Olá!

Aqui você encontra vários tipos de textos. São reflexões, introspecções, filosofadas e relatos, tudo sob a luz do mosaico. Desejo inspirar você com a mesma arte que me inspira.

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Nunca é tarde.

Fim de um ciclo, início automático de outro.
As máximas permanecem, então... 

Sempre é tempo de começar tudo de novo.
Sempre é a hora certa para descobrir um novo significado naquilo que já é conhecido.
Sempre é tempo de aprender (ou reaprender) o que é preciso para ser feliz.
Sempre é a hora certa de se despir de tudo que atrapalha, que pesa e não tem valor e ficar nu na essência.
Sempre é tempo de realizar, de colocar em prática o que acabou de aprender.
Sempre é a hora certa de sentir, de dizer, de compartilhar, de compreender e de entregar.
Sempre é tempo de ser melhor do que foi ontem e sempre é a hora certa de senitr a esperança de que issso é possível.




Cantado fica assim:




Boa introspecção e bom recomeço!

De Chillon para a sua parede.

    Nas férias trangredimos a realidade de nossas rotinas e nos lançamos em aventuras que, mesmo planejadas à minúcia, sempre nos surpreendem. Quando tudo acaba temos a árdua tarefa de fazer caber em nossa cabeça uma mente extraordinariamente ampliada, livre, instigada. Desta readaptação forçada à realidade, surgem referâncias aqui e ali aos dias de ócio criativo vividos anteriormente.
    Coloque-se no seguinte cenário: Montreux, uma cidadezinha suíça às margens do lago de Genebra. Depois de adorar a estátua do único e insuperável Freddie Mercury, você caminha pela parte mais antiga da cidade, absorvendo pelos poros de todo o corpo séculos de história e uma paisagem comum nas caixas de bombom de antigamente. Se a companhia é boa, caminhe até o Castelo de Chillon. Esta construção do século XII serviu de inspiração para os escritos de Lord Byron, Victor Hugo e Jean-Jacques Rousseau. Apesar das sucessivas modificações que sofreu no decorrer dos anos não perdeu seu evidente caráter medieval e, por muitas vezes, muito, muito sombrio.
    Quando você desvenda um lugar assim, deixa-se guiar pelos sentidos muito mais do que pela razão. E não somente pelos seus sentidos, mas também pelos sentidos de quem está com você. Assim, em determinado aposento onde vários móveis, mais antigos que nossa pátria mãe, estavam expostos, foi-me apontado um grande baú que ostenta rosáceas entalhadas na laterais. Fotografei-as.
    De volta à realidade, usamos as fotos para detonar uma torrente de lembranças que são editadas com o passar do tempo. Deparei-me novamente com a rosácea.
    Acho-a bonita, sem dúvida. Mas vasculhe sua memória e veja se em algum momento da vida você já não traçou algo muito similar. Provavelmente quando teve seu primeiro compasso para as aulas de geometria. Quando percebi isto, achei interessante que algumas figuras estejam lastreadas há tanto tempo em nossa mente, gravadas profundamente no inconsciente coletivo, com fartas referências simbólicas a formas e números que nem entendemos completamente. Isto me fez constatar que pouco, muito pouco criamos. Na verdade descobrimos coisas que já estavam lá. Acredito que até os avanços da ciência são constatações de coisas que já existiram e a este processo de (re)descobertas chamamos de evolução. Se esta teoria fizer sentido, confirmamos o fato de que a humanidade é nada mais do que uma gotinha de água numa chuva torrencial. Para celebrar nossa insignificância, reforcei os traçados que sempre existiram.




O amigo que não vê a primavera.

    Há um bom tempo, numa conversa de corredor, alguém falava que não entendia porque as pessoas festejavam tanto a chegada da primavera, enfatizando que nada mudava de um dia para o outro. Instantaneamente me lembrei que aquele é o meu modo de ver a passagem de ano. Sim, de um dia para outro nada muda, mas de um dia para três ou quatro outros dias alguma coisa muda e é incrível! A árvores aqui da rua, de totalmente peladas, ganham brotinhos e num piscar de olhos ostentam novas copas de um verde fluorescente. A despeito de toda a loucura climática que testemunhamos, da extinção das meia-estações, uma boa parte das plantas ainda se acha e se renova. Até a minha violetinha me surpreendeu com duas florzinhas rajadas depois de não sei quanto tempo sem florir. O cortado e supostamente falecido abacateiro lançou uma haste surpreendente, fênix, repleta de folhas em meio à demais plantas que ocuparam o seu lugar. E a lista de pequenos milagres segue com notável extensão. Para mim esta delicada explosão de vida é uma manifestação inconteste de amor. É uma mensagem nítida de esperança, de continuidade e possibilidade quando tudo parece irremediável.
    Essa simbologia veio à minha mente porque o hall da fama das coisas mais tristes que ouvi ganhou ontem uma afirmação que foi direto para o "top five". Nosso querido amigo disse que o amor não existe. Assim. Espera aí, para tudo! Semanas antes ele mesmo falou que buscava um amor, que queria envelhecer ao lado de alguém e coisa e tal. Amigão, sinto muito, mas não vai acontecer. É óbvio, não é? Ele supostamente busca algo no qual não acredita. Ai, ai, ai...nós humanos....
    Independento do sucesso ou fracasso afetivo do nosso colega, o que me fez pensar é se ele não percebe que o amor acontece a todo momento, em diferentes escalas, com diferentes formas. Será que ele não percebeu que o que era cinza ficou verde? Será que ele não viu o espetáculo dos Ipês amarelos? Desconfio que ele falou aquilo para gerar comoção, para que alguém resolva lhe provar o contrário. Não é possível que a sua desilusão seja tamanha e que ele decida que o inverno é para sempre. E aqui fico eu inconformada  com o fato de como alguém pode ficar alheio às manifestações concretas de vida  e preferir as manifestações vazias dos foguetórios de 31/12.


O que dá e o que não dá para aprender.

    Então chega o momento em que se deve encerrar a história de uma vida. História que não é somente de quem vai, é muito de quem fica. Não há o que fazer, não há o que dizer. Nada é capaz de remediar um momento tão sabido e tão misterioso ao mesmo tempo. Não há crença que evite a dor da falta, do buraco abismal que se forma abaixo dos pés. A fé fortalece no antes e torna possível o depois, mas nada evita o durante. Não há como suavizar a perda das referências e a sensação de estar num mundo que não é mais o mesmo.
    Nada ensina a lidar com o impacto que a despedida causará no peito. Nada resolve os olhares opacos, repletos de perguntas, esvaziados de tudo, inclusive de respostas. Nada ensina a velar o que foi a morada do ser amado. Ainda que tudo siga a ordem natural das coisas, ainda que seja esperado, ainda que seja inevitável, nada é capaz de amortecer a queda no desamparo.
    Quem já experimentou a maior sensação de impotência que se pode ter, revive sua chaga ao demonstar apoio a quem a experimenta pela primeira vez. Quem nunca passou por isso, encolhe na aflição, na angústia e na certeza de quem o seu momento também chegará. Sente-se o medo da incerteza de sobreviver à dor, de não se sentir capaz de reconstruir tudo o que acaba de desabar.
    Para o que não tem remédio, não há nada a fazer. Tudo o que pode ser feito, deve ser realizado antes para que, na confusão de sentimentos que fazem curvar as costas, ao menos não se carregue a culpa.
    Amar e ser amado é um assunto muito sério. Não o sério chato, o sério bom, muito bom, mas que requer atenção e cuidados diários. A chance de amar uma pessoa é uma só e tem data para acabar. O amor é eterno, mas aquele que o recebe, não. Por isso é bom não perder tempo e não se confundir no andamento da rotina, acreditando ter todo o tempo do mundo para arrumar depois o que não está bom agora. Se gosta, declare, abrace, beije, doe, esteja junto e retribua sempre, porque um dia a vida aqui acaba.


