Dia 15 de setembro de 2023 deixei a "vida-não vida" para trás. A ansiedade batendo recordes. Chegamos dia 16, todos vivos e a salvo. Alívio.
Dia 30 de setembro de 2023 um reencontro aguardado transformou-se em despedida. Nos meses seguintes tentei equilibrar a readaptação do retorno com a readaptação da vida com um afeto a menos e um vazio a mais.
Dia 30 de novembro de 2023 uma nova despedida. Brutal. Esmagadora. Perco o chão e a companhia mais fiel que já conheci. Não há respostas para minhas perguntas. Estou também eu morta. Morta e culpada.
Dia 03 de janeiro de 2024 meus olhos (e todos os meus sentidos) encontram a cena mais triste que já testemunhei. Choque. Trauma. A tristeza vira um poço muito profundo e nesse momento eu duvidei que conseguisse refazer a minha vida. Duvidei que fosse possível criar novamente. A vida virou um lugar terrível na expectativa do próximo luto. Medo constante de trilhar os conhecidos passos de um novo funeral. As perguntas sem respostas tecem um manto de desconsolo que arrasto pelo chão.
Num dia reúno a energia para tentar. Meu olhar, que só consegue se fixar bem abaixo da linha do horizonte, vê as garrafas na prateleira mais baixa. Passo a mão por várias até escolher uma. Não lembro onde estão os puxadores de gaveta. Tudo foi organizado por mim, mas ainda não estou ali. Por fim encontro-os. Escolho um. Mais alguns dias passam com a garrafa e o puxador sobre a mesa. Ainda parece impossível porque dentro de mim só existe morte. Espero o tempo fazer a sua parte.
Desde o último mosaico que fiz, antes da mudança, 5 meses já se passaram. Marco na agenda um dia para (re)começar. Garrafas são o meu lugar seguro. Então começo. Meu ritmo é lento e não tenho muita certeza do que estou fazendo, mas isso não importa. Fazer é o que importa. Vou me reconectando com minhas ferramentas, com meus materiais e me conectando com o novo espaço que tenho agora.
Vivendo um dia por vez, fui dando vida à garrafa e, de certa forma, a mim mesma. Ficou pronta e senti satisfação. Um pingo de esperança também, apesar de estar brigada com este sentimento.
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Parte da frente. |
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Detalhe da tampa. |
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Parte de trás. |
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Lateral |
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Dri,filhota querida
ResponderExcluirVamos dividindo os momentos tristes e curtindo muito os bons momentos que nos alegra e nos fazem , mais felizes; estes EXISTEM, vamos crer e vamos em frente...
É isso mesmo. Sigamos em frente.
ExcluirBoa noite Adriana.
ResponderExcluirSenti cada palavra sua, você transformou sua dor em arte.
A arte é eterna ,a dor não.
Que frase mais deliciosa de se ler. Obrigada por isso!
ExcluirPrima querida! Não sei de todas as suas dores, nem decepções ou tristezas. Sei da sua força e delicadeza, demonstrada em muitas das suas artes. Quero aqui apenas dizer que, neste trabalho, vejo claramente uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que com certeza estava ao seu lado não só no momento da criação mas em todos os outros e, ao te carregar no colo, te inspirou a representá-la de forma tão forte e representativa. Sinta-se abraçada por mim e por Ela! Deus te abençoe e capacite sua arte. Bjs
ResponderExcluirUau! Que lindo! Muito obrigada pelas suas palavras! O afeto chegou aqui.
ExcluirVou te contar uma coisa interessante: você é a terceira pessoa que me diz ver a imagem de Nossa Senhora nesta garrafa. Tem uma bonita sintonia acontecendo...
Um grande beijo, querida!
Sua postagem é uma obra-prima brilhante! Esclarecedora, bem articulada e verdadeiramente valiosa. Obrigado por compartilhar sua perspectiva.
ResponderExcluirtoo good
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