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Aqui você encontra vários tipos de textos. São reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

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A remissão dos nossos pecados.

    No final do dia 25 tenho a sensação de que fui atingida por um furacão. Eu pude vê-lo chegando e permaneci no lugar sem poder me esconder. Então ele passa. Mexe com toda a ordem. O que está guardado lá no alto do armário é posto em uso e o que é usado no cotidiano fica então soterrado. Durante a hecatombe não dá para pensar com clareza, agir com precisão ou sentir com sutileza. É o momento no qual a única hipótese é a entrega. Impossível fingir que nada acontece. Impossível dizer que a ferida sangrando não está exposta. Mas tudo passa. Tudo mesmo! O que é ruim, o que é bom e o que nem foi devidamente notado. Então eu olho para trás. Não consigo ver muita coisa porque o cansaço ainda pesa, mas tenho nas mãos três pérolas que permaneceram após a tempestade: o canto singelo e sincero, a cumplicidade sentida e silenciosa e a gratidão humilde e espontânea. Acredito que são os presentes que recebi neste ano e o resto coloco junto ao lixo reciclável.
    Saímos, então, para ver quem ainda está vivo e quem não conseguiu passar por mais um Natal. A cidade está deitada na rede, balançando bem devagar, deixando a inércia ditar o ritmo. Existe silêncio! Existe calma! Até ela, esta cidade promíscua e dissimulada, deixou de representar seu papel. Tudo está fechado. Somente algumas poucas farmácias se apiedaram dos excessos dos outros e abriram suas portas. Tudo o mais está fechado. No dia 25 não há nada que se diga "24 horas". Só por um dia esta cidade de beleza e identidade perdidas reconhece que também exagerou, passou dos limites, oprimiu, sufocou. Neste dia ela pede desculpas. Muito sem jeito, é verdade. Mas eu as aceito. Entendo que ela é também vítima nesta história e sofre em dobro: pelas ecolhas que fez e pelas que fizemos por ela. Neste dia ela tem piedade de nós e nós dela. Compreendemos nossas fraquezas. Por hora isto basta. Sabemos que tudo voltará paulatinamente ao caos, mas por alguns segundos nos reconhecemos e relembramos que ela me deixava andar de bicicleta no seu marco central e que haviam luzes de todas as cores, e que não piscavam, em suas árvores. Sabemos, eu e ela, que nada disso voltará, mas naqueles instantes ficamos satisfeitas em ter memórias mais nobres do que nossos dias atuais. Eu a perdôo ao menos por um dia. Ela não me insulta ao menos por um dia. Ambas passamos pelo mesmo furacão e sofremos do mesmo mal. Amanhã ela nem lembrará mais que eu existo e eu voltarei a falar mal dela pela mais pura dor de cotovelo.


Se fizer, seja sincero.