Lentes rosa

    Sabido é que sou aficcionada em cores. Todas elas! Juntas ou separadas, me encanto com as nuances que inundam olhos e pensamentos. Natural é que traga este conceito para meu entorno, simplesmente porque me agrada e me sinto mais feliz assim. Consequência esperada é que aplicasse este gosto aos cabelos. A idéia era um arco-íris com mais de sete cores, mas não foi fácil me entender com a cabeleireira, traumatizada com reações nada amigáveis da época em que teve seus próprios cabelos coloridos (azul, prata, pink, cereja, laranja...). Ela terminantemente negou-se a juntar todos os tons que eu idealizava e tive que me contentar com dois tons de rosa, depois de deixar as madeixas crescerem por meses como prevenção, assim poderiam ser cortadas caso minha vida fosse ameaçada por algum fundamentalista aviltado com pontas de cabelo cor de rosa.
    Operação concluída experimentei o prazer de me encontar, de olhar no espelho e dizer "finalmente você está sendo você". O que eu não esperava era que a ordem natural das coisas mudasse. Acontece que quando você pinta as pontas dos seus cabelos de rosa, compulsoriamente você ganha novas lentes para ver o mundo. E a constatação mais óbvia me causou espanto: onde estão as outras pessoas de cabelo colorido? Eu sei que elas existem, mas definitivamente não habitam esta cidade ou se econdem muito bem. Então fiquei chocada com a mesmice, com o padrão, com tonalidades absolutamente mortas que os cabelos por aí exibem. Achei muita graça de quem usa o mesmo penteado desde 1971 e de quem sobe no salto pois teve a ousadia de tirar quatro dedos no comprimeto e repicar as laterais. Eu não via isso antes, mas vi agora. Mas as percepções não ficaram apenas no âmbita capilar. De um dia para o outro percebi como o ar que nos circunda está estagnado, podre até, e como somos incapazes de perceber isso já que não conseguimos posicionar a cabeça um pouco acima, ou ao lado, ou abaixo, desta massa fetidamente opressora formada pelas nossas crenças mumificadas que arrastamos décadas a fio sem nos perguntar se aquilo ainda nos serve. Incrível! Mais incrível ainda é que tudo isso é escolha nossa. Sem falar no pavor à mudança que estampa os olhares. É por isso que o diferente é recebido com hostilidade por muitos de nós, afinal é um lembrete ameaçador de que estacionamos em um padrão, mesmo que isto não faça felizes, é o dedo que nos aponta o medo que, apesar de infundado, parece intransponível. Medo de vivenciar a própria essência e simplesmente ser, medo de mandar o exterior às favas e encarar o interno. E se ninguém mais gostar de mim? Esta é a pergunta pulsante na mente de todos e nunca pronunciada. Pessoas queridas, o amor próprio basta, o resto é uma consequência inevitável.
    Agora imagine quão patéticas foram as últimas semanas, quando esta efervescência transbordava pelos meus poros e eu escutava uns bons quilos de perguntas retóricas sobre cabelo. Um descortinar profético acontecendo na minha mente trombando com a insistência num assunto tão importante quanto cor de esmalte, tendência tie dye para as próximas estações, lançamento do ipod 5 e por aí afora. Pois é (PoiZé!), algo tão pequeno me catapultou para uma série de percepções de uma forma tal que só posso aconselhar que todo mundo faça a mesma coisa. Veja onde pode te levar a mudança do sabor do seu suco preferido, uma nova forma de comer o macarrão sagrado do domingo, não comer o macarrão sagrado no domingo. A vida é uma soma de pequenas coisas e com pequenas mudanças, aqui e ali, chegamos facilmente às grandes.

 

Micro ode ao PoiZé.

Eu queria ser um gato sem cor definida, mas mais escuro nas orelhas e no rabo também.
Queria ser um gato longo, tudo longo, pernas longas, focinho longo, rabo longo, corpo longo.
Queria ser um gato de olhos azuis. Um azul clarinho e cristalino, como o céu num dia de muito sol.
Queria ser um gato que ganhou um nome curto e estranho, e um apelido mais curto ainda.
Queria ser um gato cujo passado fosse uma grande incógnita, mas que o presente fosse um deleite.
Queria ser um gato que reencontrou a alegria e nem se lembra mais do que já passou.
Queria ser um gato que não se importa com a opinião dos outros, eventuais xingamentos que nascem do ciúme.
Queria ser um gato que tem disposição para se divertir com qualquer coisa a qualquer hora e que, após uns minutinhos de pausa, começe toda a brincadeira de novo.
Queria ser um gato que acha um lugar na cama cavocando as cobertas e se enfiando debaixo delas.
Queria ser um gato que se  entende no direito de tudo, inclusive de dividir o travesseiro com seu humano que é prontamente lambido quando pergunta "o que você está fazendo aqui?"
Queria ser um gato que a cada dia é mais gato, que não tem medo de parecer ridículo ao perder a coordenação das quatro patas enquanto se diverte perseguindo seus iguais.
Queria ser um gato que gasta mais energia do que consome, ainda que consuma muita!
Queria ser um gato que mudasse toda a ordem de uma casa, derrubando antigas crenças e ensinando que vida é o que acontece agora.


Amor pela metade

    Acho que o tema é repetido, mas nossas contendas são assim mesmo. Gastei várias horas de vários dias pensando em quando me senti bem com a minha imagem. Se eu fosse Jack, o estripador, estaria tudo certo pois gosto de uma coisa aqui, outra ali, outra acolá, mas unindo os pontos não dá uma pessoa inteira. No meio das elocubrações, 80% delas descartáveis, me perguntei se isso nunca vai ter solução. O que acontece, mais precisamente, é que a imagem do espelho não reflete fielmente a maneira como me sinto. Não mesmo! Sem saber o quão grave isso pode ser, fiz uma pergunta muito importante a mim mesma: por que eu como mais do que preciso? Dá para derivar por um milhão de caminhos e cada um deles terá uma resposta pertinente. Talvez todas essas vertentes se encontrem no nosso corpo emocional subdesenvolvido, totalmente stupidificado, mal formado, uma besta voraz. Não consigo compreender como dia após dia, ano após ano, década após década, cada um de nós atenta contra o próprio bem estar. Tenho certeza de que não estou sozinha nisso e sei que cada um se fere em algum momento com algum instrumento de qualquer natureza. Não esqueço quando, no meio de uma conversa sobre tudo e nada, um sujeito percebeu que eu não tomava bebida alcóolica. Quis saber se era algo passageiro ("está tomando antibiótico?"). Expliquei que há tantos anos decidi não ingerir mais álcool. Por quê? Porque me faz mal (este foi o motivo da época, hoje posso fazer uma lista e falar horas a respeito). O sujeito cruzou ou braços, franziu o cenho, entortou a cabeça e disparou: "mas como você faz para se divertir?" Então ele explicou que considerava impossível divertir-se sem ingerir álcool. Tirando o fato de que esta foi  uma das coisas mais tristes que já ouvi na vida, me vi absorta pensando no números de encrencas que o sujeito já havia arrumado para si por estar bêbado, ficar inteiramente revoltado com estes problemas mas não deixar de beber. Acho que faço a mesma coisa. Só que o meu vício é outro. Se a causa e a consequência parecem tão claras, qual é a dificuldade em exterminar a primeira para não ter mais a segunda? Ansiedade. Ok. Angústia. Tá. Solidão. E o que mais? Tudo bem, pode haver um sem número de sentimentos que nos desequilibram, mas por que ele dominam? É por isso que não aceito as fórmulas mágicas. Elas miram nas consequências e não nas causas. No meu exemplo próprio, comer a mais já é uma consequência. Os quilos a mais são consequências das consequências. 
    A minha frustração surge porque há aquele pontinho lá fundo que me diz "poxa, você merece mais do que isso". Sim, sinto que eu, você e todo mundo merecemos nos sentir radiantes, plenos e trasbordantes de energia. Sinto que nós não devemos mais ser reféns de nós mesmos e não tenho a menor idéia de como fazer isso, porque teorizar toda esta história não resolve os momentos cotidianos.
    Hoje me dispus a não comer nenhum doce. Só por hoje. Vamos ver. Até agora, 15:53, a minha louca interna não atacou. Não sou favorável de coisas radicais, mas neste momento parece que se eu não experimentar o rigor não conseguirei mergulhar fundo na podridão que me sabota. A intenção seria extender isso por muitos dias e encarar a abstinência bem nos olhos. Em algum momento terei que desenvolver um amor melhor por mim. Vamos ver...o que não quero mais é experimentar o sabor amargo da minha derrota pessoal, do emocional claudicante, da covardia autodestrutiva.

(incensário com gavetas)


Em agradecimento.

