animais, brasões, personagens típicos - uma pequena história é contada através do logotipo.
No restante do vaso, emoldurei as tampinhas e delimitei as bordas com uma cor neutra. Os espaços que sobraram foram preenchidos com os amados restos de cortes, aleatórios, coloridos e vivos!


E na cerâmica aparente o dourado que faz justiça à nobreza da Flor de Novembro.
Embaixo também vai o dourado. Não é por estar menos aparente que não vai receber essa mistura viciante de verniz e purpurina, não é mesmo?
O que mais me empolga nesse vaso, além da sua simplicidade, é o fato de utilizar tesselas "alternativas" entre muitas, muitas aspas, porque esta classificação diz muito mais respeito à forma como enxergamos as possibilidades do que aos materiais em si. Ver valor naquilo que comumente não é muito valorizado é, para mim, um tratado sobre a esperança. Esperança de que vá um pouco menos de coisas para o lixo ou para a reciclagem, esperança de ver outras formas de beleza passeando pelo mundo, esperança de encontrar diferentes formas de viver nossa vida gasta e exaurida. Talvez seja possível a gente mudar tudo (ou o que precisa ser mudado) apenas com aquilo que já está à nossa volta. Que coisa louca, não?

Ah! A planta! Mandou milhões de lembranças. Está felizona na casa nova!!!!


Até a próxima!
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A metade azul.

Primeiro nasceu a metade verde. Agora nasce a metade azul.

Enquanto eu estava submersa nessa onda de cor fria, achei graça dos meus vãos esforços em fazer crescer a pilha dos materiais de cores quentes. Nunca aconteceu. A pilha dos materiais azuis é o dobro das outras. Tenho uma lembrança de mim mesma ainda criança e muito consciente da minha predileção pelo azul. Hoje me considero arco-íris, mas admito essa atração azulácea. Já percebi que tenho um certo ciúme das "minhas cores". Outro dia estávamos na estrada, indo ainda mais para o sul e aparece uma placa dizendo que a Bavária é a "terra azul". Fiquei furiosa! Com que direito se auto intitulam azuis? Achei um absurdo. Também teve a vez que precisei trocar meus óculos de sol. Compramos os novos pela internet e ao experimentá-los percebi que o céu ficava muito mais azul. Que alegria! Ando por aí com o olhar altivo (escondido pelas lentes) de quem vê um céu azul que ninguém mais vê. É o meu céu azul. Sentimentos possessivos à parte, vamos a este mar de vidro tão rico e tão profundo...

Eis o topo da garrafa. Gemas de vidro (que amo tanto quanto chocolate), os botões doados na rua, as bijouterias aposentadas, as miçangas (amo tanto quanto café com canela), os espelhos, as pastilhas de vidro, as contas da pulseira nunca usada...

...as conchas também recolhidas das doações de rua - agora também azuis - ladeando as pedras naturais que ganhei da minha mãe para fazer o que quisesse, o vidro fusing...

O coração artesanal comprado na lojinha de vidros artesanais que encontramos em alguma viagem, as pastilhas redondas compradas com desconto porque eram refugo de produção...

...a suavidade da madrepérola que jurei nunca mais comprar por pena das ostras...


...a textura perfeita da concha ressaltada pelo azul que causou inveja nos materiais fabricados pelo homem...

...o caos organizado pela obsessão de detalhes, a conta solitária da época em que comprava potinhos com restos de contas de vidro na região da rua 25 de março só porque achava bonito e sem saber o que faria com aquilo...


...as fatias de rolha decoradas com o fumacê do pirógrafo e decorando as laterais...

...o meu mar azul de recolhimento, minha voz solitária e meu local seguro.

A alegria é (também) azul.

Mais um capítulo foi acrescentado na parede que conta uma história.
Acho que já devo ter comentado recentemente que há algum tempo não compro pastilhas. Entrei numa pira de usar o que tenho até o final. Mas se encontrar alguma coisa na rua vale também (domingo achamos um botão de vidro! :-) ). Isso porque tenho uma sensação constante de que a vida, frágil como só ela, pode se esvair a qualquer instante. Não faz sentido deixar prateleiras e mais prateleiras de material para trás. Quero que todos eles passem pelas minha mãos, pois eu os desejei profundamente no instante da compra. Nessa tentativa de viver a paixão um dia sonhada, percebi que com materiais muito simples dá para chegar em um visual rico, dentro do meu gosto e do meu conceito de riqueza visual. Isso, essa micro sensação de poder e completude, me causou alegria. Por esse momento, sou grata.

Até a próxima!
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Porque fazemos o que fazemos

Ela me escreveu contando que o marido, que até hoje nunca conseguiu entender sobre aquilo que lhe encanta, havia quebrado a luminária que ela comprou no final do ano passado. Ela estava triste e disse que gostaria de saber se algum dia eu faria uma luminária similar àquela. Apenas essa conversa, sem garantia de nada, foi suficiente para colocar na lista de tarefas uma nova luminária. Sendo mais sincera, foi suficiente para colocar essa tarefa na frente de outras tarefas. Sim, sem garantia de nada, afinal nada está garantido nessa vida que levamos, não é?

Mas por que um pedido sobre uma possibilidade no futuro tem tanto poder sobre mim? Porque ele traz uma conexão. Alguém em algum lugar entendeu o que eu faço e esse entendimento é que parece dar sentido a muita coisa.