    Quem me conhece bem sabe que este momento viria com certeza. Eu teria que tocar no assunto. Minha aversão ao Natal é velha conhecida de todos e já virei motivo de piada. A parte boa é que hoje eu não desejo levar ninguém para o inferno junto comigo graças a um estoque de glicose cuidadosamente providenciado pelo meu devotado marido (reconheça: somos reféns do hormônios). Então vamos direto ao que interessa: seja no Natal ou em qualquer época do ano, coloque intenção, desejo e sentimento no que fizer. Falamos deste assunto agora porque a data nos impele a isso. Somos todos praticamente obrigados a confraternizar, ser felizes, comilões, gastões e beberrões. Aceita uma sugestão? Não caia nessa grande furada! Parece que só se alcança o fundo de um poço fazendo tudo isso. Seja o que for que te leve a comemorar a data, seja honesto. Primeiro com você. Se não há um desejo muito forte e prazeroso que te guie nas suas atividades desta época, não as faça. Acredite, é melhor assim. 
    Não sei se já aconteceu com você, mas eu já me vi numa comemoração do meu aniversário onde ninguém estava realmente com vontade de fazer aquilo. Era a manjada festa "surpresa" e tinha todos os itens "necessários": bexigas coloridas, bolo, chapéu combinado com o pratinho, presentes. E tinha uma reunião de pessoas onde uma estava com uma pressa danada de ir embora, a outra comprou o bolo porque foi obrigada, a outra deu presente para não ficar chato...um horror! Acho que se me chamassem em um canto e simplesmente dissessem "olha, Adriana, você , além de chata,  sifilítica, paranóica, fedorenta e rabujenta é uma grande filha da puta" eu sairia de lá me sentindo bem melhor. Entende? Por isso, não se reúna com ninguém a não ser que você REALMENTE sinta algo positivo em relação àquela pessoa e à ocasião. Apenas presenteie se for espontâneo. Fazendo isso você irá se sentir bem e irá espalhar seus bons e verdadeiros intentos. Só assim alguma mágica poderá acontecer.
    Examine se não está agindo de forma mecânica e puramente social. Tudo bem eleger uma época para agradecer o porteiro do prédio por tudo que ele fez por você ao longo do ano, mas que isso não te impeça de demonstrar o mesmo em outras ocasiões. Fará uma diferença muito maior. Seguir o protocolo social não vai garantir seu terreninho no céu. Então pegue a onda de amor que te invade nesta época e distribua-a ao longo do ano. Será mais saudável e equilibrado. Sobretudo, será mais sincero. Não quer que passe em branco? Ligue para o amigo ao invés de mandar um e-mail ou SMS para toda a lista de contatos. Não tem tempo? Então faça depois ou antes, mas faça de verdade. Não tente encontrar uma tradução desta época em objetos (comida, bebida, presente). Não estipule um indexador para o seu contentamento. Algo como - só é Natal se tiver rosca de frutas feita pela tia Jupira. Só que a coitada está com 96 anos e uma baita artrose nas mãos. Rompa com as falsas tradições. Faça você a bendita rosca para a tia velhinha. Lembre a todos que o que nos une é o respeito, a admiração e o afeto mútuos! Não é o tender (que Deus guarde sua alma e tenha larga piedade dos que ainda insistem em comê-lo!) ou as taças de cristal. O que quer que você escolha comemorar nesta época, seja o nascimento de Jesus, seja a união da sua família  ou qualquer outra coisa, só o faça se tiver alegria sincera. Você já está crescido o suficiente para saber que o Papai Noel não vai ficar bravo. Ao invés do perfume genérico, da roupa que será trocada dia 26 ou do sapato da liquidação (que não dá para trocar), simplesmente dê aquele abraço que ficou devendo todo este tempo naquela pessoa que esteve presente ao seu lado o ano todo. Isso sim é Natal. E sincero.


A qual espécie pertencemos?