    Acho que foi há uns quatro anos que pedi aos amigos e parentes que, na ocasião do meu aniversário, trocassem as felicitações por uma boa ação. Valia qualquer coisa dentro do esquema "aquilo que o seu coração mandar". Alguns me contaram depois as escolhas feitas e achei um grande barato perceber que todo mundo voltou o olhar, a emoção, o tempo para uma pessoa. Alguém poderia, por exemplo, recolher o lixo do chão de uma praça próxima. Contudo a maioria optou por cuidar de alguém das mais diferentes formas que você possa imaginar.
    Faz muito sentido este senso interno de se ligar à necessidade do outro, num processo empático e profundo. Isto é tão natural que automaticamente somos invadidos por uma sensação de bem-estar quando fazemos algo por alguém. Sim! Praticar o bem faz parte daquilo que somos!
    Espremendo a memória para buscar quando experimentei esta sensação pela primeira vez, achei um eposódio que me marcou. Lembro que separei alguns briquedos para levar a umas crianças de uma família assistida pela Sociedade São Vicente de Paulo. Meu pai é Vicentino há 326 anos e, quando eu era criança, me levava a algumas das visitas que faziam às famílias carentes. Eu já tinha visitado aquelas crianças uma vez, então a ação tinha um rosto. Escolhi os briquedos que já não eram prediletos e uma bonequinha que ainda era querida, mas como eu tinha tantas e aquelas meninas nenhuma, me senti convicta de que deveria doá-la. No dia da visita a minha expectativa era grande, queria ver o tamanho da alegria gerada pelos brinquedos. Se as crianças gostaram? Sim. Vibraram? Não. Uma das meninas pegou a bonequinha, aquela, e colocou dentro de uma gaveta, junto a outros briquedos sujos e faltando partes e me chamou para brincar (sem briquedo nenhum) fora do barraco. Fiquei frustrada, com saudade da bonequinha, com vontade de pegá-la de volta e com vergonha de sentir isso. Na época foi tudo o que consegui metabolizar do fato. Hoje acredito que isto ilustra muito bem a máxima que ensina a fazer o bem e ponto final. Faça o bem porque você vai se sentir bem, pois o que vai acontecer com quem recebe nós não controlamos. Ah! E, mais importante, não faça nada esperando qualquer coisa em troca. Muitas vezes o que é dado não encaixa na necessidade do momento daquele que é beneficiado. Não é que aquilo não lhe será útil, mas naquele instante a pessoa enxerga outra prioridade. Só agora percebo que a menina preferiu brincar comigo, que estava lá naquele momento, do que brincar com a boneca recém herdada.
    Outras tantas vezes pude sentir aquele calor no peito de quem está salvando o mundo, como quando passei a separar o lixo reciclável, quando consegui ensinar isto a umas duas pessoas, quando recolhi cocô de cachorro sob os olhares de nojo de quem estava passando, etc. Mas o que teve significado mais forte foi doar sangue. A primeira vez foi aos 19 anos, primeiro ano de faculdade, numa campanha para ajudar a mãe muito doente de um aluno que precisava de nada menos do que 14 doadores. Depois daquele dia fiz doações aqui e ali, mas só me tornei uma doadora assídua há oito anos, quando me cadastrei em um banco de sangue que não espera você lembrar que pode doar. Eles ligam sempre que há necessidade, ou seja, sempre. Foi ali que comecei a doar plaquetas e hoje faço muito mais esta doação do que a de sangue, ainda mais porque a periodicidade pode ser muito maior. Hoje sinto como uma obrigação moral. Acho indecente, ingrato não fazê-lo. Olhe para nós: qual grande problema temos? O que acontece nas nossas histórias acontece na de todo mundo e isto se chama vida. Então, se você reune as condições necessárias para ser um doador não perca tempo esperando as condições ideais de temperatura e pressão. Levante as mangas! Claro que tudo não é assim lindo e maravilhoso. Tem aquele questionário deprimente: tem tatuagens? Não. Piercing? Não. Já esteve na África? Não. Já esteve preso? Não. Usa ou já usou drogas injetáveis? Não. No último ano fez sexo com desconhecidos? Não. Já morou em área rural? Não. Possui comportamento de risco? Não. Já...tudo bem Adriana? Não. Acabo de perceber como a minha vida é sem graça! Ah, mas pelo menos você poderá ajudar de 7 a 14 pessoas com a sua doação. Quantas? É, então valeu a pena meu esforço para não ir em cana por fazer sexo com um monte de gente enquanto fazia tatuagens nas áreas rurais da África.

Minha sugestão? Você pode doar AQUI




Calma.

    Meu maior inimigo no trabalho (ou seria na vida?) é a ansiedade. Aquele afobamento sem razão, a pressa em ver os resultados, a energia gasta colocando o carro na frente dos bois. É como uma picada de mosquito, daquelas que dão alergia e parecem uma bolacha na batata da sua perna, coçando a todo instante e tirando o seu foco.
    Então, além das limitações técnicas, sempre aparece aquele detalhe, às vezes não tão pequeno, que eu olho e me pergunto: "em que momento deixei isto passar?". Resposta: no momento em que estava ansiosa, quase louca, fazendo as coisas sem pensar no que fazia.
    Para o meu consolo, já ouvi de colegas bem mais experientes do que eu que a ansiedade compromete a qualidade do trabalho. Ah! Que bom que não sou só eu! Ai! Será que mesmo depois de vinte anos de estrada continuarei assim, descompensada? Talvez.
    Olhando para tudo que já fiz, pude mesmo constatar que as peças que mais me agradaram foram aquelas produzidas sem um fim específico, sem querer agradar a ninguém, aproveitando a brecha entre uma encomenda e outra. Encomendas com prazo bem folgado também saíram melhor. Não é uma regra, mas dá para observar um padrão. Então, como exercício de auto-observação, parti para uma luminária com o compromisso de parar tudo ao primeiro sinal de surto ansioso. Ela vem surgindo mais lenta do que o normal, mas o bom disso é que consigo identificar melhor o que é resultado de falta de aprimoramento técnico, posso identificar especificamente as minhas dificuldades e consequentemente buscar o caminho das soluções. Antes não conseguia saber o que era o que, e rodava no "mea culpa" sem concluir nada de útil. Só espero conseguir manter este diálogo interno até o final desta peça. O próximo desafio é extender o comportamento para tudo o que fizer. Mas, se me permitem o trocadalho, será um pedaço por vez.


Sonho.

Desejo espalhar luz.
Desejo espalhar cor.
Desejo, mais que tudo, espalhar luz colorida pelo mundo afora, numa profundidade que encanta e hipnotiza.
Quero permear os olhos sedentos de beleza, acariciar as almas cansadas na incessante luta pelo bem.
Quero que cada ser seja contagiado pela energia de vida, pulsando vigorosamente em todas as células do corpo.
Quero dar ao outro a mesma inspiração que Deus me dá.
Quero chamar a atenção de todos para o que existe de bom na vida e que a fonte jorra incessante.
Quero mostrar que a resposta está sempre na sabedoria, na paciência, no autoconhecimento, na ética e no respeito, principalmente quando do outro lado está o oposto disto tudo.
Quero fazer entender que só há sentido quando há amor.
Desejo espalhar o amor na forma de luz colorida.


(trabalho em andamento)

Pega ladrão!

    Muitas vezes já me perguntaram se não acho ruim fazer uma peça igual à outra. A resposta é não. Cada trabalho tem uma história e o processo de confecção do mosaico é que dá o grande barato. Não é raro, especialmente com as placas de número residencial, um cliente pedir uma igual, extamente igual a um modelo feito. "O senhor pode mudar as cores, acrescentar algum detalhe. Pode mudar a fonte também". "Não, não! Quero igual mesmo, se for possível". Claro que sim! Reservo meus experimentos e devaneios para peças que ainda não tem dono.
    Mas, e sempre há um "mas", tive que fazer uma cópia fiel com um gosto bem amargo na boca. A última peça que despachei antes das férias, uma placa para um consultório, foi roubada num assalto ao caminhão do Correios no Rio de Janeiro. É violência à distância. Senti-me reduzida a nada. Lembro de toda a troca de informação com a cliente até chegarmos nas cores mais adequadas, na relação com o logo que já existe, na hamonização com o lugar onde seria fixada e outros pequenos detalhes tão importantes quanto os grandes para o resultado final. Todo este trabalho foi jogado fora por uma situação sócio-econômica amplamente defeituosa.
    Confesso que ainda não digeri o ocorrido e fico imaginando a placa sendo vendida numa feirinha mequetrefe por R$ 20,00. Sim, os Correios deverão pagar uma indenização além, de devolver o valor da postagem. Já percebi que isso vai dar trabalho. Mas o que pega mesmo não é ter ou não de volta o dinheiro, é o ato de violência que fez com que eu me sentisse refém de um contexto, sem garantias de uma vida digna, de civilidade e isto eu não aceito.
    A nova placa está praticamente pronta, com apenas alguns retoques pendentes. Fiz um exercício mental monstruoso para controlar meus pensamentos durante todo o processo de motagem. Acredito que o que vai na minha mente é tranferido para a peça e levo esta responsabilidade muito a sério. O lado bom é que na outra ponta do prejuízo exite uma pessoa cheia de bom senso, disposta a resolver problemas.
    Ainda sem encontar resposta para algumas perguntas, eu trabalho e me aprimoro, coisa que quem rouba não é capaz de fazer.


