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O friso de mosaio na Coluna da Vitória.

Se tem uma coisa boa que acontece quando vamos morar em outro lugar é esse clima de descoberta que se tem a cada dia. É impressionante como ficamos mais desbravadores e receptivos. Fazemos coisas que não fazíamos ou não faríamos na terra natal, pelas mais diversas razões, e isso inclui "turistar" sempre que dá.

Num sábado gelado, carrancudo e com muito vento saímos para conhecer a Coluna da Vitória que aqui tem o nome de Siegessäule. Tinha vontade de conhecê-la desde que assisti ao filme "Tão perto tão longe", de 1993, continuação do filme "Asas do desejo" de 1987, que fala de anjos que observam as pessoas na cidade de Berlim então unificada. Nas duas visitas anteriores à cidade, esse passeio não entrou no roteiro. Agora, com toda a vida pela frente, fomos a ela.

A Siegessäule está localizada no Tiergarten, um graaaaaande parque de Berlim, mas este é seu segundo endereço. O monumento foi inaugurado em 1873 em memória das vitórias prussianas sobre a Dinamarca, a Áustria e a França e estava instalado em frente ao Reichstag, o edifício do parlamento alemão. A mudança aconteceu em 1938 para que se cumprisse o novo planejamento urbano nazista.

A coluna tem 66,89 metros de altura e canos de canhões prussianos incorporados ao seu redor. No topo, a estátua da deusa Vitória (mitologia romana), com 5 metros de altura, brilha seu dourado impecável desde a restauração de 2011. Para chegar até o topo você precisa vencer os 285 degraus de uma escadinha estreita. Mas a escalada é recompensada pela vista.
O que se vê em dourado circundando a coluna são os canos de canhão.

A deusa Vitória.


Vista do alto do monumento.
A coluna foi desenhada por Heinrich Strack e a estátua foi desenhada por Friedrich Drake. O que tem lá e eu não sabia é um friso de mosaico de Autoria de Anton Von Werner. Ele foi um pintor da Prússia que nasceu em 1843 em Frankfurt an der Oder (fronteira com a Polônia) e morreu em 1915 em Berlim. Werner gozou do seu maior prestígio durante o reinado de Ghilherme II. Suas obras caracterizam-se pela glorificação do passado alemão. O painel de mosaico da Coluna da Vitória descreve a fundação do Império Alemão em 1871, com destaque para as cenas de batalha. Contam que Werner sentiu-se muito satisfeito em idealizar o painel de mosaico que "não empalideceria com o tempo, mas duraria para a eternidade". Ele tinha razão. O mosaico já sobreviveu a duas guerras e desde 2010 vem sendo restaurado.

(clique nas imagens para vê-las em tamanho maior)
 

Reparou nas expressões faciais? Se não reparou, volte e comece a ver de novo.

Reparou nos cavalos?


Os detalhes das roupas são de enlouquecer.






 Felizmente este mosaico tinha assinatura:
Aí está escrito que o mosaico foi feito em 1873 por Salviati, de Veneza, e restaurado em 1939 (quando o monumento foi mudado de lugar). Depois tem o nome August Wagner...que não descobri quem é. Jogando esse nome no Google, há uma boa quantidade de resultados que tratam de um Ernst August Wagner, um alemão que matou a família e mais um monte de gente. Foi diagnosticado com paranóia e inocentado dos crimes. Permaneceu internado num manicômio onde escreveu diversas peças até morrer de tuberculose. Por Deus, acredito que isso não tenha relação nenhuma com o mosaico. Credo em cruz!!!

Enfim...enquanto este nome permanece sem rosto, fui verificar o nome Salviati e achei uma empresa de vidro em Murano, fundada em 1859, que assume para si o origem do material utilizado para decorar o domo da Catedral de São Paulo, o Teatro da Ópera de Paris, o Hall da Casa do Parlamento em Londres...mas não fala da Coluna da Vitória. Em todo caso vale a visita ao site deles - www.salviati.com - e ver a produção contemporânea de vidros venezianos. Por falar em visitar você, mosaicista, está intimado a visitar a página da empresa que tem feito o restauro do mosaico da Coluna da Vitória desde 2010. A empresa fica em Dresden e chama-se Mosaik Kunst - http://en.mosaikkunst.de - é um trabalho lindo! Até a próxima descoberta!

Fontes:
www.berlin.de
www.pt.wikipedia.org
www.simplesmenteberlim.com
www.aviewoncities.com
http://en.mosaikkunst.de

Fotos: 
Adriana V. Piacezzi
Luciano F. de Pinho

A Igreja Memorial Kaiser Wilhelm

Conhecida por aqui como "Gedächtniskirche" esta igreja (ou o que sobrou dela) é um dos marcos mais famosos de Berlim. Está localizada na Breitscheidplatz, na região da Kurfürstendamm, área de turismo esteriotipado da lado ocidental da cidade.