    Não conhceço todo o planeta, nem todas as diferentes culturas existentes e tampouco sou especialista em sociologia e antropologia. Entretanto acho que talvez não seja adequado ainda classificar seres como nós de humanos, pois toda vez que utilizamos o termo existe uma conotação positiva. Você diz que alguém é muito humano quando quer dizer que aquela pessoa se importa com as questões que a rodeia, não é indiferente aos problemas do mundo e não se esquiva da responsabilidade que tem na solução dos mesmos problemas. Então realmente precisamos de um novo termo.
    Pense, por favor, em um termo que possa definir um ser que acredita ser superior não só às demais espécies com as quais divide a existência, mas superior aos seus iguais. Pense numa definição precisa para um ser que encontra prazer no sofrimento do seu semelhante, que cultiva fascínio em ver desgraças, catástrofes, acidentes e acha tanta graça em ver pessoas se ferindo que produz programas, filmes e cria esportes só para mostrar isso. Defina a espécie que é capaz de destruir tudo ao seu redor ainda que isso signifique a sua própria destruição.
    Vivemos um grande dilema de falta de identidade pois o que vivenciamos está em desacordo com a nossa natureza. E este fingimento parece ser infinito! Somos seres que arrumam justificativas para tudo com o intuito único de permanecer na comodidade e no egoísmo. Qual outra espécie faz isso? Este comportamento é atestado de inteligência? Sim, porque sempre há o sujeito que dirá que os "humanos" são superiores graças à sua capacidade de raciocínio. Então tenho uma notícia para você, pessoa graduada, pós-graduada, mestre, doutor, fluente em cinco idiomas, com um curriculum resumido de dez páginas: se fosse deixado na selva, é bem provável que morresse. Já o nosso irmão gorila, não. Isso significa que a validade do conhecimento é relativa. A sua especialização em liderança e o seu MBA (aquele...) em marketing corporativo não lhe ajudariam a encontrar alimento ou a ficar a salvo dos seus predadores quando estivesse na selva. Este conhecimento acumulado só lhe serve num meio muito específico. E nem precisa ir tão longe. Não lhe torna capaz de perceber que seu filho ficou magoado quando não recebeu seu apoio na apresentação de fim de ano da escola. Se a nossa capacidade de armazenar novos conhecimentos não nos torna invulneráveis, onde exatamente está a superioridade? Na cidade você pode ter vantagem sobre o gorila, mas na selva é ele quem leva a melhor. Então é uma questão de ser diferente.
    De onde vem esta arrogância inerente à nossa espécie? Eu acredito que seja uma reação imediata à percepção da própria vulnerabilidade e da incapacidade de conviver. Sim, não somos capazes de estabelecer um convívio equilibrado com os demais seres da mesma espécie e muito menos com os de outras espécies. Atacamos para nos defender. De novo, isso não me parece muito inteligente. Sempre imaginei que nossa capacidade de raciocínio nos tivesse sido dada para que aprendêssemos sobre nós mesmos, para que entendêssemos as emoções que sentimos, das mais punjentes às mais sutis, para que fôssemos capazes de entender o que não é dito e de dizer apenas com o olhar, para que pudéssemos nos colocar no lugar do outro e assim compreendê-lo melhor, amá-lo apesar de tudo e, principalmente, perdoá-lo. Para que pudéssemos perceber nossos erros, corrigí-los, pedir desculpas e tentar melhorar sempre. Para que buscássemos a evolução.
    Com toda esta "superioridade" de raciocínio que temos, ainda não consigo entender porque fazemos o que fazemos com nós mesmos e com tudo à nossa volta. Enquanto não estivermos dispostos a perceber que somos apenas diferentes e não melhores não enxergo esperança para esta espécie que ainda chamam de humana.

Qual é o seu maior pecado?

    Na semana passada eu lia o blog do Alexandre Gomes, locutor da Kiss FM, sobre os sete pecados capitais. Ele elegia o orgulho como o pior de todos. Exemplificou com um relato próprio onde não aceitou o pedido de desculpas de um ex-patrão, e desperdiçou a oportunidade de voltar a um bom emprego. Ele dizia que por orgulho hoje não gozava de uma situação profissional melhor. Não acho que seja possível prever o passado com tamanha exatidão, ainda mais porque o considero um exelente locutor, mas fiquei absorta neste assunto.
Durante muito tempo, nas tentativas de entender pecado, acreditava que poderia encontrar a definição em qualquer ato que prejudique outra pessoa e por um longo período isto me serviu. Mas de uns anos para cá entendo que pecado é algo mais específico e acredito que seja qualquer ato que prejudique a si mesmo. Nós somos os maiores perdedores quando nos deixamos levar. Se o orgulho é o pior de todos, não sei. Reconheço que suas consequências são realmente nefastas. Quantas injustiças foram perpetuadas por alguém que, por orgulho, não foi capaz de assumir o próprio erro. E quantas mágoas ficaram cravadas em diversos peitos pela falta de um pedido de desculpas? Contudo nos últimos três anos tenho pensado que a preguiça é que é o fim da picada. Vai contra o sentido de nossa existência. Comecei a pensar assim quando minha sogra sofreu uma infecção generalizada muito, muito grave. Depois de voltar do coma ela não tinha mais movimento algum no corpo e não conseguia falar devido à traqueostomia que sofrera. Ela estava encarcerada no próprio corpo. Via e ouvia tudo mas não conseguia se comunicar. Naqueles dias vi a definição de angústia nos seus olhos.
    Com o tratamento, havia o prognóstico de que recuperasse suas funções. Eu ficava me imaginando no lugar dela. Aos 72 anos teve que reunir força, determinação e coragem não sei de onde para enfrentar longos e doloridos meses de fisioterapia e fonoterapia com o objetivo de viver e passar mais um tempo junto daqueles que ama. Enquanto ela estava totalmente dependente e incapaz, mas lutando com todas as forças, eu sentia preguiça de colocar a roupa na máquina de lavar. Senti-me o pior ser do planeta. Pude ter a noção exata da minha futilidade, da minha falta de maturidade e do meu desamor. Senti muita vergonha. Se acontecimentos extremos têm um propósito, aquele significou um ponto de virada para mim. Assumi um compromisso de jamais deixar de fazer alguma coisa, qualquer coisa, por sentir preguiça. Sabe o famoso "ah, não, está muito calor/ frio/ cedo/ tarde/ úmido/ seco/ cheio/ vazio/ etc. para fazer isso"? Não existe mais. Não admito. É um despautério. É como se Deus te desse uma Ferrari para que você corra e salve a humanidade. Mas tem que subir cem degraus para buscar a chave. Então você, por preguiça, vai de Gurgel mesmo porque a chave está ali do lado e, obviamente, a humanidade se extingue. É um desperdício tremendo. Desperdício de tempo, de conteúdo, de capacidade e de vida. Tudo isso é muito valioso para ser utilizado de forma leviana. É um pecado não utilizar adequadamente o que lhe é dado e quem perde é você. Quem vai ter que lidar com as consequências será você e não adianta reclamar depois.
    Claro que não estamos sozinhos. Somos seres sociais e, portanto, vivemos em coletividade. Assim quando você se prejudica afeta quem está ao seu lado. É assim que a consequência do seu pecado chega ao outro. Então no fim tudo se resume a falta de amor.  Você não se gosta e muito menos de quem vive ao seu redor. Pecado é falta de amor. Esta definição é do meu pai e eu precisei viver um punhado de coisas para entender de maneira ampla e profunda seu significado. E você, o que entende por pecado?