Nega do cabelo duro.

    Quando, na interação com estranhos, passam a me chamar de "senhora" e não mais de "moça" é indício que passou da hora de fazer o tradicional retoque das raízes. Para mim é como tomar remédio: não gosto mas é inevitável em determinadas situações. Com o desolador e assustador aumento do número dos cabelos brancos, esta tarefa mostrou-se impossível de ser cumprida em casa. Só os produtos profissionais dão conta do recado. Salão de beleza é para mim uma espécie de academia de ginástica, ou seja, não me identifico nem um pouco com o ambiente. Já que não há outra saída, ao menos tenho o privilégio de poder escolher dia e horário bem vazios para minimizar meu desconforto (sim, a coisa é mesmo grave!).
    Então lá fui eu, de livro em punho para evitar o atrofiamento cerebral com as revistas que são oferecidas por ali para passar o tempo. Depois de xingar até a quarta geração do desgraçado proprietário de um carro enorme, estas aberrações que são a predileção dos esdrúxulos, por ter bloqueado a entrada do estacionamento, cheguei no horário e fui atendida no horário.
    No lugar da meiga ajudante da cabeleireira estava um rapazinho que eu nunca havia visto antes. Com educação simulada, ostentava um olhar desdenhoso que dizia "eu sei tudo e vocês, ignorantes, me aborrecem". O pobre sujeito nem imagina o quanto precisará aprender para se equiparar à doce assistente que o precedeu. Enquanto ela era capaz de fazer a mais insone das criaturas cair em sono profundo durante a lavagem dos cabelos, este mocinho consegue acordar a múmia de Tutankamon. Ok, ok, vamos ter a paciência que ele não tem, já que a vida ensina tudo o que precisamos aprender. Depois de me chamar de "Dri" (Oi? Que intimidade é essa? Só porque quase me escalpelou?) se antecipou à cabeleireira, pegou o secador e sacudiu meu cabelos freneticamente, de forma que eu não enxergava mais nada. De repente parou, advertido pela sua mentora pela falta do difusor. O QUÊ? "Mas que porra é essa?" eu me indagava interiormente. Aquela criança presunçosa teve toda a certeza de eu desejava sair dali com os cabelos lisos. Lógico! Afinal o que fazem aqueles que tem cabelos encaracolados? Primeiro maldizem a genética e depois fazem uma progressiva. Notícia de última hora: EU GOSTO DOS MEUS CACHOS!!!!!! Sim, pessoa de gênero indefinido, eu gosto do meu cabelo, da minha juba, da minha touceira, desta samambaia castanha! Para mim, quanto mais volume melhor. Pode chamar de oitentista, não estou nem aí. Sim, cabelo encaracolado dá mais trabalho, é verdade. Precisa ser lavado todos os dias, usar produtos específicos, ter finalizadores para os dias secos e para os dias úmidos, secar ao natural em condições controladas de temperatura e pressão. Mas, justifico com a memorável frase do professor Rogério Brant: "viver bem dá trabalho e não temos problema nenhum com isso". Ponto final.
    Saí do salão aviltada, mais murcha do que um pinto molhado, cara de pastel amanhecido, cabelos lambidos totalmente sem personalidade. Um horror! Para minha sorte basta água para que tudo volte ao normal e no dia seguinte já era eu novamente, cabeleira desgrenhada, revolta, com votade própria. Fica disso tudo um aviso muito importante a quem interessar possa: não mexa com a juba de um leonino! Nunca!



Aletria no dia dos namorados.

    Não lembro quando passei do oito para o oitenta, do branco para o preto, da açúcar para o sal. Houve um dia em que desse muita importância ao dia dos namorados. Sentia até uma energia diferente no ar. Hoje? Ppff! Sinto compaixão pelos que gastam os tufos em busca do presente ideal, do jantar ideal, da noite ideal. Já entendi a razão da humanidade eleger datas para comemorar. Se não o fizer, fica tão absorta em seu magnético umbigo que esquece de olhar para quem lhe cerca. Isto sem falar na conveniência cuidadosamente planejada para o comércio.
    Acontece que o melhor presente que já dei à cara metade apareceu na minha frente num dia qualquer. E foi tão bacana que não pude esperar alguma data comemorativa. Identifico-me muito mais com isso, com tornar os dias comuns em especiais sem planejamento prévio. Em expressar paixão, amor, reconhecimento, admiração toda vez que sentir. Acredito que estas coisas é que fazem tudo valer a pena e não podem esperar por uma data.
    Pode ser também que eu não goste nada de ser mandada. Então se dizem que hoje é o dia dos namorados, eu digo que não. E não quero ficar na fila do cinema, na fila do restaurante e em nenhuma outra fila para comemorar nada. Não combina. Não gosto. Pior ainda se me colocam numa manada, fazer o que todo mudo faz sem saber a razão.
    Assim declarei a minha independência destes tipos de comemoração, inclusive do dia dos namorados. Ainda mais porque, se pensar bem, geram muita ansiedade nas pessoas. Acho pouco saudável e totalmente desnecessário. E vou dizer uma coisa: sinto um grande alívio em pensar que não terei que esquentar a cabeça com presente.
    Desta forma tive um dia normal, fiz tudo o que tinha para fazer, jantamos o que sobrou da sopa de ontem e também um omelete de claras já que as gemas usei para fazer Aletria cremosa, receita da Nina (perdoe-me querida, errei alguma coisa e, depois de fria, endureceu!). E sabe o que foi especial para mim? Testar uma nova receita. Gosto disso! Qualquer dia será pretexto para repetí-la, a fim de acertar o ponto, e aí terei mais um momento especial.


Décimo primeiro mandamento.

    Qual a sensação que se tem ao repetir um erro cometido não uma, mas algumas, várias vezes? Quer saber a minha? Raiva, muita raiva de mim. Raiva da minha estupidez, da minha falta de lucidez, da memória fraca, fraquíssima! Vergonha de só então lembrar, no filminho que passa na cabeça, da última ocasião onde jurei profundamente nunca mais cometer o mesmo erro, uma vez que já sabia que a contra partida não vale a pena. Decepção comigo em perceber que não aprendi o que já deveria ter aprendido. Desgosto em sentir o peito dilacerado, sangrando, por ter passado por cima dos próprios valores, do autoconhecimento, num brutal desrespeito a mim. Não, estas sensações não valem a pena. Sentir-me um engodo não vale o sorriso alheio, não valem a suposta paz social.
    Com a boca amargada pela autoagressão cometida tento vislumbrar a recorrência dos meus maus tratos. Pequenos, médios ou grandes, não importa, pois somam-se na alma que morre um pouco a cada episódio. O que nos impede de dispendermos um bom tratamento para conosco? Talvez entendamos errado a questão, já que amar-se não é mimar-se, satisfazendo os próprios caprichos, mas educar-se a fim de manter-se saudável em todos os âmbitos, principalmente, especialmente no quesito emocional.
    Então fica muito clara a origem do charco podre no qual estamos. Nós, a sociedade (sim, amigo, a sociedade somos nós e não um elemento externo e alheio - eu sou bonzinho, a sociedade é que não presta), não evoluímos porque somos incapazes de exercer a civilidade e outros tantos atributos necessários ao bem-estar com nossa própria figura. Impossível, então, despender um tratamento decente a outra pessoa. Impossível!
    "Amar ao próximo como a si mesmo" é mais do que uma conduta escolhida ou uma recomendação. É uma sentença que desvela nosso atraso. Lidamos porcamente com nossa questões pessoais e fazemos ainda menos do que isso com nossos iguais. Olhe a situação ao seu redor. O que vemos é fruto de pessoas (todos nós) que não conseguem se amar. Neste momento isto me parece nosso maior desafio. Se não conseguirmos entender a grandeza daquela frase, definitivamente não há salvação para nós, que continuaremos chafurdando em nossa própria miséria e indagando abobadamente "por quê?".


Para quem vive só.