Quem escolhe trilhar um caminho que não é convencional, rapidamente aprende que fará parte do trabalho ouvir uma boa cota de coisas nonsense, que vão desde a suposição de que você deveria arrumar um trabalho "de verdade" e fazer isso aí como um hobby até uma lista de adjetivos pejorativos sobre sua existência. Com tudo contra ou muito pouco a favor, a gente continua. E por que fazemos isso? Para mim, a resposta parece simples: porque é isso que somos. Essa é nossa verdade. Fazer outra coisa tornaria pessoas como eu muito infelizes, com almas miseráveis e, só aqui entre nós, o mundo não precisa de mais gente infeliz. A caminhada sempre será difícil, para todo mundo sem exceção, mas não precisa ser um completo desastre. Cada vez que alguém entende o que faço ou entende a minha motivação é para mim um momento onde tudo faz sentido. Por alguns minutos tudo valeu a pena, tudo se encaixa.

Essa é luminária "Ondas", versão 2.
Com a luz da vela as cores bailam fluidamente.
As miçangas, as pastilhas de vidro, o Vidrotil, os vidros de garrafa o stained glass...todos se unem nesse movimento sinuoso e infinito.

"Ondas" 2 e todas a suas faces.
Um poço dos desejos numa cascata de cores.

Eu faço o que faço porque acredito na transformação, acredito que pouquíssima coisa é realmente descartável e que muita, muita, muita coisa pode ser usada novamente. Eu faço o que faço porque acredito que não estamos aqui a passeio e cabe a nós mesmos buscar soluções para os problemas que nós mesmos criamos. Eu faço o que faço porque essa é a forma que eu vejo o mundo e não acredito ser possível viver os meus dias sob um olhar, uma intuição ou um amor que não sejam os meus próprios. Ainda que eu não saiba onde tudo isso vai dar, eu sinto que é nessa direção que eu devo caminhar. Quem sabe a gente não se encontra lá...seja lá onde for.

Até a próxima!
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A metade verde.

Todos nós que cultivamos muito gosto por alguma coisa nos deparamos com o dia em que nos falta espaço para enfileirar os objetos de nosso gosto. Aconteceu comigo. Não há mais espaço nas prateleiras para exibir minhas amadas garrafas com dignidade. Dizem que a necessidade é a mãe da invenção. No meu caso, eu adaptaria dizendo que a necessidade é o fermento da criatividade. Com os dedos coçando para fazer uma nova garrafa olhei para as paredes e achei que elas poderiam receber muito mais furos e pregos do que têm atualmente. Nada como um espaço em branco não é mesmo?

Uma vez decidido que penduraria a garrafa na parede, surgiram na minha mente algumas maneiras de fazer isso. Escolhi cortar a garrafa ao meio, longitudinalmente, e fixar essa metade em uma base. Escolhi usar Wedi para que o trabalho pronto ficasse um pouco mais leve. Decisões tomadas, garrafa cortada e colada, foi a hora de começar a revestir tudo. Mais uma vez a mente trouxe um tanto de possibilidades. Eu decidi revestir a garrafa primeiro e depois fazer o fundo, mergulhando num mar de tons de verde.


Teve pedra natural, espelhos, miçangas, pastilhas de vidro de vários tipos, gemas de vidro...

...sem falar no reaproveitamento de bijou (obrigada, mãe!) e nas conchas que pintei com tinta vitral.
Durante a elaboração do mosaico eu estava mais concentrada em fazer padrões e repetir elementos para não perder a harmonia. O resultado final foi uma garrafa de mosaico totalmente mimetizada com o fundo.
Onde começa e onde termina a garrafa?

Prova de que tem mesmo uma meia garrafa ali.
Para o acabamento das bordas, escolhi usar fatias de rolhas já que elas abundam neste pequeno lar. Uma vez fatiadas, usei um pirógrafo (quem lembra disso?) para criara detalhes na cortiça. Confesso que o cheiro de cortiça queimada rendeu uma "good trip" que me levou diretamente aos tempos de primário.
A Garrafa de Parede, no meio de suas irmãs de prateleira, ficou com cara de quadro de antepassado, aqueles com o retrato do tataravô do seu bisavô que foi príncipe em algum fim de mundo por aí.

Mas na parede ficou uma lindeza só. A outra metade também habitará essa mesma parede.
Esse trabalho trouxe algumas alegrias. A primeira foi conseguir cortar a garrafa (me senti muito vitoriosa!). A segunda foi a confecção do mosaico em si, que dá aquele prazerzinho no cérebro. A terceira foi o exercício das possibilidades. Isso é uma coisa que me encanta na existência. Há várias maneiras, muitas mesmo, de se fazer uma mesma coisa e chegar no mesmo resultado. Acho essa ideia maravilhosa. Há várias formas de se alimentar, várias formas de se vestir, várias formas de se movimentar, várias formas de amar, várias formas de se relacionar, várias formas de se expressas, várias formas de trabalhar, várias formas de rezar, várias formas de ajudar, várias formas de se alegrar, várias formas de curar e essa pluralidade é linda demais! Essas múltiplas opções falam de como somos seres diversificados e cheios de possibilidades, de como cada um de nós pode ficar tranquilo em ser aquilo que é, em externalizar sua Essência. O que faz a primavera ser tão linda é a profusão de cores, formas e aromas diferentes, não é? Então deixemos nosso espelho narcisista de lado por um instante para nos surpreendermos com tudo que há de diferente à nossa volta.

Até a próxima!
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