Faz assim, filinha....

    Costumo comprar o material para o meu trabalho em uma pequena loja familiar. Lá revezam-se no antendimento o filho, o pai e a mãe, sendo estes dois já com bastante idade. Desde a primeira vez que fui lá, chamou a minha atenção o fato dos proprietários fazerem tudo por você. Além da simpatia e da prestatividade eles têm a preocupação de ensinar tudo o que já sabem. Às vezes observo alguns clientes que não querem muita conversa e já cortam logo as explicações com um "ah, isso eu já sei" ou "nem precisa falar porque eu já fiz isso várias vezes".
    Eu, geralmente, sinto simpatia por pessoas idosas. É alguma coisa no olhar, talvez. Sempre gasto alguns minutos pensando em tudo o que já viveram e me parece que sempre transmitem algo além do que estão dizendo. Por esta razão gosto de ouvi-las falar. Então procuro sempre ir à lojinha sem pressa. Numa das últimas vezes eu precisava comprar uma placa de metal para fazer um número de residência para uns amigos. Quem me atendia era a mãe. Solícita como sempre perguntou: "o que você quer fazer, minha linda?" Contei e ela prontamente pegou a peça de tamanho adequado e se pôs a explicar: "você faz assim, filinha, põe o 1 aqui ,depois o 1, depois o 1, nossa! São três 1! Você viu Luizinho (marido)? Ela vai fazer três 1 seguidos! Então, filinha, que número que é mesmo?" E contiuou explicando com toda a calma do mundo como eu deveria dispor os números na placa. Achei aquilo de uma candura incrível! A preocupação dela era desmistificar aquele trabalho para que me fosse prazeiroso e descomplicado.  
    Pela minha disposição em escutar pude aprender com eles outras formas de fazer o que eu já sabia. Numa destas vezes a mesma mãe concluiu categórica: "sabe, filinha, a genta dá estas dicas porque tem pessoa que não pensa". E não é que ela está coberta de razão? 
    Lembro de um excelente professor na faculdade que dizia que se você não passar adiante o conhecimento que tem, não sairá do lugar. Isso é verdade em vários aspectos que vão muito além de não mudar de cargo dentro de uma empresa. Acontece uma estagnação mental e energética quando você não compartilha o que sabe. E pior, não abre espaço para o novo. Quem já ensinou qualquer coisa a alguém deve ter perecebido que acabou aprendendo muito mais. No momento em que você transmite o que sabe acaba por perceber uma gama de coisas inéditas! Também pode ver o assunto com os olhos do outro e novas descobertas são feitas. A partir daí nada mais é óbvio e as possibilidades se tornam infinitas.
    Acredito que nosso conhecimento é nosso único patrimônio. É a única coisa que é sua e ninguém tasca. O único valor que você vai levar para o além. É o elemento capaz de promover trasformações imensas. A forma mais eficaz de aumentá-lo é compartilhando-o. Quem não está aberto para ensinar, para dividir, também não está totalmente aberto para aprender e jamais sentirá o prazer de ampliar os horizontes de outra pessoa além dos seus próprios.
    Minha mais sincera homenagem a todos os professores que conheço. Graduados ou não, vocês são o máximo!