    Para estar sozinho é preciso paciência. Paciência consigo mesmo.
    É preciso estar lúcido, com a cabeça no lugar, vigilante e ter as emoções sob controle.
    Para estar sozinho é preciso gostar muito de si, cuidar-se com carinho e não deixar a mimada criança interior tomar as rédeas.
    É preciso não ter preguiça e saber se ocupar com um bom trabalho. Saber escolher as distrações e não confundir fugas com passatempo.
    Para estar sozinho é preciso cultivar relações fora da sua casca para saber com quem pode contar.
    É preciso saber que haverá um momento no qual precisará de ajuda. É necessário saber pedir ajuda.
    Para estar sozinho não se deve ter orgulho besta para aprender todo dia um pouco. Sobre a vida, as coisas, sobre você mesmo.
    É necessário ter calma e serenidade. Saber esperar, saber ouvir.
    Para estar sozinho é preciso aprender a ceder, pois cederá muito mais do que aqueles que vivem cercados de pessoas.
    É preciso falar com os próprios botões, sempre que sentir necessidade, para não afogar ninguém em enxurradas de palavras ansiosas.
    Para estar sozinho é preciso entender que a vida não são férias e estabelecer uma rotina que lhe favoreça, lhe torne muito produtivo.
    É preciso ter muito disciplina, pois não há ninguém olhando.
    Para estar sozinho é preciso ir fundo e se conhecer sem medo para entender os mínimos sinais.
    Quem faz a vida brilhar quando está sozinho, ilumina o mundo quando está acompanhado.


Novamente outono.

    Sim, eu sei que já falei aqui sobre tudo o que me encanta no outono (se quiser leia o texto "Minhas tardes de outono" de 2011). Mas não tenho como manter tudo isso aprisionado no peito. É bonito demais e seria um pecado não prestar atenção.
    Trata-se de um vento diferente, de outras temperaturas e do sol mais lindo de todas as estações. Trata-se do convite para desacelerar, para contemplar, para sentir. Tudo muda. O azul do céu é degradê, as nuvens tem outra densidade. Tudo brilha, tudo cintila. A beleza é tanta que chama, grita para aproveitar a dia. A vontade é de sair voando pela janela, de ter uma boa companhia para, ao sol da tarde, conversar até escurecer.
    Trata-se das gatas gozando de cada raio de sol, seguindo a luminosidade que caminha pela casa ao longo das horas. Elas estão certas e fazem o que eu tenho vontade de fazer. Trata-se de ter mais apetite e achar tudo mais gostoso, menos acordar cedo. Acontece que a cama fica quentinha e o corpo não quer deixar aquela lembrança de ventre para se equilibrar em duas pernas e lavar o rosto com água fria.
    Trata-se de vislumbres mágicos ao pôr-do-sol, de se agasalhar bem à noite e tomar muito cuidado com o vento encanado. Trata-se de lavar as roupas de lã ou usá-las assim mesmo e espirrar tudo o que tem direito. Trata-se de ter bem menos gente fazendo caminhada de manhã. Com exceção do bloco dos senhores de cabelo branco que, mesmo chegando um pouco mais tarde, não deixam escapar nada da última rodada, nem da redução de juros, nem da situação na Grécia. Trata-se de ver o cachorros usando roupas durante os seus passeios e sentir uma peninha pela dignidade perdida. Trata-se de fazer bolo porque é gostoso ficar na cozinha aquecida e cheirosa. Trata-se de abrir a temporada de sopas e sentir aquele calor gostoso que aquece os pés e dá uma moleza boa.
    Trata-se de ver as rajadas de vento levarem folhas sem destino que abrem espaço para mais sol passar. Trata-se de continuar tomando sorvete, porque não tem época para descobrir e aproveitar uma ótima sorveteria. Trata-se de carregar sacola pesada e subir as escadas sem suar, de andar de mãos dadas sem parar para enxugar.
    Trata-se de se encantar com as cores da vida, de testar novas combinações de roupas e de jurar que ninguém está vendo o meião felpudo que mal cabe no tênis. Trata-se de fechar algumas janelas quando a tarde avança para que dentro continue gostoso. Trata-se de proteger os lábios para que não rachem e de hidratar mais os cabelos porque já chove menos. Trata-se de ter ainda mais dó dos bichos abandonados e de fazer a doação para a camapnha do agasalho.
    Trata-se de ver a mudança, a transição e entender que isto é o que é a nossa vida: constantes mudanças e novas fases.


Nas bolhas do Guaraná.

    Ontem fiz um risoto. Interessante que foi o primeiro que fiz na vida. Não achei nada complicado e a exigência de cozinhar com a panela aberta deixa todo aquele colorido borbulhante à vista, espalhando o aroma que fica cada vez melhor. É divertido! Mais divertido ainda foi constatar que ficou muito bom, cremosão sem ficar um grude e quando a comida fica muito boa parece que é festa. Então para comemorar esta sensação abrimos um guaraná de garrafa. Não sou assídua de refrigerantes, nem um pouco, mas ali pareceu o acompanhamento ideal. No primeiro gole lembrei a razão de não beber refrigerantes: são doces demais, a ponto de dar sede. No segundo gole constatei que o sabor do Guaraná de garrafa é totalmente diferente daquele que vem nas latas ou garrafas pet. Ainda que não seja do meu agrado, o de garrafa é bem melhor pois tem sabor de guaraná e as bolhas de gás são menores, pequenininhas, não fazem lacrimejar e não dão soluço (isso só acontece comigo?). No terceiro gole fiquei meio hipnotizada pelas tais bolhinhas no copo. Pareciam pessoinhas muito apressadas, correndo atrasadas do fundo do copo para a superfície, frenéticas e intermináveis. Entre as garfadas do risoto fiquei olhando a garrafa de vidro que caiu em desuso. Ainda é verde mais o rótulo mudou, ficou menor e não tem mais a incrição "Champagne", os recortes no vidro são quase imperceptíveis. Antes eram profundos, pronunciados e me lembravam de grandes janelas de catedrais.
    Quando as garrafas de Guaraná de 1 litro me remetiam  a essas imagens também consumíamos pouco refrigerante em casa. Era uma item de luxo reservado aos finais de semana ou festas. No nosso caso uma garrafa era aberta no almoço de sábado cujo cardápio não variava do frango assado comprado na venda da coreana, arroz, farofa e maionese, para dar liga. Assim como hoje a pizza indica para mim que é sexta-feira, naquela época o frango assado e o Guaraná indicavam que era sábado. Impossível dizer em que momento isto virou um hábito, mas é certo que havia também um cardápio para nossas mentes pois especificamente nestes almoços dávamos continuidade às aventuras de Glorinha e Arnaldo, um casal paladino habitante de um lugar em nosso imaginário, sempres às voltas com o Capistrano, um vilão sem escrúpulos que tentava destruir todos os bons planos dos heróis, como, por exemplo, acabar com o "Jabirito". Veja como tudo já era muito avançado nos anos de 1980: Jabirito era um alimento mágico capaz de se trasmutar naquilo que você desejasse. Seria uma versão melhorada da água. Não tinha cor ou cheiro, mas era suficiente colocá-lo na boca e imaginar o que quisesse. Se o seu desejo fosse o de comer doce de abóbora com côco, daqueles feito em tachos, mexidos horas a fio com uma gigantesca colher de pau, bastaria comer um Jabirito para sentir todo este sabor. Um detalhe: Jabirito era muito nutritivo. Lógico que o Capistrano queria impedir o sucesso deste produto revolucionário, mas Arnaldo e Glorinha sempre conseguiram derrotá-lo.
    Aos poucos fui saindo da garrafa verde de vidro. O risoto acabou. Os heróis e o vilão continuam lá naqueles anos. Um vida inteira transcorreu desde então. Quanta, quanta coisa já vivemos e tenho a sensação de que estamos somente no início e de que ficará cada vez melhor. Não sei explicar. Sou invadida  por uma torrente de gratidão. Ainda que no final das contas estejamos sozinhos em nossa caminhada evolutiva, poder contar com apoio aqui e ali, para pequenas e grandes coisas, faz os obstáculos não terem tanta importância e isso dá um calor gostoso no peito. É bom caminhar ao lado de outras pessoas.
    Acordei hoje ainda um tanto nostálgica. Aí lembrei que exatamente neste dia faz um ano que o Plinplin se foi (Plínio, a mamãe te ama! Do mesmo jeito!) e então fiquei emotiva, além de nostálgica. Mas nada que emperre, só que faça nascer uma admiração: já tivemos muita coisa boa por aqui! Dias assim costumam vir acompanhados de trilha sonora. A minha está aí abaixo e eu a dedico especialmente para o Baltazar.