A igreja foi projetada por Franz Schwechten em estilo neo romântico. Sua pedra fundamental foi assentada em 22 de março de 1891, aniversário do Imperador Guilherme I, homenageado com a construção da igreja. Foi inaugurada em 1895, mas a conclusão total de suas obras deu-se anos mais tarde, em 1906.
Vista da igreja após sua conclusão (foto do site www.rao-berlin.de)
Com capacidade para receber 2.000 pessoas sentadas, era famosa por acolher batizados, casamentos e funerais reais. A igreja também ganhou destaque pelos mosaicos originais que retratavam os duques da Prússia e príncipes da dinaistia Hohenzollern ,em painéis que somavam 2.740m² de arte e beleza. 

Contudo, em 1933, com o final da monarquia, houve quem sugerisse sua demolição, por ser considerada um entrave ao fluxo do trânsito na região. Oi? Parece uma piada, ainda mais para alguém como eu, que passou uma parte da vida estacionada no trânsito da grande São Paulo. Enfim, a ideia maluca não foi adiante...mas veio a Segunda Guerra Mundial. Em 23 de novembro de 1943 a igreja foi quase totalmente destruída em um ataque aéreo dos aliados. A torre principal, que media 113m de altura, passou a medir 71m após a destruição.
Vista da igreja após o bombardeio (foto do site www.rao-berlin.de)
Após a lenta remoção dos escombros, concluiu-se que os danos eram irreparáveis. Realizaram-se vários concertos com o objetivo de arrecadar fundos para sua reconstrução, mas antes que o montante necessário fosse atingido, o acesso às ruínas foi fechado, em 1953, por motivos de segurança. A nave central precisou ser demolida e apenas o hall de entrada e a torre principal ficaram de pé.

Em 1957 surge um novo projeto de reconstrução de autoria de Egon Eiermann. Uma vez mais considerou-se a hipótese de demolir as ruínas, mas agora a opinião pública foi unânime em dizer que o hall de entrada e a torre principal deveriam permanecer como um memorial de guerra. Assim, uma nova igreja, com um design totalmente diferente, foi construída exatamente ao lado e a história permanece viva para ser aprendida pelas gerações seguintes.

As ruínas foram reabertas para visitação pública em 1987. Desde 2010 os mosaicos vem sendo restaurados pela empresa Restaurierung Am Oberbaum (RAO) em conjunto com o escritório de arquitetura BASD-Gerhard Schlotter Architekten.

Vamos à ela?
Esta é a visão impactante que você tem logo que se aproxima da igreja.

Chegando perto você entende o motivo de se manter uma ferida aberta. Há histórias que não devem ser esquecidas. Há lições que precisam ser aprendidas para que os erros não sejam repetidos. Essa vibração pode ser sentida na pele e a guerra (qualquer uma) deixa de ser a matéria que vai cair na prova ou o tema do filme que ganhou Oscar. Ela é real, aconteceu ontem, transformou o mundo e fez (faz?) da humanidade o que ela é hoje.

Se você não se emocionou até agora, pegue a caixa de lenços. Vamos aos mosaicos (clique sobre as imagens para velas em tamanho maior):

Visão da abóboda.
Repare no tecido da roupa do monarca.

Procissão de príncipes da Dinastia Hohenzollern. Repare na face levemente rosada da princesa, como se tivesse recebido um toque de maquiagem.
Repare que na borda do véu há um bordado dourado.
Repare na fluidez das vestes dos anjos...e as asas, você reparou na plumagem?
Eu fiquei um tempo olhando apenas para a musculatura da panturrilha deste sujeito.
Reparou nos sapatos? (não só esses...)
Agora a decoração dos arcos:




Se você estiver vendo estes mosaicos in loco e seu pescoço estiver doendo, não tem problema! Olhe para o chão:
Arcanjo Miguel lutando contra o dragão.






É, e teve quem jurasse que isso que vemos hoje (que é uma fração pequena do que existiu) atrapalhava o trânsito e precisava ser demolido...ainda estou tentando imaginar esse trânsito alemão de 1933...

As ruínas não são apenas um memorial de guerra. Trazem também o tema da reconciliação. No interior do hall é possível ver o crucifixo de pregos de Coventry (Inglaterra), símbolo do perdão mútuo entre as duas nações. Mas este você precisa, repito, você precisa ver pessoalmente...

O que ainda me incomoda (além daquela história de demolir por causa do trânsito) é que não consegui encontrar informações sobre onde estes mosaicos foram feitos e por quem. Vou continuar a busca, mas se alguém souber, por favor, compartilhe esta informação. Obras de arte não devem jamais ficar apartadas de seus genitores.