(Peça confeccionada pela querida Débora após a sua primeira aula)

Mais para dentro, por favor.

    Gastamos um tempo considerável de nossas vidas em busca de sinais. A todo momento queremos ter certeza. Tentamos encontrar algo que nos diga se estamos no caminho certo, se nossas escolhas são as melhores, se o objetivo será alcançado. A ironia de sempre é que isto não é possível. Simplesmente porque tudo é relativo. O bom para você não é para mim. O que é sucesso para mim não é para você. O seu conceito de felicidade não tem nada em comum com o que eu penso sobre o assunto. Se o outro não compartilha do nosso conceito porque insistimos em perguntar? Por que precisamos ter certeza de alguma coisa? Queremos provar algo a alguém? Por quê?

Advertência aos adoradores de MBA e àqueles que acreditam que lugar de jacaré é no bolso da camisa e não na água: não continue a leitura! Vá antecipar suas compras de Natal.

    Uma vez ouvi algo que me fez pensar. Meu interlocutor discorria sobre  os mecanismos emocionais do ser humano e suas inerentes mazelas. Traduzindo seus jargões, disse que "o que mata o ser humano é o sentimento". Foi muito preciso. Longe de significar que não devemos sentir. Mas pelo emocional desconsideramos totalmente a razão (sem falar no bom-senso, esse amigo perdido). Então saímos por aí cometendo equívocos que poderiam ser evitados com uma dose de razão+bom-senso.
    Creio que vivamos demasiadamente para fora. Fazemos o que o mundo diz que deve ser feito, dizemos o que os outros querem ouvir e nos distanciamos paulatinamente de nossa Mônada. Acumulamos conhecimentos e só os utilizamos  pelo lado externo. Chega então o dia no qual é inevitável fazer a pergunta "quem sou eu, afinal?". E aí começa uma nova corrida em busca dos sinais. Por que diabos achamos que nossas respostas estão do lado de fora? Talvez seja cultural o aprendizado de jamais olhar para dentro, não sei.
    Como não acredito que ninguém fique mais forte vivendo na superfície, diria que o mínimo a fazer é reconhecer nossa natureza. Somos seres frágeis, falíveis, muito sensíveis e suscetíveis às variações climáticas (ou vai me dizer que você não se sente novo em folha hoje, com este sol maravilhoso?). Não obstante precisamos de nosso iguais para nos sentirmos reconfortados (talvez comece aí a bagunça...). A partir destes fatos, que são irrevogáveis, faça um mergulho em si. Observe-se. No primeiro momento suas impressões serão apenas densas. Algo como: "hoje minha perna dói mais do que ontem" ou  "quando como menos doces me sinto melhor". E lentamente, com a persistência do exercício, as percepções passam a ser mais sutis. Você perceberá que ser gentil com os demais pode lhe trazer satisfação. Um contentamento singular, impossível de ser encontrado em outra atividade. Surpreenderá a si contemplando o movimento que as folhas da árvores fazem acompanhando o vento e perceberá que isto, para você, é um alimento. Persista! Deleite-se com suas descobertas e brinde o mundo com o seu novo eu recém-emancipado. Reconheça que as respostas que procurávamos antes (aquelas do início) são coisas menores, que os impulsos que nos levam a querer saber de tudo não são legítimos. Perceba que suas fraquezas só serão fraquezas se você não estiver disposto a lidar com elas.
    Depois que iniciar este processo será impossível ficar indiferente à essência daquele que está ao nosso lado. É com isto que devemos nos conectar e compartilhar aquilo que somos (e não o que temos.) Dessa comunhão nasce a evolução. A sua felicidade é a minha. O meu prazer é o seu pois todos estamos interligados e fazemos parte de algo muito maior, grandioso demais para se ter certeza.