Ouça e sinta...

http://youtu.be/uu8iWSL3tDk 




A mistura que dá vida.

    Todos nascemos neste mesmo mundo. Ainda que umas cabeças habitem outros planetas nossos pés estão fincados na Terra. Todos, ou quase todos, damos os primeiros passos mais ou menos na mesma época, mas andamos de forma muito diferente uns dos outros. Cada qual tem seu passo, seu ritmo, seu tempo. Cada qual tempera seu caminho com as cores e as formas que mais lhe agradam. Dessas temperâncias tão pessoais saem misturas únicas e admiráveis.
    Diante de um mesmo fato, variadas são as decisões. Uns param e depois seguem, uns caem, uns seguem em frente olhando para trás, outros seguem em frente olhando para frente, outros nem lembram o que fez atrasar a caminhada. Quais são os ingredientes que resultam na determinação de seguir sem se importar se é difícil ou fácil, bonito ou feio? Não sei e queria muito descobrir. Queria muito sentir a todo momento esta certeza de que a vida sempre vence, de que realmente nada mais importa enquanto estivermos ao lado dos nossos amados. Acho lindo isso. Verdadeiro. Admiro quem consegue. Admiro a clareza e a certeza, a determinação inconteste.
    Quem sabe o segredo desta mistura não se dá por vencido. Nunca. Leva golpes fortíssimos, reflete com calma e retoma a luta. "Enverga, mas não quebra". Quem tem esta mistura emana energia, energia de vida, e ainda que seja bem altivo sabe ser muito humilde sempre que for preciso. Acata orientações, recomendações, faz sacrifícios e privações com um sorriso no rosto e um olhar que diz "deixa comigo". Quem tem energia de vida tem a paciência para esperar a evolução de tudo aquilo que não pode controlar e aproveita todas as oportunidades para aprender e para melhorar, ainda que seja "só" a cabeça. Quem tem energia de vida sabe muito bem quais são os seus valores e não perde tempo com o que não esteja de acordo com isso. Também não perde tempo com assuntos periféricos, detalhes alegóricos. Não se preocupa nem um milímetro com o que os outros vão pensar pois nada disso importa mais do que a sua felicidade que, aliás, sabe muito bem onde está.
    Quem tem energia de vida não sofre de arrependimentos pois não deixa de fazer o que acha que é certo. Se errar, aprende com erro e tenta quantas vezes precisar até conseguir. Quem tem energia de vida sabe a hora de calar e a hora de falar. Sabe falar as verdades duras de forma macia, sempre que for preciso. Quem tem energia de vida sabe que o amor é o que faz a vida e escolhe este lado para ficar. Não se importa com os obstáculos pois sabe que aquilo que não mata, fortalece.


*Texto dedicado para D. Júlia que arrasa na atitude.*

O que fazer no seu tempo livre.

    Não me venha com aquela conversinha enferrujada de "não tenho tempo", pois provado está que arrumamos tempo para tudo aquilo que é do nosso interesse. Enfim, se você consegue administrar a rotina a seu favor e se libertar do grilhões dos questináveis valores nos quais estamos em conserva há décadas, faça o seguinte: desça a serra. Sim, pegue o carro e siga para o litoral. Assim que botar o pé, ou melhor, as rodas na estrada desligue o piloto automático da sua mente e repare em tudo, inclusive no trânsito. Veja como a represa é bonita, filosofe sobre a quantidade absurda de caminhões e indague como seriam as coisas se as ferrovias não tivessem sido abandonadas. Dê uma olhadela para o céu só para constatar que os pássaros voam mesmo naquela curiosa formação em "V" que aparece nos desenhos animados e lembre-se que leu um e-mail que falava sobre isso e fazia algum paralelo descartável com os problemas da vida.
    Depois de pagar o doloroso pedágio (afinal isto não é uma história da Pollyana) olhe a vegetação ao redor e diga para você mesmo "Puta que o pariu! Como a Mata Atlântica é linda! Vai se ferrar!" e pense em como deveriam ser os locais por onde está passando antes da chegada da civilização. Começe a descida propriamente dita vendo que neblina pouca é bobagem e mergulhe na nuvem branca, densa e misteriosa que esconde o horizonte. Túneis, túneis, túneis. Neles não há neblina e também não há graça alguma. Mas quando acabam há aquele tapete verde de copa de árvores que convida a um stage diving daqueles (não é possível que ninguém tenha feito isso até hoje). Então siga as placas em direção a Santos. Repare como a paisagem se transforma. Desligue o ar condicionado, abra o vidro e sinta que o ar de lá é totalmente diferente do daqui. Outro clima. Siga as indicações para Praias. Lembre-se que ali as pessoas dirigem com mais calma e quem está fora de contexto é você. Relaxe! Isto é um passeio e não um rali.
    Agora que já reparou como exitem belos prédios antigos em Santos e já cumpriu seu percurso até as praias, procure a Av. Ana Costa. Nem se preocupe se não levou o GPS. As indicações surgem naturalmente e você vai se achar rapidinho. Logo que entrar na avenida verá ao seu lado direito o Shopping Balneário. Deixe seu carro nos estacionamento, suba as escadinhas, siga para a Praça de Eventos e...

...Tchanam! Você acaba de chegar na Mostra dos nossos quadros de Smalti. Assim, fácil, fácil!
    Olhe tudo com calma porque cada quadro merece uma boa encarada. Aliás é muito interessante ver as obras bem de perto, quando se revela a estrutura da composição da cada uma.



    Depois olhe de longe, porque aí a mágica também acontece, a obra se revela.
    Tem este lado...

...e este outro também. Esta Mostra está um pouco diferente daquela que ocorreu em março, em Curitiba. Alguns quadros de lá não vieram para cá e há quadros aqui que não estavam lá. Esta exposição foi organizada pela Helena Sundfeld sob as asas protetoras da nossa querida Renata Ghellere que todo mundo já conhece porque eu não paro de jogar confetes nela. A Helena também fez o curso da Orsoni ano passado. Ela tem ateliê em Santos, é artista experiente e dá aulas também. Além da excelência técnica, os trabalhos da Helena trazem uma riqueza de detalhes quase insana. Portanto é bom levar seu babador.
   
   Na subida das escadas há um quadro da própria Helena que convida à apreciação e ao aconchego.

    Se escolher subir pelo outro lado, é um quadro da Renata que dá as boas-vindas. Pare na frente desta obra pelo menos uns dez minutos. Além de ver a minúcia e a técnica da artista você entenderá o que o Smalti pode proporcionar em termos artísticos graças à sua interminável gradação de tons e cores.









E ali no meio...

...está o réptil querido da mamãe! Matei a saudade da minha amada cobra que sobe.

    A exposição segue até o dia 30/04. Quem vai para o litoral passar o próximo feriado já tem uma ótima sugestão de passeio para abrir a mente a cores, formas e conceitos únicos.
    Para aqueles que farão o famoso bate-volta, sugiro que, após toda esta apreciação você saia até a Av. Ana Costa (a pé, pelo amor de Deus!) e dê alguns passos até chegar à orla. Respire! Respire bem fundo este ar úmido do mar. Pise na areia e veja...

    Santos é uma cidade muito bonita em todas as estações. Fique por aí o quanto quiser pois neste lugares o tempo não passa tão depressa. Aproveite, sinta, desfrute.
    Quando voltar para o shopping, tome um frozen natural com calda de amora em homenagem à sua avó que se curou das pedras na vesícula graças à água do Pai Eterno. Se você não tem uma avó nestas condições pode escolher outra pessoa para fazer a sua homenagem. Incluindo você!
    Agora resta voltar para casa com a alma leve e a mente totalmente desobistruída e descomplicada. Mas se você não quiser mais voltar, não tem problema. Fique em Santos mesmo e aproveite para se aventurar no mundo do mosaico. Precisa de uma professora? Pois não! Anote aí: Helena L. O. Sundfeld. Rua Rio Grande do Norte, 70. Bairro Pompéia - Santos. Telefones: (13) 3028.0004 e 9756.0407. E-mail: helenaormonde@hotmail.com
    No fim das contas só não se diverte quem não quer!

Vaidade.

