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"Eu quero ter um milhão de amigos..."

    É uma dádiva. Repare bem. Já na nossa tenra infância passamos a cultivá-los. Ainda não sabemos ler mais do que algumas sílabas, mas já sabemos que a escola nos reserva mais do que conhecimento, nos proporciona amizades. Estas primeiras, que surgem um pouco depois que saímos das fraldas, são particularmente singelas. Do que consigo lembrar, não se tratava de um processo que caminhava em etapas. Parecia algo instantâneo, como se já soubesse que aquela outra criança era para ser o amigo. Desde aqueles dias já passamos a entender que a pessoa amiga é uma espécie de irmão que escolhemos,  numa relação de afeto espontâneo, não racionalizado. E intuitivamente vivenciamos a cumplicidade, a compreensão e também o perdão. Depois das mães, são os amigos que perdoam mais rápido e mais sinceramente as nossas pisadas na bola.
    Vamos crescendo e percebemos cada vez mais a importância destas pessoas em nossas vidas. Eles transformam um dia que era para ser mais um em uma ocasião memorável. Não por realizarem algum feito faraônico, mas simplesmente porque estavam ali ao nosso lado, fazendo com que nos sentíssemos aceitos, incluídos, respeitados e amados. Os amigos são a síntese dos requisitos para a felicidade por meio da simplicidade. A relação que temos com eles desde sempre nos prepara para as outras que virão com tempo. Aquela história de cultivá-los assim como a uma plantinha, colocando água sempre que necessário, adubo e luz na medida certa, vamos treinando com os amigos.
    Algumas pessoas conseguiram conservar amizades desde a infância. Outras perderam contato e fizeram novas em cada nova fase da vida. Mas é interessante notar que conseguimos nos lembrar muito bem dos amigos, mesmo que não os vejamos há décadas. Sempre sobra uma admiração, um respeito e um carinho muito grandes. Hoje podem ser pessoas totalmente estranhas e mudadas, mas que não deixamos de dispensar certa reverência porque nos ajudaram a ser quem somos hoje, fazem parte da nossa história.
    Eu particularmente acredito que bons e verdadeiros amigos não dão em pencas, mas são flores muito especiais que aparecem de tempos em tempos. Afinal não é qualquer colega que diz o que precisa ser dito porque sabe que será o melhor para você, mesmo que custe um tempo de cara fechada até tudo voltar a ser o que era antes. É uma relação onde você dá sem esperar nada em troca, onde a alegria do outro é também a sua.
    Uma das tristezas dos dias atuais é que o tempo passa muito rápido e parece que vemos nossos amigos cada vez menos. A vida de cada um também segue seu próprio curso e então cada amigo está em um canto do planeta Terra. A distância dói um pouco, mas quando você conversa com aquela pessoa, após meses ou anos, e tudo flui como se tivessem se visto semana passada, há um arrebatamento de afeto e gratidão. O dia está ganho e a vida fica mais colorida. Não sei qual é a explicação para este vínculo tão especial, mas a boa notícia é podemos ser amigos de todo mundo. Aliás acho isso importante: ser amiga do marido, da mãe, do pai, do irmão, do primo. Não é algo exatamente óbvio porque são relações diferentes, mas trazer este elemento sublime da relação que se tem com o amigo para as outras que desenvolvemos na vida torna tudo mais rico e mais prazeroso.
    Eu entendo o Roberto Carlos quando ele diz que quer "ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar". Apesar de soar como uma maravilha ainda prefiro me concentrar nos poucos e bons porque estes já dão esta sensação de preenchimento, de ter um milhão de corações dentro do nosso.



    Aos todos os meu queridos amigos com os quais pude dividir a minha vida e com os quais tive o privilégio de compatilhar das suas, meu obrigado com um sorriso largo e um abraço macio e quentinho. Não importa se não nos vemos há muito tempo. A vida não separa coisas que transcendem.

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