Coragem para mudar - um compromisso de amor.

    Quando estou trabalhando, minha mente fica em ebulição. Como uma micareta, mas obviamente com muito mais charme, elegância e glamour. É o momento onde surgem novas idéias para novas peças ,  é quando vem a solução para uma questão que sugiu há dez dias, é quando reparo em algo em que eu nunca tinha posto a atenção, é quando sinto muito amor pela existência, é quando canto junto com o rádio sem ter pena de quem está trabalhando no térreo. Seria o equivalente do que ocorre com muitas pessoas quando estão no banheiro realizando a etapa final da sua digestão (com a diferença de que o meu produto final, neste caso, é mais bonito e não tem cheiro - espero!).
    Em um dia desses eu estava reparando na relação do indivíduo com o seu trabalho. Isto porque naquele instante eu havia sido recém invadida por um contentamento indescritível. No minuto seguinte lembrei de pessoas com as quais travei contato quando era secretária. Eram indivíduos que estavam ali para serem periciados como parte do processo trabalhista que moviam contra as empresas nas quais haviam trabalhado. Na maioria esmagadora das vezes tratava-se de pessoas com muita mágoa, uma mágoa generalizada, uma mágoa da vida, do mundo, de tudo. Se conheciam como vítimas e se mostravam completamente incapazes. Eu achava aquilo tudo muito triste, um desperdício. Elas eram realmente incapazes, não para o trabalho, mas para amar a si mesmas. Esquivavam-se de qualquer responsabilidade sobre a própria existência. Tudo que lhes sucedia era culpa do outro. Eram incapazes de perceber que o dinheiro de uma possível vitória judicial poderia comprar algum bem, mas jamais lhes traria a auto-estima de que realmente precisavam e que de fato poderia mudar suas vidas. Assim preferiam reclamar a efetuar uma mudança. Era ruim o trabalho, aquele lugar lhes deixava doente, mas não procuravam outro!  Estas pessoas permaneciam e padeciam. Faziam a escolha de não escolher. Era a única alternativa que conheciam.
    Acredito que todos temos um problema quase crônico de auto-valorização oriundo lá no ano de 1.500. Mas acredito também que todos sabemos no íntimo que o poder para a mudança está conosco. Contudo sucumbimos à falta de coragem e pensamos que a "segurança" da miséria de nossas almas vale mais do que  arriscar, tentar, melhorar e conseguir. Ou partimos para um oposto desequilibrado onde a necessidade de glorificar incessante e descabidamente nossos feitos  é  o  grito punjente para a auto-afirmação. É a esperança vã de que agindo assim, certamente alguém vai gostar de nós porque nós mesmos não conseguimos fazer isto.
     Então de repente me perguntei se os artesãos de 3.000 anos atrás que decoravam templos, ruas, balnerários e casas com Mosaicos tão sublimes também teriam este comportamento. Será que se sentiam usados e abusados? Será que nutriam uma raiva em relação a tudo o que estivesse onde eles gostariam de estar? Creio que a resposta seja não. Alguém que não se gosta, que não se aceita plenamente e que não entende que pode promover seu próprio bem-estar não é capaz de produzir algo tão belo e inebriante. É fato. A cultura oriental diz que aquilo que não existe dentro de você não poderá ser encotrado fora...é fato.
    Assumir responsabilidades traz crescimento. O crescimento traz maturidade e esta traz satisfação, prazer, contentamento. O medo de mudar não pode ser um obstáculo que nos impeça da trihar este caminho. Cada um pode ter seus próprios demônios, mas se cada indivíduo buscar a auto-superação, o mundo será, no mínimo, um lugar mais belo para se viver. É um compromisso de amor para consigo e com o próximo.