    Não me refiro ao tipo de vaidade que nos leva a usar maquiagem, vestir uma roupa bonita ou usar creme hidratante. Falo do tipo que pode empatar a vida de alguém, o tipo de vaidade que pode viciar a índole: o apego aos elogios. Fiquei meditativa sobre isso ao observar pessoas se transformando, passando por cima de tudo à frente, deixando a ética láááá para trás com o objetivo certo de colher elogios, estufar o peito, empinar o nariz e apontar o dedo para indicar insuperáveis façanhas. Seriam eles, os elogios, uma forma de reconhecimento? Sinceramente tenho minhas dúvidas. Tendo a acreditar que são palavras vazias e nada mais.
    O dependente vaidoso direciona suas ações não para a produtividade mas para a coroa de louros e padece neste ciclo, estagnado. Geralmente o dependente torna-se agressivo se acredita que sua obra é ameaçada. Por quem? Por alguém que teve uma idéia melhor ou simplesmente trabalha melhor porque não está perocupado com o que vão achar. Esta é a grande roubada do viciado vaidoso - suas ações não são genuínas, mas guiadas na suposição da opinião alheia. Triste isso! Muito triste! É uma vítima de si mesmo numa eterna espera de aprovação. Necessita de  estímulos exteriores constantes porque intimamente não sabe se gosta mesmo de si. É ciente de seus defeitos, mas encara-os não como um apsecto natural, inerente ao ser humano. Enxerga falhas abomináveis, imperdoáveis e torce secretamente para que ninguém as descubra jamais ou deixará de ser tão especial como acredita (ou gostaria de) ser. O adicto da vaidade não desenvolve sua vida sobre aquilo que lhe traz convicção e vai para onde o vento soprar.
    Uma parte deste vício tem sua origem no foro íntimo. Mazelas emocionais muito comuns. Outra parte está presente no grande caldeirão cultural no qual estamos imersos, de forma que tornou-se raro encontar alguém que cultive qualquer atividade sem estar à sombra da auto-afirmação. Fora dos holofotes há uma grande vazio e não se está isento de ter uma dor de barriga ou, pior, o coração partido porque colheu dúzias de elogios no dia anterior. Se somar a isso nossa convenção cultural de não dizer a verdade por medo de magoar alguém, tudo fica mais vexatório, pois de toda a colheita só uns dez por cento dos agraciamentos eram sinceros.
    Em maior ou menor grau, somos todos dependentes. Neste campo estéril seguimos incertos de nosso valor, dependentes de parâmetros alheios, incapazes talvez de encontrar nossa real grandeza, avessos ao fato de que elogios, além de não pagar contas, não conduzem ao crescimento interno.


2 em 1

    Sim, sim, sim! São dois deleites em uma única tacada. O quê? Você pergunta. Respondo: reutilização + mosaico. Dentre as atitudes sustentáveis acho a reutilização fascinante (a reciclagem já está no DNA; é como tomar banho ou escovar os dentes). Primeiro porque acredito que antigamente a maior parte das coisas tinha uma qualidade pensada para durar a vida toda, logo não faz sentido descartar algo deste tipo. Segundo porque acredito que o mundo não suporta mais o nível de consumo atual. Simplesmente não dá. Terceiro porque cutuca e mexe com a criatividade.
    Muito bem! Há uns 8 meses eu e Baltazar, meu fiel escudeiro, estávamos num desses bazares da pechincha que vendem de tudo e tudo usado, bem usado. Enquanto o Baltazar pechinchava um conjunto de LPs entitulado "Método mágico para aprender alemão" (oi???), eu vi uma mesinha de centro. Estava ali inteirinha, com seu tampo redondo, um pouco claudicante é fato, mas impecável. O preço pedido ali equivalia ao MDF de igual tamanho se eu fosse comprar para fazer um tampo de mesa. Não tivemos dúvida! Levamos a mesinha, o LPs que ensinam alemão (oi???) e um compacto da história da Chapéuzinho Vermelho narrada pelo Sílvio Santos (OI?!?!?!?!). 
    A idéia inicial era fazer uma mandala e no dia seguinte o desenho estava pronto. Obviamente, como acontece com tudo que é para a gente mesmo, coisas e mais coisas deixavam a mesinha para quando desse tempo. Nunca dava. Ela ficou por ali, ora atrapalhando, ora servindo de aparador para ondas de bagunça. Onda vai, onda vem, finalmente veio o momento de pensar sério na bichinha. A esta altura já tinha brochado totalmente da ideia de fazer uma mandala. Essa coisa de fazer florzinha para enfeitar vaso, peixinho para enfeitar banheiro e mandala no que é redondo às vezes me enche o saco. Somado à revolta "artística", Baltazar achou que uma mesinha quadrada nos serviria melhor afinal não tínhamos (após quase oito anos de cohabitação) uma mesa para o telefone. A idéia inicial, da mesa de centro redonda com mandala, foi por terra quando a mesa de pallet surgiu no final do ano passado. Como ela cumpre e muito bem a sua função só faltava mesmo a do telefone.
    Deste ponto em diante foi rápido. Baltazar sacou o tampo e cortou as laterais. Pensamos no motivo e , chazan!, meu cuspe caiu na testa. Telefone seria o tema para a mesa do telefone. É, serviu para eu calar a minha boca. Então esboça daqui, passa pra lá, começa a montagem, faz uns ajustes na idéia original, continua montando, monta tudo (ai, que lindo!) e rejunta. Acabamento de boate nas laterais e mais umas finalizações na parte de baixo. Não é porque ninguém vai olhar ali que precisa ficar com cara de bolo de aniversário pisoteado, concorda? Enfim, a belezinha está lá na sala exercendo sua nobre função de sustentar um telefone, um bloco de anotações e uma caneta que certamente não irá funcionar naquele momento crucial de se anotar um recado. Obviamente acho que ficou uma graça e o que mais gosto disto é que resgatamos um móvel ao qual demos não só uma nova vida, mas também a nossa cara. De quebra, se você for pensar lá atrás, ajudamos uma instituição quando adquirimos a mesa no bazar. Tomo mundo fiou feliz! Vamos às fotos?


    Este é o tampo com o motivo "original" escolhido por nós. O Baltazar tinha sugerido o logotipo da CTBC, mas achei corporativo demais, monocromático demais.











    E aqui à direita uma visão ampla da pequerrucha, toda faceira e ambientada. Tem um ar retrô, não tem?

    Eu sugiro que, quando você precisar de algo em casa, dê uma olhada nesses bazares pois vale a pena. Isto não é novidade alguma. Decoradores e designers já garimpam nestes lugares há tempos pois sabem que as peças antigas, além da boa qualidade, tem muito mais estilo. Para os que querem experimentar, aqui em São Bernardo costumamos ir nas lojas da Casa São Vicente de Paulo, cuja renda oriunda das vendas destina-se a ajudar nas despesa do Asilo mantido pela Sociedade São Vicente de Paulo, que abriga hoje 74 idosos. O endereço é Estrada dos Alvarengas, 999, Bairro Assunção. Há uma outra loja no bairro de Rudge Ramos, no largo São João Batista, atrás da igreja. Se quiser saber mais sobre a entidade acesse www.asilossvp.webnode.com.br

Para a minha Preta.

    A minha Preta não é só preta. Mistura todas as cores, menos nos olhos, cristais laranjas, faroletes incandescentes.
    A minha Preta veio de sopetão, quando as lágrimas pelo Plínio ainda rolavam grossas e abundantes. Pequena, minúscula, calma, charmosa. Partiu o coração do antigo humano que a acolheu para continuar a ter um lar.
    A minha Preta se sentiu em casa desde o primeiro instante. Ocupou todos os espaços e se empenhou em conquistar todo mundo, especialmente sua legítima irmã postiça.
    A minha preta é destrambelhada, se mete em buracos de onde não sabe sair. Faz de tudo uma festa e como manteiga de manhã.
    Como eu, minha Preta às vezes entra em crise sem saber o que quer. Mas quando ela descobre é despreocupada, autêntica e espontânea como eu gostaria de ser.
    Quando vai ao médico, a minha Preta é feroz! São vários braços e mãos para uma vacina de rotina. Quem só a conhece nessas horas não sabe que à noite, no aconchego do cobertor felpudo, a minha Preta busca com carência voraz, as tetas da mãe que não foram sugadas pelo tempo necessário na época necessária.
    A minha Preta tem muito amor para dar a quem quiser receber e faz do jornal cheio de rejunte sua confortável cama forrada de seda só para ficar ao meu lado.
    Quando está no sol, a minha Preta toma banho com sua língua tão rosa, tão úmida, tão suculenta, bailando para lá e para cá, num carinho de fazer gosto!
    A minha Preta não é só preta e também tem vários nomes. Magdalena de batismo. Magdá, Magdazinha, Madaroca. Nenê, Barata, Cabeçote. Farofa e Pereba. Atende por todos e acho que não tem noção de que ela é a menina que curou o meu coração.