Fontes:
Guia Visual Folha de São Paulo, Berlim - 2012 Publifolha.
www.gedaechtniskirche-berlin.de
www.wikipedia.org
www.pt.wikipedia.org
www.berlin.de
www.virtualtourist.com
www.rao-berlin.de
www.belcanto-incantatotour.blogspot.de

Fotos:
Fotos de época - www.rao-berlin.de
Fotos 2014 - Adriana V. Piacezzi

"Unser Leben" o maior mosaico da Europa.

Pegue a linha U2 do metrô, a linha vermelha, e desça em na estação Alexandreplatz. Pronto! Você estará aos pés de uma das maiores obras de arte da Europa e do que é considerado o maior mosaico da Europa. Este painel magnífico, ao estilo de arte mexicana, formado por cerca de 800 mil tesselas, além de pedaços de cerâmica e metal, aparece como uma espécie de cinturão entre o segundo e quinto andares do edifício "Haus des Lehrers" ou "Casa do professor".

Este edifício foi um projeto do arquiteto Hermann Henselmann e substituiu a edificação de mesma finalidade que fora destruída na Segunda Guerra. Seus 54 metros de altura forma erguidos entre dezembro de 1961 e setembro de 1964, sendo o primeiro arranha-céu de Alexanderplatz e um autêntico representante da arquitetura modernista pós-guerra.

O edifício foi concebido para ser um lugar de encontro de educadores. Em suas instalações encontrava-se bar, restaurante, café, livraria, clube, salas de leitura e uma das bibliotecas de ensino mais importantes da Europa, com 650 mil volumes. Após o fim da República Democrática Alemã - RDA (ou DDR - Deutsche Demokratische Republik, em alemão), o acervo foi transferido para a Biblioteca de Pesquisa de História Educacional. Neste período o edifício passou a abrigar parte da administração escolar do Estado. A partir de 1994 o prédio foi alugado para diversos fins e hoje oferece escritórios para locação.

A origem do friso de mosaico remete a um concurso de tema livre promovido pelo Ministério da Cultura. O artista escolhido pelo júri foi Walter Womacka, cujo projeto retratava a humanidade e sua relação com os elementos da natureza. Apesar da aprovação do júri, a abordagem foi rejeitada na fase de design por ser considerada "não-marxista e metafísica". Assim o projeto foi alterado a fim de retratar a "realidade socialista". Womacka fez um panorama com cenas do cotidiano da "vida feliz na RDA". O título da obra é "Unser Leben" ou "Nossa Vida".

Vamos aos quatro lados desta maravilha de 7 metros de altura e 125 metros de comprimento. 

Lado 1:




Lado dois:

Lado três:





Lado quatro:

Olhando de baixo para cima, ficam nítidas as inserções das peças de metal:

Sobre o artista Walter Womacka

Nasceu em 1925 na antiga Tchecoslováquia. Foi pintor, gravurista e designer de inúmeras obras arquitetônicas. Iniciou seus estudos como pintor decorativo de 1940 até 1943, na Escola Estadual de Cerâmica de Teplice. Durante a guerra foi convocado para servir, o que fez até ser ferido em 1945. Após a guerra trabalhou como lavrador e em 1946 passou a frequentar a Escola Formativa de Mestres de Ofício, em Braunscheweig. Em 1949 mudou-se para Weimar, passando a frequentar a Universidade de Arquitetura e Belas Artes. Deu continuidade aos seus estudo em Dresdem, de 1951 a 1952 na Academia de Belas Artes. Em 1953 mudou-se para Berlim onde trabalhou na Academia de Arte Berlin-Weissensse, primeiro como assistente e depois, a partir de 1963, como chefe do departamento de pintura. De 1968 a 1988 foi diretor desta Academia.

Womacka é considerado um artista alemão do Realismo Socialista, que é o estilo artístico oficial da União Soviética entre as décadas de 1930 a 1960, aproximadamente. Na prática, tratava-se de uma política de Estado para a estética que abrangia todos os seus campos e manifestações (literatura, pintura, design, arquitetura, escultura, cinema, teatro, música, etc.). Esta política está associada ao comunismo ortodoxo e aos regimes de orientação stalinista.

Womacka residiu em Berlim até o final de sua via. Faleceu em setembro de 2010.

Se você vier a Berlim, é obrigatório admirar este mural tão, tão, tão, tão emblemático que passou por restauração há cerca de dez anos.

Fontes:
www.de.wikipedia.org
www.hausdeslehrees.de
www.pt.wikipedia.org 
Fotos: Adriana V. Piacezzi