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Síndrome de operadora de caixa.

    Juro que me segurei semanas a fio, esperando mudar minha própria percepção. Não consegui, então preciso me expressar. Por já ter trabalhado com atendimento ao público, presto muita atenção em quem está desenpenhando esta tarefa. Vejo de tudo: a postura, a apresentação pessoal, o tom de voz, a maneira de falar, a forma de seguir o protocolo de atendimento e...o olhar. Esta desgraçada janela da alma capaz de jogar no lixo todo esforço que se faz tentando tranformar tripas em coração conta detalhes íntimos e estarrecedores sobre o observado.
    Meu inconformismo vem da constatação de que 90% das pessoas que observei dizem, por algum dos itens analisados, senão por todos, que não gostam do que estão fazendo. Em um supermercado a minha precisa estatística sobe facilmente para 99%. Esta semana mesmo a funcionária, com a palavra "treinamento" estampada bem grande na camiseta, agia de forma tão apática que achei que a qualquer momento seria tomada pela própria inércia e viraria uma estátua de pedra, mesmo sem ter olhado diretamente nos olhos da Medusa. Fiquei me perguntando se alguém que está sendo treinado não conserva algum entusiasmo a fim de garantir e efetivação na vaga. Resposta: não. Se ali todo mundo se comporta daquela maneira, não fará diferença alguma. A dúvida seguinte foi se o treinamento era, não para operar o caixa, mas sim para morrer em vida. Pareceu mais plausível. Política da empresa talvez.
    Nos dias em que acordo com a Madre Teresa incorporada, tenho vontade de tomar aquelas mão de unhas roídas ou maxi compridas e decoradas com glitter, olhar naqueles olhos vazios e perdidos e dizer "Sinto muito por você odiar seu trabalho". Nos dias em que acordo com Michael Douglas, no seu personagem do filme "Um dia de fúria" incorporado, tenho vontade de sacudir aquela pessoa pelos ombros e dizer " Acorda, criatura! Você tem escolha! Não precisa gastar a sua vida no que não gosta!". Obviamente não faço nem um e nem outro, pois tenho uma teoria de que gente apática morde sem motivo. Contudo é inevitável pensar nestas pessoas que não conseguem ver além. Pegam os valores que estão fltuando por aí e aplicam à própria vida sem pensar se servem para elas ou não. E assim ficam habituadas ao sofrimento auto-imposto de uma forma tão indelével que todas as suas escolhas seguintes seguem a mesma falta de padrão. Pior, quando surge uma oportunidade de cultivar algo que lhes traga crescimento e lhes amplie o horizonte, irão recuar instantaneamente entoando o mantra dos que não se valorizam: "não tenho tempo". E é verdade, pois seus dias estão minuciosamente divididos em atividades que lhes geram desprazer e improdutividade.
    A tristeza disso é ver pessoas que não acreditam que têm potecialidades para desenvolver e que podem levar uma vida inspiradora e repleta de realizações. Não se trata de ter este ou aquele emprego, mas de estar aonde não se quer. E que ninguém me venha com com aquela repugnante frase feita de que "se fosse coisa melhor não trabalharia nisso". Se essa arrogante asneira sem tamanho fosse verdade, presumo que todos aqueles que ocupam o topo da escala hierárquica sejam baluartes irretocáveis para a humanidade. Definitivamente não é por aí. O comportamento lastimável ao qual me refiro também desfila de carro, com roupas alinhadas, arrumado e perfumado. O que eu gostaria de ver são pessoas capazes de extrair tudo o que sua função exige e ir um ou dois passos adiante. Um bom exemplo disso está no vídeo, que circula pelas redes socias, do agente de trânsito do Espírito Santo. Aquele sujeito faz tudo o que a função exige e mais. Ele espalha alegria com sua forma educada e descontraída de orientar os cidadãos. Certamente o maior beneficiado é ele, mas a sociedade onde ele atua colhe grandes frutos graças ao seu comportamento. Também tem o vídeo do pipoqueiro empreendedor que é mais um bom exemplo.
    Mais angustiante do que ver pessoas que decretam a própria sentença de morte é eu não saber o que fazer quanto a isso. Talvez eu deva trabalhar nesta questão do medo de levar uma mordida da operadora de caixa. Sim, creio que devo me encher de coragem e dizer alguma coisa da próxima vez em que me deparar com uma figura dessas. Claro que não vamos iniciar uma sessão de análise ali, no caixa, mas quem sabe eu  consiga sensibilizá-la para a questão utilizando a sabedoria do querido elfo Baltazar: "Querida, é perigoso você ficar por aí com esta cara de bunda porque sempre tem um cara de pau por perto". E não é?


Para assistir aos vídeos:
- Do agente de trânsito acesse www.autoentusiastas.blogspot.com, postagem do dia 28/09 com o título "Extra: exemplo de agente de trânsito".
- Do pipoqueiro, no Youtube digite "pipoqueiro empreendedor" no campo de pesquisa.

Um comentário:

  1. Adriana, maravilhoso esse texto sobre a falta de alma, de empenhamento, de coragem, em última análise.
    E como escreve bem!!!

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