Abaixo a ditadura...

...da felicidade! Isuportável é como eu descrevo a obrigação de ser feliz. Trata-se de um surto coletivo oriundo não sei de onde, capaz de tapar olhos e ouvidos, além de dissolver o cérebro. Quem é acometido desta doença fica incapaz de perceber a vida como uma sucessão de eventos naturais, como sempre foi. Choveu? Ó desgraça! Fez calor? Que castigo! Alguém está triste? Socorro! Socorro! Socorro! Ponham em quarentena, chamem o Papa, internem, façam qualquer coisa, isso não pode!!!!!! Todos devem saltitar desmotivadamente, diariamente, afinal a vida é um seriado do canal Warner.
    Há vários anos, em um livro que não consigo recordar o nome, vi a citação de que aceitar a dor, e até mergulhar nela, seria um caminho para o bem-estar. Hoje entendo melhor este ponto de vista quando observo o desespero para se alcançar uma vida irreal, onde tudo é perfeito. A dor é sistematicamente negada e eu entendo por dor qualquer fato que não aconteça dentro dos limites da nossa vontade egoísta. Uma grande parte do sofrimento vem da luta contra a realidade, da resistência aos fatos. Que ironia, não? A obrigação de ser feliz e perfeito gera uma ansiedade absurda e anda-se em círculos pegando tudo que estiver pela frente para tapar os buracos da alma. Ridículo! RIDÍCULO!!!!!
    Pense se as coisas não se tornariam mais simples se aceitássemos que no verão faz calor mas pode chover, que no inverno faz frio e tem bem menos horas de sol, que na primavera e no outono temos todas as estações em um único dia e, não vai ter jeito, você terá que sair com um agasalho a tiracolo. Isto é natural! A vida não deixa de acontecer por estes fatos. Também é natural ficar resfriado se não se alimentar e descansar bem. Aliás é natural ficar cansado e desejar ter horas e horas de sono. É natural desejar comer chocolate e se arrepender depois, é natural ganhar quilos a mais quando a matemática de energia consumida e energia gasta não fecha. Tudo isso faz parte da vida. Sempre fez e não significa uma anomalia de caráter. Nem sempre há um remédio para tudo e muitas coisas simplesmente são o que são. Além do mais, o remédio trata os sintomas e não as causas.
    Então explico como o negócio vai funcionar: apesar de acreditar que o amor deveria ser a pauta de nossas decisões, confesso que não amo a todos. Sim, é isso mesmo. Tenho afinidade com algumas pessoas e com outras tenho que fazer esforço para conviver. E tudo bem! Sabe por quê? Porque isto faz parte da vida e é natural! E tem mais: há dias em que tudo é muito claro e simples e há dias em que tudo parece não ter solução. Neste dias é bem provável que eu saia de casa sem maquiagem, como cenho muito franzido. É provável que eu só queira usar tênis ao invés de sapato, pois já me sinto suficientemente desconfortável. É muito provável que não "curta" tudo o que aparecer pela frente, aliás é possível que eu nem veja e-mail pois não aguento mais menssagem  em Power Point. E tudo bem!!!!! Porque há outros dias nos quais abrirei todas as menssagens e chorarei de emoção em cada uma delas, jurando ser uma das coisas mais lindas que já li. Nestes dias serei capaz que reconhecer o esforço que cada indivíduo faz no seu próprio caminho evolutivo e só isto já será mais do que suficiente para mim. Então sairei de casa vestida para salvar a humanidade e verei poesia em tudo. Terei sempre um sorriso nos lábios e pensarei em algo que torne a vida de alguém melhor.
    Acontece que não posso prever quantos dias serão bons e quantos dias serão ruins. Se existe uma regra dizendo que você só pode ficar com cara de bunda por três dias no máximo, desculpe, mas sinto-me na obrigação de mandar esta "etiqueta" à merda. Sinto-me no direito não só de ostentar uma grande cara de bunda como de mergulhar nessa sensação bundal o tempo que for preciso. Pode ser que eu aprenda alguma coisa sobre mim pegando minhas sensações com a duas mãos e olhando-as bem de frente. Acho, sinceramente, que não sairei do lugar se me recusar a vivenciar os maus momentos. Acredito que a vida é o que acontece conosco nesse exato instante e é nisso que vou botar as minhas mãos, tendo o cheiro, a cor e o formato que for. Sinto muito, muito mesmo, se este não é o seu ideal. Aliás, talvez não sinta tanto assim afinal...não é problema meu.


    

Olhar desavisado.

    Alguém já se perguntou porque olhamos pelas janelas? Sabemos a razão de sua existência, mas o que nos faz, em determinado instante, olhar para fora? Foi este ato inconsciente que guiou o meu olhar até a calçada do outro lado da rua. Meio da tarde, sol, vento e uma menina aparentando seus 7 anos andava ao lado do pai. Não exatamente ao lado, mas em todos os lados, saltitando com suas botas cor-de-rosa, outorgando um balanço frenético às suas maria-chiquinhas. A sua alegria justificava-se (como se alegria precisasse disso) pelo simples fato de estar na presença do pai a quem abraçava repetidamente, apertando forte seu rosto sorridente contra aquele corpanzil. Vejo-a com alguma frequência, pois sua família mora num casebre existente em um terreno da rua que já abrigou um estacionamento e aguarda alguma construção megalomaníaca. Nas maioria das vezes, vejo-a acompanhada da irmã menor e da mãe, que grita, num volume audível a três quarteirões, seus desejos, orientações e proibições. Nunca observei a garota tão espontânea na companhia da mãe, por isso concluí que a presença do pai, que raramente vejo e no meio da tarde, era o que causava tamanha alegria.
    Claro que em milésimos de segundos algumas lembranças da minha própria infância vieram à minha mente, como montar cavalos imaginários na sala, ao som da vibrante música clássica, cuja orquestra, tão real quanto os meus cavalos, era regida pelo meu pai. Ao mesmo tempo divaguei sobre a relação especial que as meninas constroem com seus pais e então despertei. Tem alguma coisa errada...ele não corresponde! Ele não a olha, não a vê. Ela pega em sua mão, mas ele não pega na dela. Ela o abraça, mas ele não a braça de volta. Não lhe faz um afago sequer. Quase grito aqui do alto "Meu senhor, abraça ela também! Olha como ela pede o seu afeto! Abraça a sua filha!". Sabe aquelas coisas que você não consegue para de olhar ainda que te machuquem a visão? Então. Acompenhei a cena até que dobraram a esquina. E eu fiquei na janela segurando as partes despedaçadas do meu peito. Ele, aquele pai, está perdendo o melhor da festa! Se o prejuízo fosse só dele, azar o seu, mas sabemos que não é assim. Me pergunto o que será que se passava na cabeça do sujeito que o tenha tornado indiferente aos apelos tão positivos da filha? Que problemas o afligem para que a menina, a quem ajudou a trazer à vida, lhe seja invisível? Penso que talvez possa ser ainda pior. É provável que ele não tenha consciência de nada disso, que ache que filho é isso mesmo, quando é criança enche a paciência e depois que cresce melhora. É bem plausível que ele nem saiba porque tem filhos, não foi uma escolha feita, apenas um fato que aconteceu. Dentro de tantas hipóteses fiquei curiosa para saber o que o sujeito acha da vida. O que será que é a existência para ele? Se a visão da filha alegre na sua frente não faz o seu dia brilhar, o que será que faz?
    Meus pensamentos deram a volta no planeta Terra umas três vezes até que me consolei com o fato de que eu estava lidando com suposições. Que a garotinha estava feliz, isto é fato. Mas pode ser por qualquer outra coisa como a promessa de um sorvete e não a presença do pai. Pode ser que, na verdade, ela esteja se lixando para ele, pois gosta mesmo é de sorvete, ou de sair no meio da tarde sem a mãe gritando, ou que suas botas sejam novas e esteja alegre em poder usá-las numa tarde qualquer. Me doeu que ele não tenha participado da euforia dela. Acho, e é coisa minha, que não devemos desperdiçar oportunidades de mostrar e retribuir afeto. Só isso. Ou não.
    Quanto ao hábito automático de olhar pela janela, acredito que no futuro estes espaços nas paredes serão dotados de sensores personalizados e um sinal sonoro irá alertar os distraídos sobre cenas impróprias.