Aprendendo a lição.

    Depois de fazer a primeira peça em Mosaico passei a sentir um aperto no peito. Algo muito semelhante àquele vazio que fica depois de assistir ao show da sua banda favorita. Era saudade. Como sempre, demoro um certo tempo (que é um pouco maior do que o tempo que as outras pessoas levam) para perbecer o óbvio: eu poderia começar uma nova peça. Eureka! E lá fui eu fazer algo que desta vez não era para dar de presente. Não tinha nenhuma finalidade a não ser a de me trazer satisfação.
    Como não estava tensa pensando "vai dar certo?", "será que vai ficar bom?", "será que vão gostar?" pude prestar mais atenção em outros detalhes. Por exemplo, achei incrível sempre existir um pedacinho de pastilha que se encaixava exatamente em algum lugar. Muitas vezes eu fazia o corte para preencher um espaço, mas na verdade completava outro para o qual não estava olhando naquele momento. Aquilo foi de uma poesia sem tamanho! Era a metáfora da vida sendo reproduzida em escala microcósmica. Isto é uma das coisas que mais me fascina nesta arte. Sempre há uma mensagem subliminar. Se você acha exagero, repare: cada caquinho isolado não quer dizer muita coisa. Nem uma forma regular ele tem, mas vários deles juntos são capazes de compor algo inebriante. Seria o popularesco "a união faz a força". Talvez seja por isso que cada trabalho venha acompanhado de inegável bem-estar. É repetir uma lição várias vezes, mas não as intermináveis listas de exercícios de álgebra linear. É relembrar as verdades que dão sentido à existência, as lições de vida, as mensagens que escutamos da avó que já viveu de tudo, do amigo quando nos acolhe com amor, da mãe que tem certeza que somos especiais. E tudo faz realmente muito sentido ou alguém discorda que todos nós temos um lugar a ocupar, uma função indispensável a executar e que isoladamente pode parecer não ter sentido, mas quando se olha o todo, tudo se encaixa com uma perfeição que só pode ser Divina.

Processo curativo

       Há vários anos li uma obra intitulada "Médico de homens e de almas". Tratava-se da vida de São Lucas. Certamente uma biografia que desagrada aos católicos ortodoxos, mas que chamou muito a minha atenção por expor um conflito humano imenso. Lucano (nome de São Lucas antes de ser santo) era possuidor do dom da cura. Um dom divino que recusava-se a aceitar. Como médico, buscava causas e consequências na Ciência e não conseguia classificar fatos que fugissem a esta linha lógica, ainda mais se era ele o causador de tais fatos. Sua dúvida, sua incerteza, sua raiva e toda sorte dos sentimentos humanos com toda a intensidade que lhes é pertinente lhe dilaceravam diariamente até que ele considerou uma outra possibilidade e paulatinamente a existência passou a fazer mais sentido.
      Gosto de pensar que um santo foi, antes de ser santo, uma pessoa comum, pensante, que ama, que odeia, que ri e chora, capaz de aprender a partir das próprias experiências. Não que eu vislumbre nisso a possibilidade da minha canonização (socorro!), mas acredito que nossa face mais humana e menos divina é primordial ao nosso crescimento e este processo me encanta. No contexto social no qual estamos hoje, onde um resfriado é um abominável sinal de fraqueza interna, decidi que já era tempo de cometer alguns erros, novos erros, mas ir em outra direção. Para tudo fazer muito mais sentido e encontrar uma cadência, decidi seguir o exemplo de Lucano e deixar a minha essência vir à tona. Mesmo sem ter uma explicação erudita/lógica para tudo que sinto, decidi assumir as consequências de perseguir sonhos (aqueles guardados, socados, amassados, censurados, rejeitados, sufocados). Sem a mínima certeza do que está por vir, decidi sair do "quase". Se der certo o mundo em que eu e você vivemos será um lugar um pouco melhor, pois pessoas satisfeitas constroem um ambiente mais sadio ao seu redor.
       Convido você a fazer o mesmo, a ser quem é, a vivenciar a sua essência (com responsabilidade). Não vou esconder que não é tão fácil quanto falar e que também dói, mas é bom!