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Quem me ensinou a amar.

    No meio de um calor digno de sauna de clube, carrego uma sacola ultra pesada. Esse seria o caso de pegar o elevador, mas como apenas um está funcionando tomo coragem para subir os quatro lances de escada. Isto faz meu calor aumentar ainda mais, meu humor deteriorar ainda mais, meu coração acelerar ainda mais e minhas mãos arderem no atrito com as alças da sacola. Transponho as portas corta-fogo do andar e quase desabo no hall. Giro a chave na porta que sempre pega embaixo quando o tempo está mais úmido. Então pela fresta que se forma aparecem dois focinhos, um embaixo do outro. São o Plínio, focinho de cima, e a Antônia, focinho de baixo, ansiosos para verificar o que eu troxe. Abro mais a porta e, antes de se dedicarem exclusivamente à sacola que trago aos trancos, se colocam a dar as boas-vindas. O Plínio vai girando a cabeça para baixo até tombar todo o corpo. Fica com seu barrigão voltado para cima totalmente à minha disposição. Ele sabe que não resisto àquele mar de pelos branco e caramelo, macios, felpudos. Largo a sacola e me ajoelho para desfrutar deste regalo. Tão logo começo a passar a mão bem devagar naquela pança gigantesca já sinto seu ronronar. Ele fecha os olhos, completamente entregue. Sem perceber, tenho um largo sorriso no rosto, o ardor das mãos desapareceu no contato com os pelos e meu coração já não está acelerado. Enquanto isso a Antônia está contado tudo o que fez na minha ausência ao mesmo tempo em que se esfrega nas minhas pernas, fazendo e refazendo o símbolo do infinito. Essa "recepção" acontece em vários momentos do dia. Não só quando chego em casa, mas também quando saio do banho, quando vou do quarto para a sala...eles não economizam e seguem este ritual com todas as etapas. Ao observar o efeito que isto tem sobre mim, me sinto em dívida com eles. Parece que dou muito pouco e ganho muito. O que posso fazer por eles? Comida, água fresca, banheiro, abrigo e uma visita ao veterinário todos os anos. Eles sabem que é só isso que tenho para dar, mas me tratam como a pessoa mais especial do planeta. Ouvem o que tenho a dizer, se interessam pelo meu trabalho, pelas minhas leituras, pelos filmes que assisto na TV, me esquentam quando está frio, estão lá a todo momento. E mais, não me olham estranho se ganhei alguns quilos, não fazem greve de silêncio se naquele dia não pude lhes dar toda a atenção e se esforçam muito para que eu os entenda. Sim, eles não esperam que eu leia seus pensamentos. Simplesmente fazem o que puderem para se comunicar. Vale, por exemplo, decorar em que gaveta fica guardado o sachê do pestisco que só ganham aos finais de semana. Assim, se eu esqueço de dar, um dos dois me lembra que é sábado.
     É curioso como funcionam as relações interespécies. Elas apelam para o essencial. Não funcionam movidas a frivolidades. O que faz com que dêem certo é a dedicação mútua, o respeito mútuo e também o afeto desmedido, descompromissado. Todos já vimos reportagens e vídeos sobre cadelas que adotam gatinhos, gatas que adotam pintinhos, orangotango que adota tigre, chipmazé que fez amizade com cachorro e se livrou da depressão, hipopótamo que seguia a tartaruga gigante por todos os lados depois de perder a mãe...incrível! Este tipo de relacionamento traz uma satisfação tão grande justamente por ser tão genuíno e supostamente improvável. São dois seres que não falam a mesma língua. Um não vai aprender o idioma do outro e ainda assim desenvolvem uma forma de se entenderem e de expressarem ao outro o que sentem e o que lhes falta. São seres que convivem simplesmente pelo prazer da companhia um do outro.
    Mais curioso é pensarmos, nós que temos animais de estimação, que talvez não utilizemos metade da paciência nas relações interpessoais. Já que estamos com um ser da mesma espécie, supomos que ele já sabe tudo que vai pela nossa cabeça e se não sabe tem a obrigação de adivinhar. Não sei quando foi que acreditamos nisso, mas é um equívoco daqueles! Faça uma experiência de uma dia apenas. Durante 24 horas empregue o mesmo esforço que você utiliza para descobrir se seu bichinho está com tédio ou com sede, na relação com as pessoas que convive. É claro que você não vai chegar para seu marido e dizer com voz infantilizada "quer que a mamãe troque a comidinha?", mas vai observar todos os sinais que aquela pessoa emite, vai prestar atenção só nela naquela momento. É diferente de prestar atenção na pessoa "aquele preguiçoso que não consegue levar a casca da banana para o lixo". Focalize no indivíduo sem atributos, sem defeitos, sem virtudes, um ser apenas, que não precisa de muito para ser feliz, exatamente como você, que pode ter as mesmas necessidades suas. Preste atenção, pergunte, mesmo que lhe pareça óbvio, e também se expresse, mesmo que lhe pareça óbvio. Você ficará impressionado com a reação do outro.
    Há uma lista enorme de atitudes que podem ser transpostas das nossas relações com os animais para as nossas relações com as pessoas. Por exemplo? Não cultivar mágoas, saber qual é o seu lugar, demonstrar afeto, demonstrar limites e por aí vai. Como todo processo precisa de um início específico eu sugiro que você escolha aprender com eles como amar. Incondicionalmente.

A todos os animais que me ajudaram até hoje: Mimi, Michele, Ziquito, Negão, Didão, Chumbinho, Bazeba, Genivaldo, Mimoco, Perereca, Jean Carefree, Gertrudes e seus filhos, Pafúncia e seus filhos, Juju (Lucerna Titicaca) e seus filhos gregos, Téspis, Filomena, Sidarta, Aurora, Palasatena, Camões, Magoo, Crispim, Miau, Tatu, Cacilda, Francisco, Bernardo, Adamastor, Xavier, Plínio, Antônia, Tobias, Tomé, Sinclair, Júlia & Bernardo (e os demais periquitos que vieram depois), Minhoca, Kika e aos outros cujos nomes não lembro mas não esqueço os rostos...e o amor.


4 comentários:

  1. Dri,
    Pensei que o post fosse uma homenagem ao retorno do Lulu! (aliás, o apelido de cãozinho vem a calhar!) rsrs...
    Muito interessante quando você salienta que as assimetrias na comunicação (entre as espécies, diferentes idiomas) nos fazem buscar alternativas para uma melhor qualidade de comunicação, e que quando compartilhamos o código perdemos a paciência. Com meus filhos humanos também é meio assim, quando bebês (que não falam e não entendem) podem ter direito a tanto desdobramento da minha parte, e quando mais "maduros" têm que entender e explicar direitinho e rápido, e melhor ainda se presumirem certo. Injusto! Injusto! Especialmente quando do alto de seus três anos e meio saem com coisas como "não... não exatamente", ou "adivinha o que começa com a letra BO de 'acabô'". Mereceriam toda a paz-ciência. A gente chega lá.
    beijos!
    Prel

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  2. Ai que delícia tanta atenção e amor! Beijocas em meus sobrinhos peludos!

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  3. À cada texto seu, sinto a grandiosidade da sua alma.
    Parabéns,Driquinha!
    Bjs
    Mamunka Preta

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  4. Muito bem observado e descrito, Dri. Vou tentar a comunicacao interespécie por aqui...é capaz de funcionar bem melhor...
    Beijos e parabéns!
    Andrea
    PS: adorei a lista de agradecimentos!

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